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VASSOURINHAS DE PALHA

Sábado, 21.12.13

Para além das vassouras propriamente ditas, ou seja, aquelas que eram fabricadas com a palha do chamado “milho de vassoura”, na Fajã Grande, pelo menos até à década de cinquenta, também se faziam vassouras com a palha do trigo. Estas, porém, eram muito diferentes daquelas, não apenas no tamanho mas também no formato e, até certo ponto, no que à sua funcionalidade dizia respeito.

A primeira grande diferença entre estas vassourinhas de palha de trigo e as vassouras feitas com os caules e fibras do milho com o mesmo nome, era a de que as primeiras não tinham cabo, ou melhor não tinham cabo de madeira, o que obviamente baixava o seu custo de produção, permitindo que fosse mais fácil e menos trabalhoso adquiri-las. Comprar nas lojas, as vassouras que o Teófilo produzia no Faial e exportava para as Flores, era muito caro e inacessível aos bolsos de muitos fajãgrandenses e cultivar milho de vassoura, apenas nos cantos das belgas e cerrados não chegava para meia missa, isto é, para fazer meia vassoura. Todo o tereno era pouco para o milho, para a batata-doce e para as couves e, por isso mesmo, não podia desperdiçar para fazer vassouras. Mas as “vassourinhas de palha” não substituíam na globalidade as outras, pois eram bem mais pequenas e destinavam-se fundamentalmente a varrer o lar, as escadas e todos os cantos e recantos da casa onde as vassouras maiores e de cabo de madeira não chegassem.

Para o fabrico destas “vassourinhas”, escolhia-se a palha, não sendo imprescindível, sequer, que se seleccionasse a melhor. Era necessário, isso sim, que fosse a mais comprida. Após secar durante algum tempo, cortava-se o pé, se o trigo tivesse sido arrancado, e as sobras da espiga, se esta ainda existisse. Depois juntava-se uma boa mão cheia da dita cuja, preferencialmente toda do mesmo tamanho. Se o não fosse, cortavam-se as extremidades das maiores de modo a que ficassem todas iguais. De seguida dobram-se a meio e amarravam-se muito bem apertadas logo a seguir à parte dobrada, pelo menos em dois sítios, equidistantes um do outro. Espalmavam-se um pouco as palhas de meio para baixo, e amarravam-se de novo, de forma entrelaçada, de maneira a que as palhas mantivessem esse formato. Estava feita a vassourinha, que de tão pequena que era podia, realmente, ser manejada apenas com uma das mãos, pelo que estas vassouras também eram designadas, simplesmente, por “vassouras de mão”. Se a palha fosse muito curta as vassouras adquiriam um formato ligeiramente diferente. Neste caso a palha não era dobrada a meio, mas apenas amarrada numa das extremidades, procedendo-se, de seguida de igual forma como naquelas em que a palha era dobrada.

Para além da grande utilidade que tinham na limpeza e asseio das casas, estas vassouras também eram usadas pelos carpinteiros para varrer o cisco dos bancos onde trabalhavam, pelos moleiros para varrer a farinha sobre a mó do moinho, pelas cozinheiras para varrer os tijolos de cozer o bolo e por quem quer que fosse para juntar o milho, as favas os tremoços e até o trevo e erva-da-casta, postos a secar ao Sol. Depois de muito usadas e gastas, ainda serviam para varrer as casas velhas, sobretudo quando se debulhava milho ou descascavam as favas, e para limpeza das retretes, dos chiqueiros das galinhas e dos pátios e escadas.

Tinham pois muita utilidade, estas vassouras que, com o abandono do cultivo do trigo, começaram a rarear, embora houvesse quem as fizesse, nessa altura, com fios de espadana e até com bracéu, neste caso de forma semelhante aos pincéis de caiar as casas, mas sem cabo. É que as vassouras eram absolutamente necessárias na Fajã, uma vez que também serviam para apanhar os cacos do que se partia e para varrer as ruas quando se faziam os tapetes de flores e verduras para passarem as procissões ou para receber o Senhor Bispo ou outro personagem importante. Eram pois muito usadas, as vassouras, na Fajã e, como as de cabo eram mais caras e difíceis de se obter, recorria-se às célebres “vassourinhas de palha”, uma espécie de percursoras das vassouras de piaçaba, e que hoje muito provavelmente já não há memória.

Na realidade, na origem do fim destas vassourinhas, para além do abandono da cultura do trigo, também terá contribuído fortemente para o seu declínio e consequente extinção, o aparecimento, no final da década de cinquenta, na Fajã Grande, das vassouras de piaçaba, ao que parece, trazidas do Brasil, no início do século XX e sobretudo na década de trinta, por portugueses que tinham emigrado para o Brasil e que regressavam ao seu país de origem.

Na Fajã Grande, como em muitos outros lugares do país, também havia, nalgumas casas, a tradição de colocar uma ou mais vassouras atrás da porta, mas viradas ao contrário, ou seja, com o cabo para o chão e a parte de varrer para cima, com o objectivo de “afugentar as visitas indesejadas”, embora os que queriam manter oculta a sua crendice ou os que nisso não acreditavam, afirmassem que o faziam, simplesmente. para melhor conservar as ditas cujas.

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publicado por picodavigia2 às 18:41





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