Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



OS TIJOLOS DE COZER BOLO

Quarta-feira, 18.12.13

Na Fajã Grande chamava-se “tijolo” a um instrumento ou utensílio cuja principal e mais importante funcionalidade era a de cozer o bolo, mais conhecido por “bolo do tijolo”. Mas os tijolos de cozer bolo também serviam para torrar milho, favas ou até farinha, tendo, por isso grande importância nos hábitos alimentares e nos costumes caseiros da população daquela freguesia florense, pelo menos até ao final da primeira metade do século passado. Acredita-se que estes tijolos terão sido, a partir do início do século XIX, os sucessores das antigas, primitivas e míticas pedras ou lajes, utilizadas nos primórdios do povoamento das ilhas açorianas, para a cozedura do bolo.

Estes tijolos eram feitos de barro, o que os tornava mais leves e, além disso, aqueciam mais facilmente do que as lajes de pedra, consumiam menos lenha, podendo até serem aquecidos somente com lenha fina ou com garranchos, isto é, sem achas ou troncos grossos ou, simplesmente, com sabugos de milho e, mais importante do que tudo, coziam o bolo mais depressa, facilitando, assim o trabalho da mulher. Mas os tijolos também tinham algumas desvantagens relativamente às pedras ou lajes, pois rachavam e até quebravam mais facilmente e antes de serem usados, pela primeira vez, tinham que ser “destemperados” para não quebrarem logo de início. Para os “destemperar” deviam ser untados com graxa de porco, cheios de água a que se juntava, segundo testemunhos de pessoas mais antigas, uma folha de couve. De seguida era aceso o lume até a água ferver e se evaporar por completo. Só então o tijolo estava pronto a ser utilizado.

Na Fajã Grande e creio que em toda a ilha das Flores, estes tijolos eram de forma circular, embora uns tivessem o diâmetro maior do que outros e todos, geralmente, tinham um bordo lateral, relativamente baixo. Para cozer o bolo os tijolos eram colocados em sistemas estruturais diferentes. Uns, os mais pequenos eram postos em cima de três pedras outros, em casa das pessoas de mais posses, em cima de uma grelha de ferro, podendo, num caso e no outro, serem colocados ou retirados em qualquer altura. Porém a maioria dos tijolos, sobretudo os maiores, eram encastoados permanentemente numa espécie de fornalha, ou seja numa estrutura circular, feita com pedras de tufo e com uma boca de entrada na frente, por onde se metia a lenha e se afogueava o lume, e donde nunca eram retirados. Esta estrutura com o tijolo a tapar-lhe a parte superior, formava uma espécie de forno, em miniatura, mas que, com o brasido que ali ficava, terminada a cozedura do bolo, servia, perfeitamente, para assar maçarocas e batatas-doces, para aquecer um caneco de alumínio com o leite para as crianças ou um bule de café para os adultos.

Contrariamente às lajes, os tijolos tinham que ser construídos por oleiros, especialistas na matéria, e comprados pelos seus utentes. Na Fajã não há memória de terem existido oleiros, mas consta que os havia por ali bem perto, para os lados do Mosteiro e, sobretudo, do Lajedo, onde havia muito barro. Alguns tijolos, porém, eram importados de outras ilhas.

Para cozer o bolo, geralmente acendia-se o lume na fornalha do tijolo, antes de o amassar e tender, para que fosse aquecendo lentamente. Para testar o calor do tijolo, bastava atirar-lhe para cima um pouco de farinha. Se esta alourasse o forno estava no ponto de cozer o bolo, o qual a meio da cozedura, devia ser virado a fim de que cozesse, igualmente, de ambos os lados. O bolo embora tendido de forma redonda, formando um círculo bastante grande, quase mesmo com o diâmetro igual ao do tijolo, era partido em quatro partes, ou em quatro “quartos”, para mais fácil colocação no tijolo, uma vez que a mesma, assim como a viragem durante a cozedura, eram feitas com as mãos.

A partir da década de sessenta com o aparecimento e explosão do fogão “primus” e das chapas de ferro, a maioria dos tijolos de barro, assim como todas as outras ancestrais estruturas de cozinhar, na Fajã Grande, caíram em desuso e extinguiram-se quase por completo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:28





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031