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A PRAÇA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 22.12.13

Domingo, 8 de Setembro de 1946

“Hoje é domingo e esteve um dia de muito bom tempo. Afinal ainda estamos no Verão, mas aqui nas Flores e na Fajã Grande, por vezes, em Setembro, chove como Deus a dá e o vento sopra com tanta força que quase nem se pode sair de casa. Mas hoje esteve um dia de muito bom tempo, por isso, de tarde, fui sentar-me à Praça, como é costume aqui na Fajã Grande. Lá estavam muitos homens da minha idade, os velhos de hoje, que foram as crianças de ontem. Mas também lá estavam alguns bem mais novos e até algumas crianças. Mas estas não paravam em ramo verde. Sempre a correr, a brincar e a saltar, Da minha idade, mais ano menos ano, estavam o João Barbeiro, o Mateus Felizardo, o José Batelameiro, o Manuel Dowling, o Caixeiro, o José Pureza, o João Augusto, o Antonho Joaquim, o José Eduardo, o Antonho do Alagoeiro, o José André, o António Maria e muitos outros. Ali passámos a tarde inteira, umas vezes a dormir, outras a conversar e a falquejar. Apenas, de vez em quando, umou outro se levantava para ir ao seu palheiro, deitar comida às vacas.

Mas a Praça hoje já não é o que era no meu tempo de criança e de rapaz, antes de eu ir para a América, embora ali ainda se juntem muitos homens, sobretudo aos Domingos e durante as tardes de muito calor. Mas antigamente aquilo é que era! A Praça era muito diferente do que é hoje, estava sempre cheia de homens, era um espécie de lugar mítico, bastante maior do que agora e rodeada de casas, sendo uma delas, aquela que hoje serve de arrumos ao Laureano Cardoso, a casa onde moravam os avós deste rapaz aqui da Fajã, que se tem revelado um grande poeta e escritor e também um opositor ao regime do Salazar, o Pedro das Mendonças. E sobre isto mais não digo, porque as paredes têm ouvidos. É que dizem que a guarda tem andado por aí, a pedir informações a uns e a outros sobre o que o rapaz diz e escreve contra o Governo de Salazar. Parece que o querem engaiolar. Por isso voltemos à nossa conversa sobre a Praça, um dos mais belos e emblemáticos lugares da Fajã Grande.

Era ali que, quando eu era pequeno se reuniam os homens mais velhos, alguns até tinham apelidos bastante interessantes: o Ti Capãozinho, o Antonho Anina, Ti Antonho Fanha, o tenente Rodrigues Freitas, o José Sailé, o Manuel Inácio Xibante, o senhor padre António José de Freitas, Ti Antonho Silveira, Ti Manuel Ferreiro, Ti João Aço, Ti Manuel Cavala, Ti António George e tantos outros. Ali ficavam tardes e tardes inteiras, a falar, a conversar, a contar estórias da América, coisas de outros tempos. Era também ali que decidiam quando seria o dia de Fio, quem iria juntar as ovelhas por este ou por aquele sítio, quem devia fazer as testadas, em que dia, cada um usava a água dos regos das lagoas da Figueira e das Covas e muitas outras coisas. Era também na Praça que se escolhia o gado para matar pelo Espírito Santo, os interesses e as necessidades da freguesia que tinha sido separada da Fajazinha há poucos anos, o que era preciso construir e quem havia de o fazer. Falava-se dos ataques dos piratas, de naufrágios, das embarcações que paravam nas ribeiras para se abastecer de água e dos que fugiam para a América a bordo delas e das baleeiras. Era ali também que se fazia justiça, se pregava a moral e os bons costumes, que se decidiam as partilhas dos que não se entendiam e se falava da religião. Era também ali que se previa o tempo, lendo nas nuvens como estaria o tempo no dia de amanhã, de que lado sopraria o vento e se iria ou não chover, no dia seguinte. A Praça ainda era uma espécie de tribunal, pois era lá que se julgavam e condenavam uns e outros por actos, gestos e falas menos correctas. Mas o melhor da Praça era que lá se descansava e, às vezes, até se dormia. Que saudades eu tenho da Praça dos meus tempos de criança”

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publicado por picodavigia2 às 15:47





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