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DOIS E MEIO

Sexta-feira, 27.12.13

Todos os anos, pela altura da Quaresma, o pároco, do alto do púlpito ou do meio da grade, a propósito dos esclarecimentos sobre a desobriga pascal, aproveitava para recordar os outros Mandamentos da Santa Madre Igreja, insistindo com maior desvelo no quinto. E repetia duas, três e mais vezes “Contribuir para as despesas do culto e sustentação do clero, de acordo com os legítimos usos, costumes e tradições da Igreja”.

Lá por ser o quinto e vir em último, não significava que fosse menos importante do que os outros. Pelo contrário, talvez fosse o principal, pois sem ele não havia clero e sem clero não havia missa, não havia confissão, não havia nada. Por isso e, de acordo uma antiquíssima tradição da Igreja Católica, era dever moral e religioso de todos os crentes contribuir, financeiramente, para a honesta e digna sustentação do seu pároco. Então não estava ele, ali, todas as horas do dia e da noite, disponível para quem o chamasse para os últimos sacramentos, não estava ele dia após dia, ao serviço da paróquia, celebrando missa, ministrando os sacramentos e orientando o ensino da catequese? Por isso os paroquianos tinham o dever de contribuir economicamente para que ele pudesse servir em disponibilidade total. Todos, mas mesmo todos, tinham pois a obrigação de cumprir o quinto mandamento da Igreja. E o montante estipulado, de acordo com as normas estabelecidas, na diocese, pelo Senhor Bispo, era o equivalente a um dia de trabalho ou um alqueire de milho: quinze escudos.

O José Natal não nadava em dinheiro, mas tinha algum, pois havia transaccionado uma loja e, além disso, era o responsável pelo correio, o que lhe dava mais uns centavos no fim do mês. Ouviu, como todos os outros, num domingo, no outro e ainda no último, antes da Páscoa, em que o pároco, perante o suposto esquecimento de muitos, até ameaçou ler da grade os nomes dos prevaricadores.

Foi para casa, pegou em lápis e papel e fez contas. Ele vivia sozinho. Na maioria das outras casas da Fajã viviam mais de quatro pessoas, nalgumas dez, noutras doze e até numa eram quinze e todos pagavam pela mesma medida. Ora havia ele de pagar o mesmo que pagavam os outros, com família numerosa, por tudo e por nada a baterem à porta do passal, cheios de filhos para baptizar, com as mulheres sempre na igreja, a não deixarem escapar uma missa ou uma novena? Não era justo. Além disso ele pouco sujava a igreja, uma confissão por ano e não tinha filhos para baptizar, nem para a catequese. Continuou a fazer contas: quinze escudos, numa família de quatro pessoas, - e já era baixar muito a fasquia - eram dois e meio por pessoa. Sim senhor! Pois sendo ele sozinho havia de pagar dois escudos e meio e já estava a ser muito generoso.

Como não queria ver o seu nome lançado ao desvario lá do alto do púlpito, pegou numa moedinha prateada, muito brilhante, de dois e meio e lá foi, com destino à sacristia, onde o pároco habitualmente montava escritório e tesouraria.

Bateu à porta, entrou, cumprimentou com bons modos o reverendo e explicou o porquê da sua visita. Nada de estranho por parte do pároco que sabia que o Josezinho era um bom cristão, cumpridor das leis da Igreja e dos seus deveres de baptizado.

O José Natal sem mais demora, tirou a moeda do bolso e colocou-a na palma da mão direita, estendendo-a na direcção do pároco. Estava ali o seu “culto”!

Que havia um engano, que provavelmente o Josezinho não havia percebido bem o que explicara, mas não era aquilo, não podia, nem devia ser só aquilo. O José Natal insistiu e o pároco, começando a revoltar-se, voltou a contrariar. Que nem pensasse, que tivesse juízo, que não aceitava aquela migalha.

O José Natal, sempre calmo e descontraído, voltando a colocar a moeda no bolso, exclamou:

- Áh! Não quer?! Então ela vai para onde veio. – E dando meia volta, saiu da sacristia.

Não tardou muito e o pároco a correr atrás dele pelo adro fora:

- José, José, ó José, este ano fica assim, mas para o ano vais ter mesmo que pagar os quinze escudos

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publicado por picodavigia2 às 00:30





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