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UMA BRINCADEIRA DE MUITO MAU GOSTO

Sábado, 21.12.13

O José Rodrigues, também conhecido pelo “Bem se sabe”, dado que nas suas conversas usava frequentemente este chavão, era um homem simples, generoso, benévolo e, além disso, possuía uma cultura geral bastante interessante, mas era muito ingénuo.

Filho do João da Catrina, morava no início da Assomada, quase à Praça. Para além de ajudar o pai nas lides do campo, o José Rodrigues era um excelente carpinteiro, com oficina montada nas Courelas. Rezam as crónicas, que foi ele que, nos finais dos anos trinta, construiu as primeiras balizas para o campo de jogos do Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, onde jogavam os dois primitivos clubes de futebol da Fajã Grande, o Sport e o Salgueiros e que mais tarde se uniram, formando o Atlético Clube da Fajã Grande, agremiação que manteve a prática desportiva, na freguesia, até há poucos anos. Era ele também que construía os caixotes de madeira, dentro dos quais eram colocadas as latas da manteiga, produzida pela Cooperativa da Fajã Grande e exportada para o Continente.

Ora certo dia, um grupo de energúmenos, maldosos e malévolos, decidiram, imprudentemente, que haviam de divertir-se à custa da simplicidade e da ingenuidade do José Rodrigues. Lamentavelmente, exageraram e fizeram-no da pior forma e da mais vil e abominável maneira, esquecendo as danosas consequências que teria o seu acto hediondo e tresloucado.

Ao cair da tarde, um dos membros do grupo convidou o José para ir fazer serão à sua casa, na Tronqueira, onde vivia com a esposa. O José, alegre e bom conversador, aceitou de bom grado o convite, demorando-se em casa do seu anfitrião, apenas, durante o tempo combinado pelo grupo. No momento exacto foi-lhe sugerido que se fosse embora. Já era um pouco tarde e os da casa pretendiam deitar-se. Despedindo-se dos presentes, educadamente, como era seu timbre, e agradecendo a hospitalidade, o José saiu, na maior das calmas, com destino à sua casa. Os restantes elementos do grupo, informados de tudo, esconderam-se à entrada da Tronqueira, numa terra do Francisco Tomé, bastante mais alta do que o caminho e separada deste por uma grossa parede. Precisamente no momento em que o José Rodrigues ali passava, à socapa e sem escrúpulos, atiraram-lhe para cima uma caneca acabada de retirar duma retrete das redondezas, a abarrotar de urina e de fezes humanas, já em putrefacção. A acção foi tão rápida e célere que José não teve alternativa e levou com toda aquela imundície em cima de si. Um verdadeiro horror! Uma péssima e asquerosa brincadeira, condenada a todos os níveis.

No dia seguinte, foi feita a participação às autoridades competentes. Estas, de imediato, identificaram os prevaricadores, o que até não foi difícil porque os donos da casa onde o José fora passar o serão, haviam-se esquecido de que eram cúmplices, não ocultando a sua colaboração naquele deplorável acto.

Julgados em tribunal, depois de antes terem sido radical e abominavelmente condenados por toda a população da freguesia, todos os elementos intervenientes naquela malévola e ascorosa brincadeira foram presos, ficando algum tempo na cadeia, na vila de Santa Cruz, excepto um deles, por ser menor. O dono da casa onde o José fora convidado a fazer serão também foi condenado e preso. E quando a esposa chorosa e desolada, lamentava, amargamente, o infortúnio do marido, junto do seu progenitor, este, virando-lhe as costas em sinal de reprovação, simplesmente lhe disse: “Até tu, também devias estar presa”.

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publicado por picodavigia2 às 17:39





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