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A FAJÃ DAS FAIAS

Terça-feira, 24.12.13

A Fajã das Faias era um dos mais interessantes, curiosos, pitorescos e originais lugares da Fajã Grande. Era também o lugar situado mais a Sul daquela freguesia, no que à zona das terras mais baixas dizia respeito, uma vez que ficava já quase como que encastoado em pleno território da Fajãzinha, embora do lado de cá da Ribeira Grande.

Era um lugar pequeno, este da Fajã das Faias e, também, um sítio de difícil acesso e, além disso, bastante distante do povoado, embora relativamente perto da Cuada. Por isso mesmo, muito provavelmente, hoje, já terá desaparecido da memória de muitos dos que, outrora, calcorrearam os caminhos, canadas, atalhos e veredas daquele alcantil abrupto, escarpado, encavalitado nos contrafortes do Tufo da Cuada, mesmo ali debruçado sobre a Ribeira Grande. Situado na fronteira com a Fajãzinha, na margem direita da Ribeira Grande, imediatamente a seguir à foz da Ribeira do Ferreiro, precisamente no sítio onde o curso do maior caudal de água da ilha das Flores fazia uma enorme curva, o lugar da Fajã das Faias como que roubava espaço à Fajãzinha e aumentava a área territorial da Fajã Grande, precisamente para açambarcar aquela pequena fajã situada nas encostas do Tufo da Cuada e do Vale Fundo. Era por isso mesmo e fundamentalmente, uma terra de mato, de faias, incensos, misturados com algumas criptomérias, embora na parte mais baixa e nos terrenos alagadiços, junto â Ribeira Grande, nalgumas propriedades, muitas delas com proprietários residentes na Fajãzinha e Cuada, se cultivassem alguns inhames. O acesso à Fajã das Faias fazia-se pelo caminho que ligava a Cuada aos Lavadouros e à Cancelinha, pelo que o trajecto mais acessível era, geralmente, feito pelo Delgado e pela Cuada. Para se ter acesso àquele lugar ermo e exíguo, depois de se atravessar esta localidade e ultrapassar a última casa, um pouco antes do Vale Fundo e a seguir ao Calhau do Tufo, virava-se à direita e entrava-se numa canada estreita e sinuosa, com grande parte do piso em degraus e onde dificilmente passavam animais. Como possuía apenas esta canada que atravessava de Norte a Sul, o acesso a muitas das propriedades ali existentes, era feito atravessando outras, que lhe deviam caminho, através de trilhos, atalhos ou até saltando paredes. Do lado da Fajãzinha, no entanto, era possível chegar-se à Fajã das Faias, através da travessia da Ribeira Grande, o que era bastante difícil e, a maior parte dos dias, quase impossível, devido ao leito escabroso e ao enorme caudal que aquele curso de água geralmente se ufanava de possuir. Até à foz, a margem direita da Ribeira Grande, ou seja a fronteira Sul da Fajã Grande, era toda rochosa, com excepção deste lugar da Fajã das Faias, da zona da Ladeira do Biscoito, onde existia a principal ponte de ligação entre as duas freguesias vizinhas, e da zona circundante ao Poço da Alagoinha.

A Fajã das Faias confrontava a Sul com a Ribeira Grande, a Norte com a Cuada e o Tufo da Cuada, a Oeste com a Ladeira do Biscoito e a Leste com o Vale Fundo e com a Ribeira do Ferreiro. O seu nome muito provavelmente terá a ver, por um lado, com o facto de ser uma zona baixa, nas encostas de um monte e nas margens de uma ribeira e, por isso mesmo, também constituir como que uma espécie de fajã - terreno baixo junto do mar, neste caso junto de uma ribeira - e, por outro, porque naquele lugar existia uma densa vegetação onde predominavam as faias. No entanto, não deixa de ser estranho e quase inexplicável o facto de este topónimo fajãgrandense utilizar em vez de “faeira” a palavra “faia”, comum em todas as ilhas açorianas, para designar a árvore que nas Flores e na Fajã Grande sempre se designou por “faeira”, como bem o demonstra o contista Nunes da Rosa, nalguns dos seus contos que integram o “Pastoraes do Mosteiro”. Porquê Fajã das Faias em vez de “Fajã das Faeiras”? Não existe explicação plausível, a não ser o facto de o topónimo ter sido criado numa altura em que ainda se não tinha deteriorado, o nome faia, na gíria fajãgrandense.

A Fajã das Faias permanece assim como um lugar mítico e adormecido, hoje perdido, não apenas no espaço mas também e sobretudo no tempo e talvez mesmo na memória de muitos dos que, nos longínquos anos cinquenta, por ali passavam, na apanha de incensos para o gado, de lenha para o lume ou a ceifar os fetos e a cana roca que proliferavam entre aquele denso e luxuriante arvoredo.

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publicado por picodavigia2 às 01:55





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