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QUANDO AS VACAS ARRANCAVAM AS ESTACAS

Sexta-feira, 20.12.13

Na Fajã Grade, antigamente, era costume por parte dos criadores de gado bovino, nos meses de Abril. Maio e Junho, colocar os animais no “oitono”. Designava-se, com esta palavra, própria e creio que exclusiva da gíria fajagrandense, os terrenos onde, depois da apanha do milho, floresciam o trevo, a erva-da-casta e, por vezes o alcacel ou as favas. Estas forrageiras eram semeadas sobretudo nas terras de lavradio do interior, ou seja nas que se situavam entre as casas e a zona das relvas e das terras de mato e que existiam, sobretudo e em maior número, no Mimoio, na Bandeja, nas Queimadas, no Alagoeiro, na Ribeira, na Fontecima, no Batel, no Tanque e no Vale da Vaca.

O gado, nestes campos, estava permanentemente amarrado por uma das mãos, com uma corrente que era divida em as duas partes, sendo, a mais próxima da mão da rês, mais curta e mais delgada, ligadas por um “suevo”, a fim de evitar que se enrolasse, impedindo o animal de se movimentar. Do lado oposto, onde se situava a parte mais grossa e comprida, a corrente tinha uma argola, na qual se enfiava uma estaca de ferro. Era esta estaca que, cravada no terreno, prendia o animal.

Ao longo do dia, os donos do gado, de vez em quando, ia mudando as estacas, batendo-as com um maço de madeira de grandes dimensões, a fim de que cada animal usufruísse de uma “cordada” condigna, ou seja, de uma área delineada, em semicírculo que continha a quantidade de forrageira necessária para alimentar a rês e que esta pudesse alcançar, embora, esticando-se em demasia para o fazer.

As “cordadas” porém não eram muito folgadas. Pelo contrário, por vezes, até eram muito curtas e reduzidas, pois havia que poupar nas rações, até porque, sobretudo à noite, eram reforçadas com erva, incensos e outros alimentos recolhidos noutras paragens. Pretendia-se, assim, por um lado, poupar na forrageira e, por outro, “trilhar” bem o terreno, isto é, estrumar bem o campo a fim de que estivesse apto para a próxima sementeira, uma vez que, regra geral, não iria receber mais estrume, sargaço ou adubo.

Só que havia vaquinhas que eram fortes, muito fortes e as estacas, pelo contrário, eram pequenas e frágeis e, por vezes, enterradas em terra húmida e amolecida pela chuva. Ora uma vaca forte, com uma ”cordada” reduzida, e com a fome a apertar, começava a puxar, a puxar, a puxar e a esticar-se toda para apanhar a maior quantidade de forrageira possível. As correntes eram fortes e raramente rebentavam. Mas as estacas de reduzida dimensão, de desmedida fragilidade e enfiadas na terra mole… Não tardava nada e começavam a dar de si. Daí a saírem da terá era um ápice. Uma tragédia! Na manhã seguinte lá estava uma ou outra vaca, com a estaca arrancada, a dar cabo do “oitono”, a depenicá-lo aqui e além, como se fosse uma galinha, onde bem quisesse e lhe apetecesse, a sujá-lo e sobretudo a deitar-lhe bosta em cima, de forma que as outras vacas já mais lhe tocassem ou sequer olhassem para ele.

Vaca que se soltasse numa terra de “oitono” era um grande prejuízo. Para evitar tragédias semelhantes, embora muitas vezes só depois de estarem consumadas, os lavradores precaviam-se, colocando pesados calhaus em cima das estacas ou então, de maneira mais segura, compravam estacas maiores, que havia ferreiro na Fajã que as fazia, do tamanho que cada qual pretendesse.

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publicado por picodavigia2 às 17:40





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