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PREDESTINADO

Terça-feira, 17.12.13

Desde há muito que os mitos da inocência se haviam dispersado na mente de Banaboião que já despertara para o fascínio do mundo. Todas as donzelas de Lubisonda o desejavam, e ele, no seu íntimo, ripostava a esses desejos. Os seus apetites, instintos e paixões faziam tremer os sacrossantos desígnios de sua mãe, D. Aldonça, desígnios que quase ruíram, quando o coração de Bonabaião, sedento de amor e paixão, se abriu a Ximena, filha do sócio de seu pai Rigoberto Frojaz. Agora altar, ermitério e cenóbio eram miragem. D. Aldonça, no entanto, de nada se apercebera e continuava a acreditar piamente que o seu unigénito havia de seguir as pegadas de Jesus Cristo, Nosso Senhor.

D. Paio de Farroncóbias não apoiava tão nobre intenção, antes a contrariou, embora elogiasse a nobreza e dignidade de vida dos que, afastando-se dos prazeres e glórias mundanas, se entregam ao serviço de Deus Nosso Senhor. Porém, na opinião do alcaide de Trancoso, Banaboião era jovem e belo e decerto conquistaria o coração de muitas donzelas como ele próprio conquistara o da sua muito amada Iluminata. Além disso, era forte e bem constituído de corpo e de espírito, por isso o aconselhou e encorajou a seguir a carreira de armas e a lutar ao lado do rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que assim tanto necessitava de jovens e valorosos guerreiros para que libertasse o reino dos infiéis sarracenos e se combatessem os inimigos da fé e que isso era um desígnio tão agradável a Deus como era o de subir ao altar e celebrar os santos mistérios da nossa Redenção ou o de se retirar para um eremitério para se entregar à penitência e ao sacrifício, unindo a sua vida à paixão e morte do nosso Redentor. Mais acrescentava que se fosse vontade de Banaboião e dos seus progenitores, seguir a vida de guerreiro, aceitá-lo-ia de bom grado na sua mesnada.

D. Aldonça protestava timidamente. Nunca deixaria o seu menino seguir tal destino. Que lhe perdoasse o ilustre guerreiro. Contava depois as noites e dias de preces sucessivas do seu tio D. Hermínio Guterres e dela própria, durante os seus anos de esterilidade. Finalmente Deus apiedara-se dela e dera-lhe Banaboião por isso o menino estava destinado ao serviço de Deus. Nascera numa manhã de Verão, rubente como uma peónia como que por milagre e durante o seu nascimento vários outros milagres aconteceram: ela não sofreu dores nenhumas, os sinos repicaram sem que ninguém os tocasse, o céu cobriu-se de pombas brancas, o aparecimento tardio e repentino de leite nos seus seios que na altura do nascimento estavam secos, o olhar fixo e contínuo do menino para imagem de Cristo enquanto se baptizava ainda só com oito dias de existência. Tudo isto eram indícios de que Banaboião nascera para se consagrar totalmente a Deus Nosso Senhor, ou antes, nascera já consagrado. Além disso, tudo nele era perfeito como ainda agora se podia observar: alvo de neve, olhos negros, proporção admirável de todos os seus membros, enfim, a perfeição completa o que vinha confirmar que Deus Nosso Senhor o havia escolhido para seu eleito como desde logo após o seu nascimento o confirmara seu tio Hermínio Guterres. Numa palavra, o seu menino era mais anjo do que criatura humana. Por isso não podia seguir as pegadas de D. Paio. Depois - continuava a explicar Aldonça, tentando demover D. Paio de Farroncóbias de tão drástica intenção - muito era o empenho e esmero que tinha posto na sua educação. Escolhera-lhe os melhores mestres que mais iluminados do que arcanjos cedo lhe ensinaram as primeiras letras, enquanto com ela e com vigário Guterres ele tinha aprendido os Mandamentos da Santa Lei de Deus e as Leis da Santa Igreja Romana. Mesmo agora, Aldonça considerava-o um espelho de virtudes pois que se lhe mantinham puros os instintos e os impulsos do coração como os sentidos se firmavam refractários aos engodos do apetite. Com mulheres apenas convivia com ela, sua mãe e com a jovem Ximena, mocinha jucunda, descuidada e nada mais igual à boninha que era ele. Tudo nele era orientado para que se dedicasse à vida monástica e ascética e ao serviço de Deus Nosso Senhor e não para combater fosse ao lado de quem fosse. Perante tais evidências e sobretudo por conselho do vigário Guterres ela sabia que ele era consagrado a Deus e assim como não o deixara seguir os negócios do pai também se opunha a que seguisse a carreira de armas.

D. Paio de Farroncóbias compreendeu e regozijou-se por estar em frente de tão predestinado jovem, desistindo assim de desviar para a guerra o que fora talhado para anunciar os mistérios de Deus Nosso Senhor.

 

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 15:09





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