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NOVENAS DO NATAL

Terça-feira, 17.12.13

{#emotions_dlg.painatal}Outrora, na Fajã Grande e possivelmente em muitas outras ou talvez até em quase todas as aldeias, freguesias e pequenas vilas de Portugal, que nas cidades e nas grandes vilas era um pouquinho diferente, o Natal não se anunciava através da persistente publicidade televisiva, da desenfreada corrida aos shopings, da enxurrada de prendas a serem compradas em loucas correrias, nos fins-de-semana e feriados de Dezembro, de emails repletos de interessantíssimas imagens natalícias ou de um sem número de lâmpadas multicolores a piscarem nas árvores dos jardins e nos arcos que ornamentam as ruas ou nos telhados, nas janelas e nos frontispícios das casas, das igrejas e até dos monumentos. Nessa altura, o Natal, embora já sendo a enorme e importante festa que é hoje, na Fajã Grande e, muito provavelmente, em todos os mais pequenos recônditos de Portugal, sobretudo nos mais isolados no espaço e extirpados no tempo, anunciava-se e preparava-se através das “Novenas de Natal” que tinham início precisamente no dia dezasseis de Dezembro, ou seja, como o próprio nome indica, exactamente nove dias antes do Natal.

Na Fajã Grande, para além do seu conteúdo religioso orientado no sentido de anunciar preparar os fiéis para a celebração de tão majestoso acontecimento cristão, as Novenas do Natal tinham uma característica interessantíssima: eram celebradas de madrugada, muito antes do romper do dia ou do despontar da aurora. Esse ancestral hábito dava-lhes um sentido especial, um significado transcendente, fazendo com que fossem amplamente desejadas por todos. Alta madrugada, éramos acordados pelos adultos. Levantávamo-nos à pressa, passávamos um pingo de água pela cara, que não se devia sair para o frio da madrugada com o rosto quente da cama, vestíamos umas roupas seleccionadas de véspera e, bem agasalhados para nos prevenirmos dos rigores do Inverno, de lanterna de petróleo na mão, caminhávamos na noite escura, em direcção à igreja, acompanhados pelo alegre repicar dos sinos. As ruas enchiam-se de pequenas e trémulas luzinhas e de vultos apressados. O templo, num de repente, enchia-se de gente e iluminava-se com as titubeantes luzes emanadas das frouxas lanternas de candeeiros tisnados, com o pavio muito baixo a formar uma espécie de penumbra e a exalar um mefítico cheiro a petróleo mas como que a simbolizarem que estávamos à espera da verdadeira luz que havia de chegar em breve.

Entre preces, cânticos e orações ali ficávamos uma boa meia hora, por vezes quase a dormitar, à espera que os rituais, os cânticos e as orações, liturgicamente, apresentados pelo pároco se esgotassem, para regressarmos a casa ainda mais apressados e voltar para a cama nem que fosse mais uma pequenina nesga de tempo. Antes porém cantava-se o mágico e deslumbrante canto final, verdadeiro precursor da grande festa que dias depois havia de vir:

 

“Quando virá senhor o dia,

Em que apareça o Salvador,

E se efectue a profecia:

- Nasceu no mundo o Redentor?

 

Aquele dia prometido,

Da antiga fé dos nossos pais,

Dia em que o mal será banido,

Mudando em risos nossos ais.”

 

Quando virá senhor o dia,

Da suspirada redenção,

Encha-se o mundo de alegria,

De Deus se faça a encarnação."

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publicado por picodavigia2 às 09:14





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