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BEATRIZ E O PLÁTANO

Quinta-feira, 26.12.13

(PEQUENA PEÇA TEATRAL, INSPIRADA NO LIVRO DE ILSE LOSA, COM O MESMO NOME)

 

I PARTE

Personagens:

Beatriz

Pai de Beatriz

Mãe de Beatriz

Rui, irmão de Beatriz

Alicinha, amiga de Beatriz e filha do Presidente da Câmara

Joana, amiga de Beatriz

Presidente da Câmara

Drª Olga, Vice-Presidente da Câmara

Drª Marta, Vereadora da Câmara

Dr Henrique, Vereador da Câmara

Dr Rui Seabra, Vereador da Câmara (Oposição)

Secretário da Câmara

Sr Nunes, chefe de obras da Câmara

Emanuel, trabalhador da Câmara

Pinheiro, trabalhador da Câmara

Quirino, trabalhador da Câmara

Director de Turma, professor de Matemática e de EA

Professora de Português

Professor de História

Professor de Inglês e EA

Professor de Ciências e AP

Professores de EVT e EA

Professor de Música e AP

Professor de Educação Física

Professora de EMRC

Sra Rita, empregada da Escola

Carteiro

 

CENA I

 

(Rua do PlátanoEsquina de uma rua, com uma placa com o nome - “Rua do Plátano”. Na rua há uma grande árvore – um plátano. Várias pessoas passam na rua, junto ao plátano.)

 

CENA II

 

Beatriz – (Da janela da sua casa, observa o Plátano.) – Ai! Meu Deus! Tanto que eu gosto daquele plátano! Ele, para mim, é como um amigo, faz parte da minha vida. Sem ele a minha vida não teria sentido. Ele até fala comigo. Há dias, quando regressei de férias, ele ficou muito contente ao ver-me e disse-me baixinho “Ainda bem que voltaste. Tinha tantas saudades tuas”.

(Ouve-se a voz da mãe a chamar de dentro.)

Mãe - Beatriz, ó Beatriz!

Rui – (Aparecendo à janela, puxa a irmã para dentro de casa.) - Beatriz, não ouves a mamã a chamar por ti? Anda para dentro, já!

Beatriz - Deixa-me, deixa-me e vai jogar computador.

(Aparecem o pai e a mãe.)

Mãe – Beatriz, ó Beatriz, o jantar está pronto, vem para a mesa.

Beatriz – Mãe, deixe-me ficar só mais um minuto a olhar para o meu amigo plátano.

Mãe – Ai! Que rapariga! Passa a vida a olhar para o plátano.

Pai – Parece que deitou raízes naquela árvore.

Beatriz – Adeus, amigo plátano, adeus. Agora vou jantar, mas logo, à noitinha, venho ter contigo outra vez. Adeus!

CENA III

 

(Reunião de Câmara. Sentados a uma mesa, o Presidente, o Vice-Presidente e os 3 vereadores. Ao lado, o secretário, faz a acta.).

Presidente – Meus senhores, como é do conhecimento de V. Ex.cias, o edifício dos Correios da nossa cidade está bastante velho e, além disso, é pequeno de mais para os serviços que lá estão instalados. O que acham, os senhores, que se deva fazer?

Dr Henrique – Sr Presidente, é por demais evidente que só há uma solução: demoli-lo e construir, no mesmo sítio, um outro mais moderno e mais espaçoso.

Drª Olga e Drª Marta – Muito bem, muito bem.

Drª Olga – Sr Presidente, o Gabinete Técnico da Câmara já elaborou o projecto para o novo edifício. Vai ser muito moderno, com a fachada pintada a duas cores, caixilhos de alumínio e vai ter um painel de azulejos por cima da entrada.

Drª Marta – E sendo assim, aquela velha árvore que está em frente deve ser cortada.

Drª Olga - Claro! Estou plenamente de acordo! Uma velharia daquelas fica muito mal diante dum edifício tão moderno.

Presidente, Dr Henrique e Drª Olga – Muito bem! Muito bem!

Dr Rui Seabra – Eh! Eh! Calma aí! Não estou de acordo com nada disto. Primeiro não concordo que se destrua aquele antigo edifício. A Câmara podia construir o novo noutro local e restaurar aquele, aproveitando-o, por exemplo, para criar um museu ou uma casa da cultura. Em segundo lugar sou totalmente contra o corte de árvores na nossa cidade. Cortar uma árvore é um crime, um crime meus senhores e, além disso, aquele plátano é uma árvore muito especial – foi ele que deu o nome àquela rua.

Dr Henrique - Desculpe, Dr Seabra, mas o senhor está totalmente errado. A rua onde eu moro chama-se rua Afonso Henriques e, no entanto, o nosso primeiro rei já morreu há muitos anos.

Drª Olga e Drª Marta – (Riem) – Muito bem! Muito bem, Dr Henrique.

Dr Rui Seabra – O senhor não sabe o que diz, Dr Henrique. O senhor é um insensível, não sabe o que é respeitar e amar a Natureza. O senhor é um ignorante. Um insensível e um ignorante!

Dr Henrique – Não me insulte, Dr Seabra, não me insulte.

Presidente – Meus senhores, esta discussão é inútil. Vamos por à votação, a proposta apresentada pela da Drª Marta: Quem vota a favor da demolição do velho edifício e da construção de um novo no seu lugar?

(Presidente, Drª Marta, Drª Olga e Dr Henrique levantam o braço.)

Presidente – E quem vota contra.

(Dr Seabra levanta o braço.)

Presidente – Quem vota a favor do corte do plátano.

(Presidente, Drª Marta, Drª Olga e Dr Henrique levantam o braço.)

Presidente – E quem vota contra.

Dr Seabra – (Levantando o braço.) – Senhor presidente, quero fazer declaração de voto e peço ao senhor secretário que a registo na acta.

Presidente – Dr Seabra, o senhor não tem mais nada a dizer. Ambas as propostas foram aprovadas com 4 votos a favor e apenas um contra. A reunião está encerrada. Vamos construir um novo edifício dos correios e cortar o plátano. As obras começam amanhã. Muito boa tarde. Podem sair.

CENA IV

 

(No recreio duma escola brincam várias crianças, entre as quais Beatriz, Alicinha -  filha do Presidente da Câmara - Joana e outras. Ao lado, a Senhora Rita, funcionária da Escola.)

Alicinha – Beatriz, ó Beatriz, tenho uma notícia para te dar.

Beatriz – Boa ou má?

Alicinha – Isso não sei! Mas acho que é muito boa para a nossa cidade. Agora para ti… não sei…

Beatriz – Então conta! Vá lá, conta.

Joana – Conta Alicinha, conta depressa.

Alicinha – O meu pai, que como vocês sabem é o Presidente da Câmara, chegou ontem à noite a casa muito contente. Sabem porquê?

Joana – Não, não! Conta, depressa!

Beatriz – Vá! Desembucha!

Alicinha – A Câmara vai deitar abaixo o velho edifício dos Correios e construir um novo e também vai cortar o plátano que está em frente.

Beatriz – (Muito alarmada e em alta voz) – O quê?! Cortar o plátano?! Cortar o meu amigo Plátano?! Nem pensar! Isso é que nunca!

Joana – Calma, Beatriz! Calma.

Beatriz – Calma?! Como posso ter calma sabendo que vão destruir o meu melhor amigo?! Mas não o vão cortar nunca. Nunca! Nunca!

Sr Rita – Menina Beatriz! Fale mais baixo! Não incomode os meninos que estão nas aulas.

Beatriz – Ai sim! Não posso falar alto aqui!? Vou-me embora, mas o meu amigo plátano nunca vai ser cortado! Nunca!

Joana e Alicinha – Beatriz, ó Beatriz, não te vás embora, brinca connosco mais um pouquinho.

Joana – (Para a Alicinha) - Não lhe devias ter contado.

Alicinha – Deixa lá! Ela tinha que saber.

 

CENA V

 

(Em casa, preocupada, Beatriz fala com os pais sobre a notícia que ouviu na escola.)

Mãe – O que se passa filha? Andas tão preocupada…

Beatriz – Estou preocupada, sim, mamã. Estou muito preocupada. Vão destruir o meu velho amigo. Vão cortar o mais belo plátano da cidade, do país, do mundo.

Pai – Calma, filha, calma.

Mãe – Eu compreendo-te, filha. Sei que gostas muito dele. Mas não podemos fazer nada.

Pai – Quem manda na cidade, são as autoridades.

Rui – Ah! Ah! Ah! Olha que pena! Vais chorar porque vão cortar uma árvore!

Beatriz – Não, não o vão cortar, não. Juro que não vou deixar que alguém o corte.

 

CENA VI

 

(Sala duma escola. Os professores estão em reunião de conselho de turma. Batem à porta.)

Sra Rita – (À porta) - Setor, está aqui uma menina. Pode atendê-la?

Beatriz – (Entrando muito alvoraçada) - Setor, posso entrar?

Director de Turma – Desculpa, Beatriz! Espera um pouco. Estamos mesmo a acabar a reunião.

(Saem Beatriz e a Senhora Rita.)

Director de Turma – Colegas, vamos continuar. Falta avaliar um aluno – Vítor José Teixeira da Silva, número 28. Português?

Prof.ª de Português – 3, mas tem que está mais atento nas aulas.

Director de Turma – História?

Prof. de História – 3. Gostava de lhe dar 4, mas tirou satisfaz nas duas fichas.

Director de Turma – Inglês?

Prof. de Inglês – 3. Nunca faz os trabalhos de casa e chega muitas vezes atrasado.

Director de Turma – Matemática 2. Tenho que lhe dar aulas de apoio. Ciências?

Prof.ª de Ciências – Ciências 5.

Todos – Eh lá! “Gande” nota!

Prof.ª de Ciências – Ele adora a minha disciplina e gosta muito de animais. Diz que quer ser veterinário. Área Projecto, Satisfaz Bastante.

Director de Turma – À frente. EVT?

Prof. de EVT – 4. Sem comentários.

Director de Turma – Educação Musical?

Prof. de Educação Musical – 3. Concordo com a professora de Português, tem que está mais atento nas aulas.

Director de Turma – Educação Física?

Prof. de Ed. Física – 3. Está sempre a brincar nas aulas.

Director de Turma – Área Projecto?

Prof.s de Área Projecto – Satisfaz Bastante.

Director de Turma – Estudo Acompanhado?

Prof. s de Estudo Acompanhado – Satisfaz.

Director de Turma – Formação Cívica também Satisfaz. Agora vamos ouvir a Beatriz.

(Levanta-se e vem à porta chamar a Beatriz que entra de imediato.)

Beatriz – Senhores professores! Ainda bem que os encontro todos. Sabem o que decidiram as autoridades da nossa cidade? Cortar o plátano, aquele plátano grande que está em frente dos Correios. Acham que fica mal diante do novo edifício e… zás. Decidiram cortá-lo. Acham isto bem, acham?

Prof. de Ciências – Beatriz, compreendo-te muito bem e sei quanto nas minhas aulas temos falado sobre como devemos proteger as árvores. Mas tens que compreender… Quem manda na cidade são as autoridades.

Prof. de História – É verdade Beatriz! Quem manda na cidade são as autoridades. Nada podemos fazer…

Todos – Quem manda na cidade são as autoridades.

Beatriz – Ai, é assim! Os professores também não me ajudam! Vão ver, vão ver. (Sai)

 

CENA VII

 

(Beatriz sentada a uma mesa a escrever uma carta, que mete num envelope. Depois sai de casa e chama o carteiro para lhe levar a carta à Câmara.)

Beatriz – Senhor carteiro, faça-me um favor. Leve-me esta carta à Câmara. É urgente, muito urgente.

Carteiro – É p’ra já, menina Beatriz.

 

CENA VIII

 

(Secretaria da Câmara Municipal. Sentado à secretário o funcionário dormita. Entra o carteiro com uma carta.)

Carteiro – Sô Neves, ó Sô Neves.

Secretário da CM – Não me faltava mais nada. O que é homem?

Carteiro – É uma carta! Uma carta da menina Beatriz, para o Senhor Presidente!

Secretário da CM – Da menina Beatriz?! E tens a lata de interromper o meu serviço por causa duma carta, duma garota qualquer?

Carteiro – Desculpe senhor Neves, desculpe. Passe bem e muito boa tarde.

Secretário da CM – Com que então uma criança a escrever ao senhor presidente e a incomodá-lo. Era só o que faltava! (Rasga a carta) – Lá vai mais uma! As pessoas desta cidade pensam que o Senhor Presidente não tem mais nada que fazer do que ler cartas…

 

CENA IX

 

(Chegam junto do plátano quatro trabalhadores da Câmara, preparados para o cortar. Quando começam, aparece à frente deles a Beatriz, opondo-se ao corte. Por fim chega um magote de povo.)

Sr Nunes – Vamos lá! Comecem a cortar!

Beatriz – Alto aí! Nesta árvore não se toca. Ninguém tem o direito de cortar esta árvore.

Trabalhadores – (Riem).

Emanuel – Ó menina, vá brincar com as bonecas e deixe-nos trabalhar!

Quirinio – Era o que faltava! Receber ordens duma criança! Saia daí menina

Pinheiro – Então isto agora é assim?  A menina é que manda aqui?

Sr Nunes – (Para os trabalhadores.) Parem com isso. (Para Beatriz) - Menina, tenha calma e por favor sai-a daí. Os homens têm que fazer o que lhes mandam.

Beatriz – Os senhores não querem ouvir o que lhes digo?

Sr Nunes – Já ouvimos, menina, até ouvimos muito bem. Agora, por favor, saia. Vamos começar o nosso trabalho.

Beatriz – (Abraçando-se ao Plátano) - Ai vão! Pois bem. Se cortarem o plátano têm que me cortar a mim primeiro.

Pinheiro – Ó sô Nunes! Já chega de brincadeira.

Emanuel e Quirino – (Puxando a Beatriz) - Sai daí para fora!

Povo – (Aproximando-se e protegendo Beatriz) - Não toquem na menina! Não toquem na menina!

Trabalhadores – Com a breca!

Sr Nunes - Com isto é que não contava! (Pega no telemóvel e marca uma chamada. Em voz alta) – Tou! É o senhor Presidente? Não estou a ouvir nada. Fale mais alto, senhor presidente. (Afasta-se para ouvir melhor.)

 

CENA X

 

(O Presidente da Câmara, o dr Henrique e as dr.as Olga e Marta, acompanhadas do sr Cunha, chefe de obras da Câmara, chegam junto da árvore.)

Sr Presidente – Olá! Tu é que és a Beatriz, a amiga da minha filha?! Muito bem! Muito bem! Mas olha, Beatriz, esta árvore tem de se cortar, porque não ficaria bem em frente dum edifício moderno. Tu és muito nova para compreender estas coisas.

Beatriz – E o senhor é velho de mais para perceber que não se deve cortar uma árvore que é muito mais bonita do que um edifício.

Drª Olga e Drª Marta – Ai! Credo! Que menina mal-educada!

Dr Henrique – Isso é maneira de falar com o senhor presidente! Ponha-se a andar daqui para fora, sua atrevida!

Todos incluindo o Dr Seabra – Bravo, Beatriz! Bravo!

 

CENA XI

 

(O Sr Presidente conversa, em voz baixa, com os vereadores. Depois fala com o sr Cunha.)

Sr Presidente – Sr Nunes, diga aos seus homens que podem voltar para a Câmara. O Plátano não vai ser cortado, hoje.

Sr Nunes – Sim senhor, senhor presidente.

Sr Presidente – Minhas senhoras e meus senhores. Podem voltar para as suas casas. Acabei de dar ordens para que o Plátano não seja cortado, hoje.

 

CENA XII

 

(Beatriz decide passar a noite junto da árvore. O irmão tenta convencê-la a ir para casa.)

Rui – Beatriz, já é muito tarde. Vamos para casa.

Beatriz – Deixa-me ficar aqui mais um pouquinho.

Rui – Não! Vamos! Os nossos pais já devem estar preocupados!

Beatriz – Vai tu e avisa a mamã que eu vou passar aqui a noite. Sei lá se me estão a enganar? Podem vir de noite e cortar o meu amigo plátano.

Rui – Esta rapariga não está boa da cabeça.

 

CENA XIII

 

(Beatriz passa a noite junto da árvore. Os pais, as amigas e outras pessoas vêm trazer-lhe comida e cobertores.)

 

CENA XIV   

 

(Na manhã seguinte voltam os homens para cortar o Plátano. Ao verem Beatriz ficam espantados e regressam à Câmara.)

Trabalhadores – Espantoso! Espantoso! Espantoso!

Sr Nunes – Esperem aqui por mim. Não comecem a cortar a árvore. Vou à Câmara avisar o Senhor Presidente. Espantoso! Espantoso!

Beatriz – (Acordando, espreguiçando-se esfregando os olhos) - Bom dia, amigo plátano. Podes estar descansadinho que não deixarei que te cortem!

Trabalhadores - Espantoso! Espantoso! Espantoso!

 

CENA XV

 

(Chegam o Sr Presidente, os srs vereadores e o Sr Cunha, que falam entre si. Começa também a chegar muito povo.)

Presidente – Minhas senhoras e meus senhores: a atitude desta menina foi muito bonita e levou-nos a tomar uma decisão contrária à que havíamos tomado na reunião da Câmara: O plátano fica em pé. Não será cortado. Ficará para sempre em frente do edifício dos Correios. A Beatriz deu a todos nós uma grande lição: Uma árvore, mesmo velha, mas cheia de seiva e de vida, é um monumento, tal como uma estátua.

Todos – Bravo! Bravo Beatriz! Bem-haja, a Beatriz.

 

Fim

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