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AS FONTES

Domingo, 22.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, havia muitas fontes, duas em cada uma das ruas maiores e uma nas mais pequenas. Assim a Assomada, a Fontinha, a Rua Direita e a Via d’Água tinham duas fontes cada, enquanto as restantes ruas tinham simplesmente uma, isto se não tivermos em conta os bebedouros do gado, na Fajã vulgarmente chamados “poços”, e que também tinham uma fonte, embora nalguns a água corresse continua e permanentemente, dado que não possuíam torneiras. Havia também algumas fontes fora do povoado, sendo as mais célebres a Fonte Vermelha e a do Delgado, mas dessas não reza esta crónica.

As fontes, na Fajã Grande, como naturalmente noutras terras, situavam-se em sítios mágicos, bucólicos, poéticos e míticos, transformando-os em verdadeiros locais de encontro, de descanso, de conversa, de amizade, de troca de afectos e, por vezes até, de namoricos.

Por outro lado, pode dizer-se, em boa verdade, que as fontes tinham um tríplice valor – funcional, simbólico e ornamental. Funcional, porque como a maioria das casas da Fajã Grande, na década de cinquenta, não possuía água, era preciso “ir à fonte”, buscar água. Na realidade eram elas que forneciam a água necessária para lavar as casas e a roupa, para a higiene pessoal, para cozinhar, para dar de beber aos animais e às vezes até para regar os pequenos jardins dos pátios em frente das casas. A água das fontes servia também para matar a sede dos que junto delas passavam ou se aproximavam. Muitas vezes, os que percorriam os caminhos nas suas lides quotidianas, paravam junto às fontes não só para beber água, mas também para descansar e conversar com quem ali estava. Algumas fontes também eram descansadouros, como uma que existia na empena Sul da Casa do Espírito Santo de Baixo. As fontes também tinham um valor simbólico porque eram autênticos sítios privilegiados e singulares, muito bem localizados na freguesia, de tal forma conhecidos por todos que serviam de referenciais para encontros, para conversas e para momentos de descanso. Por vezes, ia-se à fonte para dar dois dedos de conversa, para dar um recado ou até para namorar. Finalmente as fontes tinham um valor ornamental, pois normalmente estavam situadas em cruzamentos de ruas e nelas eram construídos nichos de cimento, com artefactos diversos para segurar o vasilhame e banquetas à volta para as pessoas descansarem, depois de saciarem a sua sede. As fontes até serviam como locais para brincadeira da garotada que ali enchia a boca para brincar à pesca à baleia, para bochechar ou até para molhar os outros, tapando a torneira com o dedo, de forma que a água respingasse para os lados e alagasse os comparsas de brincadeira ou quem por ali passasse descuidadamente.

Sob o ponto de vista arquitectónico, as fontes da Fajã eram edificações simples, geralmente em forma de nicho, construídas em cimento e caiadas de branco como as casas. Normalmente só tinham uma torneira, com excepção de uma, na Rua Direita, no cruzamento do Caminho de Baixo, que tinha duas torneiras e que, por isso mesmo, se chamava “Chafariz”, enquanto as outras eram simplesmente designadas por “Fontes”. A Fonte Velha, na Fontinha, as do meio da Assomada e da Via d’Água e a da Tronqueira eram belas e antigas construções, em forma de nicho gigante, que por vezes até serviam de abrigos quando chovia. Todas as fontes tinham uma peanha para se colocarem as vasilhas de encher a água, na qual havia também um esgoto. Contrariamente a muitos outros lugares do país, na Fajã as fontes não tinham tanque para lavar roupa, talvez porque ir lavar à roupa às ribeiras fosse um hábito ancestral, que devia manter-se pois era lá que as mulheres se juntavam em maior número e onde havia mais abundância de água.

Na Fajã Grande, na década de cinquenta havia ao todo onze fontes. Uma fonte no Cimo da Assomada, logo a seguir à casa do Corvelo e uma outra no largo da Canada, em frente à casa das senhoras Mendonças. Na Fontinha também havia duas fontes: uma, designada por Fonte Velha, num largo em frente à casa do “Arionó” e outra, lá mais para cima, ao lado da casa de tio Britsa. Nas Courelas havia apenas uma, também num cruzamento, em frente à Casa do João Cardoso e funcionava como descansadouro de quem vinha carregado do Areal. Na Rua direita o Chafariz e a fonte junto à Casa de Baixo e na Tronqueira, apenas uma, junto à casa do Roberto Belchior. Na Via d’Água também existiam duas fontes, uma, mais antiga, em frente à casa do José Furtado e outra, construída quando da abertura da estrada, também num largo, ao lado da casa do Serpa da Ponta. A Rua Nova, a mais pequena da Fajã, também tinha apenas uma fonte.

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publicado por picodavigia2 às 14:39





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