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O CAMINHO DO CIMO DA ASSOMADA/LAVADOUROS (DO ESPIGÃO AOS LAVADOUROS)

Segunda-feira, 16.12.13

Logo a seguir ao Descansadouro da Cancelinha, o caminho que ligava a Assomada aos Lavadouras, na Fajã Grande, bifurcava-se. Se voltássemos à direita era possível demandar as terras e os matagais do Vale Fundo e do Tufo ou os férteis campos e hortas da Cuada. Se continuássemos em frente, seguíamos na direcção dos Lavadouros, atravessando as produtivas terras de inhames de Moledo Grosso e da Lombega e as verdejantes pastagens da Alagoinha.

Mas antes, porém, tínhamos a árdua, penosa e angustiante tarefa de subir uma íngreme e sinuosa ladeira – a Ladeira do Espigão. Desenhada em forma de L, talvez para aliviar a a difícil e quase angustiante subida dos que por ali transitavam frequentemente, esta ladeira obstaculizava o caminhar a pessoas e animais e sobretudo aos carros de bois ou corsões que, por isso mesmo, raramente passavam por ali. Ladeada por paredes cobertas de musgos e recobertas de heras, a Ladeira do Espigão tinha de largo, amplo e espaçoso quanto possuía de abrupto, fragoso e escarpado. Os animais subiam-na lenta e ansiosamente, escorregando vezes sem conta, de boca aberta a escorrer baba e a arfar cansaço e desciam-na numa aflição permanente, numa luta contínua e num esforço, por vezes improfícuo, para não escorregar ou cair por ali a baixo. Por sua vez, homens e mulheres, também ao descê-la, carregando molhos de incensos ou cestos de inhames, tremiam como varas verdes, vacilavam arquejantes e hesitavam como crianças a dar os primeiros passos, na ânsia de procurar o melhor sítio para apoiar os pés.

Era um tormento, um suplício, uma angústia descer a Ladeira do Espigão com uma carga às costas ou à cabeça! Sorte, tínhamos porque, na subida, vagueávamos sem ter que carregar o que quer que fosse!

Uma vez atingido o cimo da ladeira, o caminho seguia plano e rectilíneo, apesar de irregular, cheio de pedregulhos misturados com pedras soltas e com uma rudimentar calçada, por entre altas paredes, ladeado por denso arvoredo a proporcionar, a quantos transitavam por ali diariamente, uma agradável sombra, dulcificante e reparadora duma exausta e desgastante caminhada. No Moledo Grosso, novamente, uma pequena ladeira, mas, para gáudio de todos, muito menos íngreme e de mais fácil acesso do que a do Espigão. Mais umas voltas curvilíneas, através de um piso cada vez mais irregular, por entre bardos de incensos, faias, de loureiros e sanguinhos e era o princípio do fim das zonas das terras de mato, o dealbar definitivo da segunda zona de pastagens. Primeiro, eram as relvas da Alagoinha, misturadas, naqueles recuados tempos, com um ou outro campo de milho e algumas terras de mato, sobretudo a Oeste, lá para os lados da Lombega e do Vale Fundo.

A separar a Alagoinha dos Lavadouros, os dois últimos lugares a que este caminho dava acesso, novamente uma ladeira, quase tão escabrosa e terrificante como a do Espigão, mas bem mais estreita e rectilínea – a Ladeira da Alagoinha, no início da qual se havia formado também um pequeno descansadouro.

Ao atingir-se o alto desta ladeira, estávamos, finalmente, nos Lavadouros, onde, logo adiante, este caminho se unia ao que vinha da Fontinha, formando uma única via que percorria os Lavadouros de Norte a Sul, servindo assim de passagem a pessoas e animais num dos lugares onde abundavam algumas das melhores relvas da Fajã. Eram relvas verdejantes, encostadas e protegidas pelo sombrio aguado da Rocha, à espera do gado que após a realização de tão longo e extenuante percurso se deliciava com o doce sabor daquela erva, tão fresquinha e retemperadora, tão tenrinha e apetitosa, regada com o orvalho das madrugadas, temperada com o perfume das florestas circundantes, alimentada pelo ciciar gotejante das grotas que escorriam pelos andurriais das encostas e abençoada pelo canto esfuziado dos pássaros a saltar e a vaguear pelos densos arvoredos da Rocha.

Percorrer o caminho desde a Assomada até aos Lavadouros, para ir “buscar as vacas” nas frescas madrugadas do verão ou “levá-las” nas chuvosas manhãs do inverno era, outrora, um sonho de encanto, um sopro de magia, um devaneio de deslumbramento. Hoje, talvez um mito estigmatizado nas memórias de poucos.  

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publicado por picodavigia2 às 15:19





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