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SIMPLESMENTE INVEJÁVEL

Quinta-feira, 26.12.13

Desfrutando de um tempo verdadeiramente primaveril, a ilha do Pico reveste-se, nesta altura do ano, de bonança, de tranquilidade, de graça, de beleza e duma amena solicitude. Simplesmente invejável! A montanha, imponente e altiva, cobre-se, bem lá no cume, de um véu alvíssimo, enternecedor, enovelado pelos raios doirados de um Sol acariciador e compassivo. Depois, pelas encostas abaixo, a escorrer como se fosse lava, um manto verde de pastagens e de florestas, a cobrir os andurriais circundantes, a derramar-se e a estender-se até às terras de cultivo e aos vinhedos, ainda ressequidos, à espera da poda, quase até aos casebres e às habitações das pequenas mas graciosas povoações, plantadas à beira-mar, como que a fazer uma espécie de ponte de alvura e graciosidade, entre a montanha e o oceano, entre a terra e o mar.

Na realidade, nestes últimos dias de Fevereiro, o Pico tem usufruído de um Sol bonançoso e benfazejo, que se atira em catadupa, abrupto e à esmo, parece mesmo que inconsciente ou quase louco, pela montanha abaixo, iluminando os seus recantos mais recônditos, aquecendo as encostas menos soalheiras, acariciando os andurriais circundantes, cavalgando sobre o dorso negro da ilha. Depois, numa louca correria, avança até cá a baixo, na direcção de campos e pastagens, de hortas e quintais, borrifando-os de verde, transformando-os em vida, conferindo-lhes uma frescura mágica, um dinamismo sobrenatural, um capacidade produtiva senão única, pelo menos rara e pouco vulgar. Nas encostas do Pico, com este Sol tonificante e com a chuva, sempre atrevida, sempre atiradiça e sempre à espreita duma oportunidade, por mais pequena que seja, para substituir o Astro-Rei, tudo nasce, tudo floreste, tudo renasce e tudo se torna vida. No ar paira um perfume a trevo e erva da casta, das encostas chovem sabores de incensos e de faias, nas hortas e pomares vertem-se sumos adocicados e até nos maroiços reina o sabor apetitoso, do funcho, da hortelã, da salsa e do rosmaninho. Os campos a abarrotar de forrageiras povoam-se de bovinos, é verdade que amarrados à estaca, sem a liberdade dos que proliferam nas pastagens do mato, porque limitados e condicionados pelas exigências de uma boa estrumação dos terrenos com vista às colheitas que aí vêm. Mas até aí a vida nasce, cresce, se firma e estabelece. Aa vacas dão à luz os vitelos rechonchudos e vivaços, as cabras seguem-lhe o exemplo, os pássaros povoam os ares em alegres danças e enigmáticos cantares e até o Oceano, bem plantado aqui em frente, como que se torna mais calmo, mais azul, mais tranquilo. Lá ao longe uma embarcação, um veleiro, um navio de que se adivinha o destino.

Tudo é vida, tudo é graça, tudo é luz, neste Pico pré-primaveril! O tempo é de Sol, de visibilidade, de calma, tranquilidade e de bonança. Os dias são de luz, de brilho, de paz, de trabalho e de alegria. Transformam-se em vida, são a própria vida. A vida dos que aqui vivem, trabalham, labutam e erguem uma enorme montanha coberta com um manto de sonhos retalhados, de esperanças desfiadas, de tranquilidade e de quietude perenes.

Mas o Pico, com este tempo admirável, também é simplesmente invejável, para os que o demandam nesta época. Na realidade quem visita os Açores, nomeadamente a ilha do Pico, durante estes últimos dias de Fevereiro, para além de desfruir de um tempo maravilhoso, pode ufanar-se de ter o privilégio de apreciar paisagens de uma beleza rara, de uma expressividade inconcebível e duma graciosidade invejável. Assim como o Pico, as restantes ilhas açorianas, são na realidade espaços raros, desconhecidos, privilegiados, como que encerrados numa espécie de redoma de cristal, que urge quebrar

Anacronicamente, durantes estes dias de rara beleza e de sublime graciosidade, a abarrotar de calmaria e bonança, aureolados por um Sol encantador, alguns média sediados na capital, na sua habitual informação sobre o estado do tempo, anunciavam, para as ilhas açorianas:“…céu muito nublado e alguns aguaceiros”.

Texto publicado, no Pico da Vigia, em 28/02/12

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publicado por picodavigia2 às 14:55





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