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O EMBRULHO

Terça-feira, 24.12.13

Era véspera de Natal. Álvaro respirou de alívio. Finalmente o presépio estava pronto, a obra, na construção da qual se empenhara, meses seguidos, com a ajuda da irmã mais velha, estava concluída. Sentou-se no chão, de pernas cruzadas, a contemplar o que acabara de construir: era um belo presépio, talvez um dos maiores e mais bonitos dos que se faziam na freguesia. Observou e voltou a observar em pormenor. O presépio realmente tinha tudo: montes, ribeiras, lagos, caminhos, vacas e ovelhas a pastar, campos, casas, ruas por onde andavam pessoas, uma igreja, o palácio de Herodes, a casa de Barbearias e, como não podia faltar, uma enorme furna, parecida com a furna do Peito, onde pernoitavam o Menino, Nossa Senhora, São José, a vaca, o burrinho e, ao redor e ajoelhados, anjos, pastorinhos e camponeses.

A preparação havia durado meses, desviando-o, por vezes, de outras tarefas que, apesar de criança, era obrigado a fazer. Mas o presépio… Não, esse não podia falhar.

Os dias anteriores tinham sido destinados a apanhar o musgo e as ervas no Outeiro, buscar a areia e os seixos ao Canto do Areal. Antes, porém, passara dias e meses, sobretudo ao serão, construindo as casas, a igreja e o palácio de Herodes, alisando a prata para fazer os lagos e as ribeiras e colocando o trigo em pratinhos a germinar. Fizera as casas com caixas de sapatos, escolhendo duas outras maiores: uma para o palácio e outra para a igreja. As casas eram muito bem feitas, umas diferentes das outras, com as portas devidamente cortadas e vincadas, de modo a abrirem e fecharem, as janelas com vidros feitos com papel de plástico colado por dentro e até, nalguns casos, com cortinas feitas com papel de seda. Os telhados eram de papelão canelado de cor castanha, de forma a simular as telhas no seu formato e na sua cor. Por sua vez o palácio de Herodes era todo enfeitado com janelas, varandas e torres. Do mesmo modo a igreja tinha uma torre com sininhos desenhados, uma cruz no cimo, cata-vento e tudo. As figuras tinham sido recortadas de calendários e postais e reforçadas com tiras de papelão. Apenas o Menino, a Virgem e São José eram de barro. Comprara-as o pai, cedendo a muitos pedidos e promessas, quando fora a Santa Cruz pagar a décima. A vaca e o burro, ele próprio os falquejara de pequenos troços de criptoméria que encontrara no caminho. Ele próprio também confeccionara as ovelhas, desenhando-as e recortando-as nas tiras do papelão que sobravam das portas e das janelas das casinhas, colando-lhe pedacinhos de algodão apenas do lado em que ficavam voltadas para fora.

A construção do monte fora o que lhe dera mais trabalho e consumições. A mãe fartava-se de o avisar de que não queria mais tralha em casa do que já tinha. A pouco e pouco, no entanto, lá foi arranjando mais uns caixotes, umas tábuas, uns papelões, amachucando e forrando tudo com leivas de musgo e com outras verduras, de forma a simular o monte, por onde deslizavam ribeiras feitas com tirinhas de papel prateado e onde pastavam as ovelhinhas.

Finalmente construíra a parte inferior, já no chão da sala, junto à qual estava agora sentado. Cobrira uma parte do soalho com areia, ladeara-a com seixos, afim de não se espalhar pela casa provocando, mais uma vez, os protestos da sua progenitora. Sobre a areia edificara o povoado, colocando a igreja, as casas, os lagos onde desaguavam as ribeiras e onde construiu, através da colocação de seixos mais pequeninos, os caminhos e as ruas por onde circulavam pessoas e animais, na labuta da sua actividade quotidiana.

Num dos extremos lá estava o palácio de Herodes e no oposto a casa de Barbearias. Sobre a gruta brilhava uma enorme estrela e um anjo segurava uma tira de papel onde se podia ler algo que Álvaro não entendia, porque era em latim, semelhante ao da missa do galo. Tudo uma verdadeira perfeição!

Retirou-se feliz. Cumprira a sua parte. Agora aguardava que o Menino lhe trouxesse o presente.

 

E, na manhã seguinte, mal se levantou, correu apressadamente para junto da gruta. E não é que lá estava o embrulho de figos passados que tanto tinha pedido e que lhe souberam a mel.

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publicado por picodavigia2 às 00:31





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