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PELOS TRILHOS DA RIBEIRINHA NA DEMANDA DO ALTO DOS CEDROS

Domingo, 22.12.13

Integrando o Projecto “Freguesias CoMvida” organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia da Ribeirinha do Pico, a mais jovem do concelho lajense, organizou, entre os dias 27 de Fevereiro e 4 de Março, uma semana cultural e desportiva, durante a qual teve lugar um conjunto de actividades diversíssimas, das quais se destacaram workshops, tertúlias, feira do livro, música, teatro, literatura, programas educativos, trilhos, jogos de salão, jogos tradicionais, passeios, fotografia, etc.

Entre estas actividades que, segundo a opinião dos seus organizadores, tiveram uma adesão bastante significa por parte da população, teve lugar, na manhã do dia 4 uma interessantíssima caminhada pedestre por trilhos antigos, outrora calcorreados pelos homens e pelas mulheres da Ribeirinha, de pés descalços ou de albarcas, a labutar nas suas lides agrícolas diárias. Trata-se de caminhos outrora repletos de pessoas, de animais, de vida, de pujança e de animação, percorridos por carros de bois a sulcar-lhes as pedras, e a marcá-las para sempre com rilheiras, ainda bem visíveis, mas hoje abandonados e quase desertos, a abarrotar de árvores, de vegetação, de sombras, de ecos da chiadeira de carros e de murmúrios silenciosos, mas ainda detentores duma beleza sublime e de uma graciosidade inaudita.

O grupo, que se dispôs a percorrer estes eternos caminhos de um passado recente mas ainda bem presente nalgumas memórias, era constituído por vinte e três pessoas, sob a orientação do Sr Flávio, um ribeirense de gema, profundo conhecedor e amante da sua terra. Cada vereda, cada caminho, cada atalho, cada pedra, cada árvore, cada planta, cada erva, cada pássaro e até cada árvore derrubada, parecem estar-lhe no sangue e pertencerem ao seu quotidiano, ao mesmo tempo que, nos seus périplos pela natureza, estabelece com cada um dos seus elementos uma perfeita relação de estima, de respeito, de reconhecimento e de profunda amizade.

Saindo do Largo do Império, ali mesmo junto à Ribeira do Fundo, a receber lá em cima a confluência das ribeiras dos Valinhos e do Poço da Areia, atravessámos a Rua da Igreja e entrámos na Canada do Outeirão, com destino à parte mais interior da freguesia e da ilha. Depressa atingimos a Estrada Nacional, antes porém, examinámos aquilo que outrora foi uma eira de debulhar o trigo e o centeio, embora já sem moirão e bastante abandonada. De seguida iniciámos a subida do Caminho Novo, até à Travessa, sendo possível observar, à mistura com alguns terrenos de cultivo de inhames e pastagens, uma vegetação onde dominam os incensos e as faias, intercalados algumas acácias gigantescas, espécie importada da Austrália e que durante muitos anos abasteceram a pujante construção naval da vizinha freguesia de Santo Amaro. O caminho está pejado de erva néveda, de erva férrea, de erva branca, de salsa-parrilha, de junça brava e de mentrasto, a conferir-lhe um perfume adocicado e um sabor amarelecido. São os saborosos inhames destas paragens que outrora, juntamente com os “torresmos tolos”, guardados juntamente com pedacinhos de linguiça na “cabouca”, serviam de lauta refeição matinal, a revigorar, logo pela madrugada, os homens que cavavam estes campos e que carregavam molhos, cestos e sacos por estas íngremes e sinuosas veredas. Zona de densos arvoredos, de arbustos, de ervas, de flores e de frutos, é território privilegiado da “Forfalha” ou “Estrelinha”, um dos mais pequenos pássaros do Pico.

Terminado o Caminho Velho, entrámos na Travessa que nos conduziu à Ribeira do Poço da Areia, descendo, de seguida, até à estrada Nacional, ao longo da sua margem direita, povoada por um denso arvoredo, muito dele derrubado por fortes vendavais, onde pontificam muitas espécies endémicas como a Urze o Pau Branco, o Sanguinho, o Loureiro e o Vinhático.

Depois a Mata, outrora local da grande festa dos lavradores  a rivalizar com a da Baixa, celebrada junto ao mar, a Terra Alta e a descida do Caminho Velho, onde também são visíveis as rilheiras marcadas pelas rodas dos carros de bois a circular por ali abaixo anos a fio. Finalmente a descida da Ladeira, a meio da qual virámos para o Caminho da Rocha, na demanda do mais belo e mais emblemático miradouro da freguesia: o Alto dos Cedros. Dali, apesar do nevoeiro e da neblina reinantes, foi possível apreciar uma das mais belas paisagens da ilha do Pico, da sua costa norte, altiva e imponente, a abarrotar de verdura, com São Jorge lá ao fundo, separado da ilha montanha pela insustentável e perene braveza do oceano.

É verdade que por ali não há cedros, apenas zimbreiros. Perante a estranheza dos presentes, a explicação foi rápida e eficiente: que a origem daquele topónimo, nada tem a ver com a espécie vegetal sua homónima, mas sim com uma importante e ilustre família ribeirense, de apelido “Cedros”, que por ali abaixo, outrora, possuía terras, hortas, vinhas e adegas.

A Semana Cultural e Desportiva da Ribeirinha encerrou, à noite, com um sarau, durante o qual foi apresentado o livro de Guiomar de Lima, sobre Dom José Vieira Alvernaz, Patriarca das Índias e um dos mais ilustres filhos daquela freguesia picoense e em que actuou, sob a orientação do Maestro Emílio Porto, também ele natural da Ribeirinha, o Grupo Coral das Lajes do Pico, deliciando o público com uma soberba interpretação de alguns dos mais belos temas musicais do seu vasto repertório.

Texto publicado no Pico da Vigia, em 05/03/12

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publicado por picodavigia2 às 22:30





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