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NOCTURNO (EM CAPÍTULOS)

Sexta-feira, 27.12.13

A DESCIDA DO COVÃO

 

O Sol já descia amarelado e pardacento sobre os lúgubres casebres da freguesia. A ilha estendia-se calma e serena sobre o oceano azulado, consciente da sua ânsia de infinito. O mar horripilava a esperança e desafiava o destino mas prometia uma bonança limitada. O vento, vestindo de púrpura, soprava levemente de sudoeste. O verão, embora timidamente, como que anunciava o princípio do seu fim, e os campos cobriam-se de um verde cada vez mais amarelado e fulvo, ansiosos de proclamarem o almejado amadurecimento dos milhos semeados nas belgas mais soalheiras e nos campos mais férteis.

Eu descia o aclive do Covão, de aguilhada em riste, imaginando tanger a Moirata e o Damasco, jungidos garbosamente, puxando um pesado carro de incensos. Do eixo apertado rolando entre cocões fumegantes, saltava um rangido alucinante que ecoava altíssono nas encostas sobranceiras do Pico da Vigia. De vez em quando parava e punha-me de cócoras, ora para apertar, ora para alargar, os parafusos dos cocões. As reses, impacientes e desabridas, porém, não contemporizavam com os meus excessivos e curiais cuidados para com o famigerado obstáculo do seu descanso. De vez em quando soltavam-se e, punham-se em extravagante correria, virando o carro e os incensos e desapareciam, enquanto a minha fictícia e simulada tarefa era substituída por estroinices reais e aberrantes, não para os meus princípios de menino de sete anos, mas para os proprietários dos currais, belgas e courelas onde, debaixo dos meus pés, rolavam maroiços e ruíam paredes, sobre as quais acintemente saltava, para encurtar distâncias.

Por toda a aldeia já corria a fama de que pedras atiradas para os campos ou paredes e maroiços deitados abaixo, no caminho do Outeiro Grande, eram obra minha. Sim senhor! Pudera! Passava lá todos os dias!...

Fora uma espécie de contrato amistoso que meu pai celebrara, sem me consultar, com o barbeiro da freguesia e que me condenava a ir levar-lhe e buscar, todos os dias, ao Outeiro Grande, a Trigueira com cria serôdia, tendo, como obrigação da parte dele, tosquiadura grátis a todos os elementos do agregado familiar. E não eram poucos! O contrato, porém, ainda continha mais uma cláusula, que nos era extremamente favorável: como o homem acumulava as funções de latoeiro com as de barbeiro, lata que furasse lá em casa tinha pingo de solda rápido, eficiente e gratuito.

Quanto às paredes e maroiços, meu pai, perante o persistente e contínuo chorrilho de queixas que lhe chegavam aos ouvidos, já me avisara várias vezes. Que as levantasse ele. Aliás, quantas mais queixas ou ameaças surgissem, mais paredes e marouços apareceriam derrubados nos dias seguintes.

Pedradas às ovelhas do Delfim era tarefa certa e quotidiana. Podia eu passar ali todos os dias, agarrado ao rabo da Trigueira, não encontrar ninguém sentado nos degraus que dão para a Pedra d'Água e abster-me de atirar umas valentes pedradas às ovelhas daquele biltre? Claro que as pedradas eram para o bigorrilha, mas os pobres ovinos, que já fugiam só de ouvir, ao longe, o som reconhecível da campainha da Trigueira, é que eram as vítimas. Apenas em duas situações eram perdoados: quando alguma badana procriava ou, quando a viagem era mais tardia, já luz-que-fusco, e eu, então, corria, cheio de medo, ao passar, mais abaixo, junto ao Calhau das Feiticeiras. Dizia-se que estas apareciam por ali, precisamente ao anoitecer. E a verdade é que no velho e monstruoso tufo estavam gravadas as marcas aberrantes e inconfundíveis dos seus pés.

 

PREPARAÇÃO DA VIAGEM

 

Cheguei a casa! Um frenesim diabólico liderado por meu pai: ia ainda hoje a Ponta Delgada e eu tinha que o acompanhar.

Como? Não me disse. Para quê? Respondeu-me sumariamente com um argumento reflexivo do respeito que sempre impunha a si próprio, espelho das suas atitudes leais e honestas e do seu comportamento garboso:

- Mestre António Algarvio chegou da Terceira, onde foi operado. Há três anos, quando me aconteceu o mesmo, ele veio cá, de propósito, para me visitar. Por isso, agora, tenho que o ir ver. Tu vais comigo.

Entrei num misto de excitação e enleio.

Ao lado, minha irmã, agora afeita também ao papel de mãe, apresentava argumentos contrários de peso: a distância, o avançado do dia, não ser altura boa, eu ainda ser muito pequeno...

Meu pai contra-argumentava linearmente, apenas com o sentimento de gratidão e o reconhecimento que todos devemos ter, repetindo incessantemente: «Ele também veio cá.»

Afinal, bem vistas as coisas, a tarefa estava bastante facilitada: «Para lá íamos no São Pedro; de regresso vínhamos com Deus...»

Enfiei rapidamente umas calças curtas, castanhas, presas ao peito com suspensórios de plástico, uma camisa de seda cor-de-rosa, calcei uns sapatos, também castanhos, acintemente cortados à faca na parte superior, para que os meus rechonchudos e nédios pezinhos, habituados às agruras dos descampados, lá entrassem mais facilmente. Peguei numa "froca" de angrim, também oferta dos meus generosos parentes americanos, e larguei em forte correria pela Assomada, Rua Direita e Via d'Água, fazendo, no entanto, um desvio curvilíneo  pela Fontinha.

Minha avó, à janela da sala, de camândulas em punho, ao ser avisada de tão inesperado e inóspito périplo, benzia-se e persignava-se ao mesmo tempo que proferia exclamações alucinantes acompanhados de invocações iconolatras a Santa Rita, a santa que, indiscutivelmente, ocupava o primeiro lugar no top da sua heteróclita e pouco canónica hagiografia.

Eu, nem a ouvia. Antes me esgueirava cauteloso e apressado, não fossem tais impropérios causar alguma influência no espírito do meu progenitor e o demovessem da nossa arrojada mas gratifica viagem.

 

A VIAGEM

 

Cheguei acima do cais num ápice! Lá estava o São Pedro altivo, com o seu casco branco debruado a vermelho e amarelo, alardeando-se e balouçando-se sobre as águas calmas do Atlântico, preso ao cais, com fortes amarras à proa e à ré.

A companha, porém, ainda ali não estava. O botequim da Dona Augusta era valhacouto certo para escapadelas burlescas e alcoólicas. Chegaria, mais tarde, com meu pai, e era constituída por cinco elementos: Mestre Gregório, sobre quem ombreava toda a responsabilidade de comando e organização do batel, o Jacinto, responsável pelas amarras e apoitas, o Mulato, maquinista-mor, o João do Alto, ajudante e aprendiz e o Manuel da Ana, especialista na arte de içar a vela. Saltando de terra para bordo com extrema desenvoltura, ocuparam, de imediato, os seus lugares na embarcação e reservaram um banco à proa para os dois intrusos viajantes. O Mulato encarregou-se, de em duas braçadas, por o motor em movimento, o qual lançou, de imediato, no ar, um ronco estrépito, misturado com rolos de fumo e um pestilento cheiro a gasóleo.

O São Pedro, depois de solto pelo Jacinto, deu duas guinadas à retaguarda, afastou-se do cais, rodopiou sobre si próprio e pôs-se em marcha lenta, deixando atrás de si uma esteira de espuma acinzentada. A grande baía da Ribeira das Casas estava calma, mansa e tranquila, propícia a um navegar anelante, seráfico, pleno de regozijo e fascínio. Era a minha primeira viagem e, agora, já longe de terra, saboreava-a erotoforamente e achava graça aos suaves e idílicos solavancos a que o São Pedro se entregava sempre que encontrava pela frente uma onda mais afoita e audaz, sob os olhares atrevidos do Manuel da Ana, marinheiro experimentado nos ritos de iniciação à arte de navegar e que velhacamente esperava pela hora de cessar o meu enlevo.

Voltado de costas para a proa, sentado ao lado de meu pai, olhava a Fajã, ao fundo, distanciando-se aos poucos, numa perspectiva que nunca me tinha sido dada observar e que, agora, me permitia imaginar e configurar formas diversificadas e simbólicas. As casas brancas, agrupadas e enleadas, faziam-me lembrar as pérolas de um enorme colar, suspensas entre dois grandes, pétreos e turgescentes peitos: o Pico da Vigia e o Outeiro, ou, então, numa visão mais integradora, a Ponta dos Pargos surgia-me como a proa negra dum grande navio, com o seu convés povoado de casotas e torres, onde se destacavam as da Igreja e da casa do Chileno e lembrava-me dos rigores do Inverno, quando o vento soprava de leste e o velho Carvalho Araújo ancorava mesmo ali, totalmente impedido de o fazer em qualquer outro ponto da ilha, devido ao mau tempo. De seguida, olhava para leste, tentando descortinar o interior da ilha, e via o grande obstáculo que era a rocha das Covas, agora mais alta e proeminente do que nunca. A água, nas cascatas das ribeiras do Cão e das Casas, desprendia-se em fluxos ritmados e flavescentes, sob o verde dos socalcos e andurriais e o negro das fragas, ravinas e penhascos. Lá estava o famigerado e precito pináculo das Covas, onde dias antes, por momentos, meu pai e eu, quase hipotecáramos a própria esperança de viver. Puxei-lhe, avidamente o braço calejado e disse:

- Foi ali, pai! Foi ali! Lembra-se?

Meu pai teve que, pacientemente, explicar ao Manuel da Ana que, andando por ali - e apontava para a rocha das Covas - alguns dias atrás, comigo, a apanhar erva-santa, de repente, começaram a cair pedras, calhaus enormes e que tínhamos apanhado um grande susto. Víramos a morte pintada! Não fossem os gritos do Constantino, que de cá de baixo lhe indicava para fugir para junto da rocha e hoje não estaríamos ali.

- Tiveste sorte rapaz! Olha se apanhavas com aqueles marmelos! - Dizia o Manuel da Ana, apontando para umas pedras enormes e mais proeminentes a meio da rocha.

 

A GENEROSIDADE DE MESTRE GREGÓRIO

 

Eu, porém, já não olhava para os calhaus nem para nada. O São Pedro, agora, navegava entre a Baixa-Rasa e o Ilhéu do Cão. A bonança e a calma de que beneficiava a baía, protegida do vento de sudoeste pelas pontas dos Pargos e do Baixio, deixaram de se fazer sentir. Ondas mais fortes e maiores começavam a obstaculizar a serena navegação do pequeno e frágil batel. Algumas tornavam-se tão altivas e arrogantes que, saltando acima da obra morta do São Pedro, salpicavam, conjuntamente, tripulantes e passageiros.

De repente, comecei a sentir uma vasca terrificante e nauseativa. Parecia estar possuído de vibrações caliginosas, paradigmáticas e angustiantes. O meu corpo, trémulo, inerte, perdera a força e a própria razão de ser e convulsionava-se em frémitos acres e agonizantes. Meu pai, de imediato, entendeu o que se passava. Apoiou-me a cabeça com uma mão e inclinou-me a estibordo. Num ápice, perante o ricto malicioso do Manuel da Ana, entreguei, ali, aos peixinhos, gratuitamente e numa enorme sensação de dor misturada com alívio, o meu parco e frugal almoço, conjuntamente com a alegria e o prazer de fruir tão enlevado périplo.

Quando meu pai me recolheu de tão extenuante suplício, estava lívido, sem forças e verdadeiramente arrependido de me ter envolvido em tão arrojada odisseia. Desejava ardentemente voltar ao cais, donde minutos antes, tão feliz, tinha partido. O safardana do Manuel da Ana, pleno de regozijo, atrevimento e prazer sádico, alheio ao meu sofrimento, sentenciou, na qualidade de emetologista-mor do batel:

- Bravo! Assim é que se aprende! Eu também comecei assim. Calma rapaz! Verás que a próxima vai ser melhor.

O meu sofrimento redobrou porque senti, então, que a maioria da tripulação o apoiava na sua galhofa e estava, decididamente, contra mim. Apenas meu pai, por razões óbvias e evidentes, se mantinha neutro: defender-me era contrariar o movimento maioritário da tripulação liderado pelo biltre do Manuel da Ana. Na sua qualidade de viajante convidado, não podia fazê-lo.

Eu sofria duplamente: a indisposição provocada pelos solavancos do São Pedro e a chacota da marinhagem.

Foi então que, num gesto de grande nobreza, dignidade e comiseração, mestre Gregório, confiando a cana do leme a um dos meus algozes e seu adversário de mofa, se levantou. Balouçando as suas pernas arcadas de velho e experimentado marinheiro, num ímpeto de solidariedade e protecção infantil, pegou nalguns velhos casacos e outras peças de roupa que por ali sobejavam, dobrou-as, enrolou-as e estendeu-as no fundo do barco, à proa, formando uma pequenina e provisória cama. Passou-me carinhosamente, a mão pela cabeça, afagou-me o rosto, encostou-me ao peito e ergueu-me dizendo:

- Deita-te aqui. Vais ver que assim passas melhor e não vomitas mais.

Meu pai agradeceu e eu deitei-me. Não vi mais nada, a não ser, lá ao longe, a sombra negra do Monchique que, contrariamente à sua forma habitual de triângulo isósceles, agora parecia um enorme cesto de vimes, com o fundo virado para cima.

A viagem continuava num mar cada vez mais cavado, hermético e altivo. Porém a sábia experiência de mestre Gregório, fugindo, acintemente, à crista das ondas maiores, proporcionava uma navegação mais tranquila. Deitado no meu provisório mas reconfortante beliche, apenas via o azul esbranquiçado do céu, povoado de cirros brancos, que corriam velozes, ultrapassando o São Pedro, em direcção ao infinito.

Passaram-se alguns momentos que me pareceram horas. A tranquilizante navegação que a sábia e experiente mestria do velho comandante impunha ao São Pedro, a ampla e calma baía dos Fanais por onde agora deslizava suavemente, provocaram em mim uma mudança taumaturga e, levaram meu pai a convencer-me a sair da minha taciturna reclusão. Levantei-me e sentei-me, de novo, no lugar que me fora reservado e que ainda não tinha sido ocupado.

 

O ILHÉU DE MARIA VAZ E A BAÍA DOS FANAIS

 

O espectáculo que observava agora era majestoso e belo. O São Pedro navegava ronceiro, entre o ilhéu de Maria Vaz e a rocha dos Fanais. As águas estavam calmas e tranquilas. Não havia ondas. Parecia que o mar tinha amansado acintemente, para que eu pudesse erguer-me e saborear tão deslumbrante espectáculo.

- Ali, - apontava o Mulato para a praia dos Fanais - as lapas são como a palma da minha mão! O pior é descer a rocha para as apanhar.

O Manuel da Ana, em ar trocista, olhando de soslaio para mim e piscando o olho a meu pai, aproveitou logo a deixa:

- E aqui, no ilhéu, os ratos são do tamanho de cães.

Eu tremia, agarrado ao braço do meu progenitor, concedendo-lhe o benefício da veracidade, confirmado não só pelo testemunho do Mulato, mas também, por relatos anteriores, que diziam que por aqueles sítios tudo era excêntrico e heteróclito. Por toda a ilha era sabido que o melhor sítio para lapas era a baía dos Fanais. As dificuldades estavam sempre na descida da rocha, por onde eu nunca tinha passado e que agora surgia ali, à minha frente, alta, imponente, silenciosa e misteriosa, apenas cortada pela cascata da ribeira da Francela.

O São Pedro, porém, abstraído de tudo, continuava a navegar. A tarde surgia mais fria, mas muito limpa e luminosa. Por detrás da alta rocha, com as suas ravinas e pináculos, podia ver-se o interior da ilha, onde já se lobrigavam claramente as pastagens dos matos de Ponta Delgada, entremeadas e divididas por bardos e tapumes de hortênsias azuladas e cor-de-rosa, onde pululavam manchas escuras, brancas e fulvas, pastando a erva tenra.

 

NAVEGAÇÂO À VELA

 

De repente, sob ordem de mestre Gregório, o Manuel da Ana levantou-se, aproximou-se do mastro que se mantinha erguido no meio do São Pedro, desamarrou, com extrema facilidade uma série de cordas e estendeu, com a ajuda dos outros marinheiros, um enorme pano esbranquiçado que, num ápice, prendeu e ergueu no mastro rijo e erecto. É que os ventos, agora, sopravam noutra direcção, permitindo ao São Pedro, depois de ultrapassar a ponta do Albarnaz, com o seu imponente farol, seguir em linha recta, na parte setentrional da ilha, bolinar lentamente sobre as águas bravas e onduladas. Meu pai sugeriu:

- Levanta-te, para veres o Corvo.

Lá estava, de facto, ao fundo a pequenina ilha, sobre o verde azulado do oceano, com uma leve e nevoenta fumaça que impedia de se lhe observar a parte mais alta, que fazia lembrar um enorme biscoito, saído do forno, ainda a fumegar.

O porto de Ponta Delgada, no entanto, ainda estava longe. Os balanços do São Pedro, devido à navegação à vela, eram, agora, tão dolentes e acutilantes, que recolhi, mais uma vez, por ordem do meu marítimo paraninfo, ao valhacouto que me havia improvisado. Os efeitos da navegação à vela eram muito mais cruéis e maléficos do que os da navegação a motor e provocaram em mim um mal-estar muito superior ao sentido anteriormente. Deitei-me novamente. Mesmo assim sentia-me muito mal. O barco seguia muito lento, afecto a grandes baloiços e solavancos, que aumentaram sensivelmente a minha inequívoca náusea. É que o São Pedro, ora subia lentamente uma onda, erguendo gigantesca e altivamente a proa sobre a sua crista, ora caía, dorido e sopeado, sobre a enorme cova que a seguir se formava no azulado negro do oceano, num constante e ritmado bater, que se repetia incessantemente. O céu, agora, parecia-me escuro e as imagens do mestre Gregório e dos outros marinheiros assemelhavam-se a sombras enormes, férulas e rúbidas, que se perdiam no ilhéu de Maria Vaz. Ratazanas heteróclitas e gigantescas saíam de todos os lados do ilhéu, de enormes e esconsas grutas, lançando aulidos aterradores, correndo indefinidamente atrás do São Pedro, que voava sobre tapumes esbranquiçados de hortênsias, os quais lentamente se abriam e transformavam em pélagos e precipícios infinitos e transcendentes, onde as ratazanas desapareciam, deixando atrás de si um rasto de gasóleo e fumo negro. O São Pedro tinha asas, galgava o mar a grande velocidade, aproximava-se do Corvo e subia a ilha, sobrevoando as casinhas muito brancas e pequeninas, perdendo-se entre as fumaças do pico de João Moura, que, de repente, se transformava num enorme gigante que chamava por mim, me pegava ao colo e me colocava, com excessivo cuidado, sobre o cais de Ponta Delgada.

 

 

PONTA DELGADA DAS FLORES

 

Quando acordei, já estava em terra. Fora mestre Gregório que, compadecendo-se mais uma vez do meu sofrimento, me pegara, cuidadosamente, ao colo e me pusera definitivamente em terra firme.

Ponta Delgada situa-se na parte mais setentrional das Flores, numa suave encosta, sobranceira ao cais e a uma pequena baía ladeada pela ponta que lhe deu o nome e pela Ponta do Ilhéu e estende-se, longamente, por uma ampla e verdejante planície, onde salpicam as casinhas pintadas de branco. Próxima do cais, onde varou o São Pedro, sempre sobre as ordens radicais e lineares de mestre Gregório, confunde-se com ele e insere-se num todo que permite aos viajantes e turistas, sem grande esforço, atingir rapidamente o povoado. Esta exímia e curta distância facilitou, obviamente, a minha débil e tonta capacidade de me movimentar, originada pelo marelhar constante e contínuo, sentido ao longo de três horas de viagem e que ainda pesava sobre mim. Mesmo em terra, continuava a sentir o corpo entorpecido, nauseabundo e incapacitado de me aventurar às arrojadas correrias ou alanzoar-me em parrésias heteróclitas a que era propenso.

Caminhei, pois, misantropo e macambúzio, ao lado de meu pai, até à casa de mestre António Algarvio.

 

MESTRE ANTÓNIO ALGARVIO

 

António Alves da Costa Cabreira, conhecido em toda a ilha por mestre António Algarvio, era um homem alto, esbelto e elegante. Aparentava os seus sessenta anos, cabelos grisalhos, olhos azuis, sempre muito atentos nos dos seus interlocutores. O que mais o caracterizava, porém, era um altivo, descomunal e garboso bigode, que se salientava no rosto oval, do qual lhe ocultava grande parte, e que constituía grande motivo de orgulho para o seu proprietário, que despendia muito tempo e grandes cuidados na sua manutenção, nomeadamente, no asseio das enormes pontas, para as quais como que já institucionalizara o hábito de, constantemente, as retorcer e anafar. O enorme bigode, apesar de grisalho, apresentava, no centro, uma mancha amarelada, que levemente se difluía nas regiões limítrofes e que era o resultado plausível do seu declarado e assumido vício de fumador. Tinha uma voz forte e ríspida, com um acentuado sotaque continental, mais concretamente do Algarve, donde era natural. Essa era, aliás, a razão de ser do seu epíteto.

Nascera em São Bartolomeu de Messines, a terra das pedras de amolar. Mas não era a razão principal pela qual mestre António Algarvio se blasonava da sua terra natal. Segundo ele, São Bartolomeu de Messines fora um eficiente baluarte miguelista, pois foi lá, junto à ermida de Sta Ana, que as forças apoiantes de D. Miguel infligiram, em vinte e quatro de Abril de 1834, pesada derrota às forças liberais, bem mais numerosas e melhor apetrechadas, comandadas pelo Marquês de Sá da Bandeira. Com ar garboso, acrescentava mestre António, que esta vitória se deveu ao sábio e eficiente comando dum valoroso general Tomás António da Guarda Cabreira, seu antepassado e acérrimo defensor da causa miguelista. Não ficavam por aqui, contudo, os pergaminhos da ilustre e ditosa pátria de mestre António - foi em São Bartolomeu de Messines que veio ao mundo o ilustre vate João de Deus e acrescentava:

- Ainda lá está a casa onde nasceu e viveu o poeta.

Recebeu meu pai com grande satisfação e alegria. Sentado num enorme cadeiral de vimes, enrolado num grosso cobertor de papa, ia contando, de forma dramático-cómica, como era seu timbre, os pormenores, incluindo os mais insignificantes, da sua viagem à Terceira, em quase tudo semelhante à que meu pai realizara três anos antes: -  operação ao estômago, Dr Gago da Câmara, rua da Garoupinha e o velho e monacal hospital de Angra. Enfim, alanzoava-se num aranzel leptológico que lhe era tão peculiar e que contrastava seriamente com a senga e tímida elocução do meu progenitor.

Eu, sentado numa cadeira, muito tímido e quietinho, totalmente alheio a tão desinteressante diálogo, despertei, de imediato, as atenções emocionalmente caritativas da dona Josefa, eminente consorte do nosso anfitrião, que acumulava, simultaneamente, as funções de cozinheira, cargo que, na opinião de mestre António, exercia com desusada competência. A ilustre senhora, exercitando a sua acutilância de investigadora assumida dos destinos do próximo, apercebeu-se, de imediato, do meu estado de famélica debilidade. Num acto de extrema curialidade, sem me consultar, trouxe-me uma enorme tigela de leite fresquinho acompanhado de vitualhas diversas. Envergonhado, manifestei simulada recusa. D. Josefa, no entanto, não era para cerimónias e, embora timidamente, tive que aceitar. Tal repasto produziu em mim um efeito retemperador. Não fosse o temível e odiento séter, sentado ao portão, impedindo a entrada ou saída de qualquer mortal, eu já tinha abalado, na qualidade de objector de consciência, aos efusivos e triviais discursos do ilustre descendente do general Cabreira.

 

O REGRESSO À FAJÃ GRANDE

 

O dia aproximava-se do fim. Meu pai, apercebendo-se disso e, porque sentia que a sua missão estava cumprida, decidiu voltar para casa. Nem os veementes e imperiosos pedidos de mestre António, nem o convite gracioso e meigo de dona Josefa, oferecendo hospedagem, o demoveram do tão impertinente carracismo.

Partimos!... Na torre da Igreja de São Pedro, soaram três espaçosas badaladas, seguidas de duas consecutivas. Era o som religioso das Trindades que anunciavam o anoitecer. Os homens regressando dos matos, ao lado de azémolas carregadas de bilhas e latas de leite, tapadas com ramos de queirós, tiravam, solenemente, o boné e simulavam uma pequena oração. Velhinhas vestidas de negro e bioco a tapar-lhe a cara, sentadas às janelas de suas casas, esbagoavam as contas do rosário, bichanando imperceptíveis ave-marias. Mulheres robustas e mal vestidas, algumas pejadas, recolhiam a casa, com molhos de lenha ou de couves à cabeça acompanhadas de garotos descalços, com monco a escorrer-lhes pelo nariz e agarrados aos saiotes. Vendo meu pai todo geringoto, traçando o rumo duma caminhada que, de certo, a noite iria supinamente obstaculizar, formulavam-lhe convites sucessivos e sinceros, disponibilizando caldinho de couves para a ceia e dormida. Todos eram de opinião de que não eram horas de se fazer ao caminho do mato, ainda por cima acompanhado duma criança.

Mas o persistente carracismo de meu pai, mais uma vez imperou. Rejeitava linearmente todas as ofertas de hospedagem, como aliás já acontecera em casa de mestre António Algarvio. Aí, o homem quase se zangara! Por isso, o meu progenitor tinha agora outro argumento, para justificar a sua decisão: não ficara em casa de mestre António, não ficava em nenhuma outra.

Caminhámos!... Ao descoser do derradeiro casebre da freguesia, já a noite caíra, fria, silenciosa e escura. Muito escura! Para trás ficavam os campos, cobertos de milho loiro, amarelado e fulvo e as famílias reunidas à volta das tigelas de leite e broa, acompanhadas de um caldo de couve onde não faltava a talhadinha de toucinho. Era o jantar tradicional e habitual das gentes da ilha.

Entrámos decididamente nos matos e na escuridão. Tínhamos pela frente a árdua tarefa de atravessar, durante a noite, de norte para sul, uma quarta parte da ilha das Flores, sem caminhos, através de pastagens separadas por cancelas e tapumes de hortênsias, chegar ao Risco, descer a íngreme rocha da Ponta e, só então, encontrar um caminho digno de tal nome, que nos conduzisse a casa. A única esperança era a lua. Esta, porém, contrariamente às expectativas de meu pai, tardou em aparecer.

 

CAMINHANDO NA NOITE

 

Iniciámos, então, uma desconexa e terrífica inambulação que, inevitavelmente, nos conduziria ao pélago. Meu pai confiara de mais no conhecimento que julgava possuir de tão inóspitos andurriais, reconhecendo, finalmente, que, no escuro da noite, era muito difícil andar por ali. É que as pastagens dos matos de Ponta Delgada, como aliás as de toda a ilha, não possuem caminhos, são apenas detentoras de pequenos atalhos ou trilhos delineados pela passagem, espaçada, de homens e animais

Era precisamente por uma dessas pastagens que eu caminhava, agora, bem agarrado à mão de meu pai, cheio de medo de tudo e de nada, ora horrorizado com os aulidos de algum touro que, repentinamente, surgia ao nosso lado, ora assustado com ecos simbólicos e fantasmagóricos de ruídos estranhos que, no escuro da noite, se faziam ouvir de todos os lados.

De repente, à nossa frente, sem que déssemos conta, surgiu um inopinado tapume de hortênsias. Cancela, nem vê-la. Meu pai furou o tapume, mas a separá-lo da propriedade seguinte estava um arroio repleto de fetos e cana-de-roca. Calou-se, por momentos e, depois, exclamou:

- Estamos perdidos!

Eu emudeci, perante tal parrésia. Mesmo que quisesse não podia responder-lhe ou fazer qualquer sugestão. Sentámo-nos, calados, na erva fria, já perene de sereno. Fixámos, imóveis e silenciosos, o nosso pensamento no infinito escuro e no amanhecer distante.

Passado algum tempo, meu pai, como que despertando duma profunda letargia, pensando que eu já adormecera, sacudiu-me e ordenou:

- Álvaro, descalça os sapatos!

Não lhe obedeci. Pensei que delirava e assustei-me ainda mais. Ele, porém, repetiu a ordem com tal veemência que fui obrigado a obedecer-lhe.

Descalcei os sapatos e entreguei-lhos. Ele, dando um nó no extremo da manga de um casaco que trazia ao ombro, guardou-os. Depois, um pouco mais calmo, explicou-me:

- Agora vais andando à minha frente, andando com cuidado, sentindo a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o sítio onde ela está amachucada. Assim descobriremos o atalho.

Comecei a andar, maquinalmente, na escuridão, como se estivesse a jogar à cabra-cega, num espojadoiro. A estratégia, porém, resultou excelentemente. Algum tempo depois, encontrei o trilho. Recomeçámos a marcha lenta e cautelosa. Agora era eu o guia e disso me ufanava. Habituado a andar descalço pelos campos e caminhos, ia facilmente sentindo, debaixo dos meus pés, a erva amachucada e calcada, por onde nos dias anteriores tinham transitado os homens e os animais.

Passado algum tempo, porém, meu pai mandou-me parar. Cuidava ele que estávamos perdidos outra vez. Não tínhamos saído fora do atalho, porque isso os meus pés descalços não me enganavam; perdêramo-nos sim, na direcção. O meu progenitor não sabia se caminhávamos para sul, na direcção da Fajã, ou se pelo contrário regressávamos a Ponta Delgada. Ele, porém, decidiu continuar a andar na mesma direcção, apesar da minha pronta, frontal e resistente oposição.

Andámos, até chegar a uma parede. Eu, já exausto e sonolento, sentei-me! Meu pai, aproximou-se dela e, com as suas mãos calejadas, acariciou-a, levemente, de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza, disse-me:

- Íamos enganados. Nesta direcção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direcção contrária.

Reiniciámos a nossa marcha, sempre no escuro, mas agora na direcção certa e segura, enquanto meu pai me explicava que as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e, consequentemente, mais musgos e ervas. Fora isso, afinal, que ele detectara quando acariciou a parede, descobrindo de que lado ficava o norte. Depois foi só voltar em sentido contrário, porque a Fajã ficava a sul. Era esta a direcção certa e desejada.

Caminhámos, horas a fio, na noite, no medo e no escuro, lutando contra o sono e a constante indefinição dos atalhos!

 

DA ROCHA DO RISCO À PONTA

 

Chegámos finalmente ao Risco, iniciando a descida da rocha. Agora já não nos voltaríamos a perder porque, por um lado, apesar de íngreme, a rocha tinha uma vereda bem delineada e, por outro, a lua surgira, finalmente, por cima da rocha dos Paus Brancos, clara e iluminadora, desfazendo, decididamente, a total escuridão que nos acompanhara até agora e a que os nossos olhos como que já se tinham habituado.

Iniciámos a descida. Segundo a douta estimativa do meu progenitor, já devia passar muito da meia-noite. Regozijei-me. É que sentir, naqueles descampados escuros e solitários a terrifica hora da meia-noite, teria sido fatídico para a minha imaginação. A meia-noite era a hora má, plena de aparições fantasmagóricas e contactos com o diabo. Convenhamos que um encontro, naqueles páramos, com o mafarrico, mesmo que fosse apenas na minha imaginação, não seria o mais aconselhável para a minha já débil audácia, pese embora contasse com a protecção de meu pai, um verdadeiro ateu, nestas crenças.

A rocha da Ponta é um alcantil escarpado, abrupto e a pique. A única e sinuosa via que possui é uma vereda, um aclive íngreme e sobranceiro ao mar. Sítios há, em que pedregulho, objecto ou pessoa que caia, vem direitinho parar às águas do Atlântico, a não ser que antes se desfaça ou esborrache nas fragas e penhascos que nela proliferam.

Eu descia-a, encantado com o luar de que agora desfrutava, opondo-se à escuridão que me envolvera toda a noite. O espectáculo que observava era deslumbrante e maravilhoso! O luar, projectando-se no mar, transformava-o num espelho prateado e cristalino. Lá longe já se vislumbrava o casario da Fajã e a tímida luzinha do farol da Ponta do Baixio. O Pico da Vigia, sobranceiro ao povoado, projectava, no mar, uma sombra clarificante que se difluía, com lenidade, no oceano. O silêncio da noite apenas era cortado pelo ritmado bater das ondas junto à costa. No Rolo, circundante à grande Baía, onde se vislumbravam os montículos arrumados do sargaço, simulando aldeamentos escuros, perdiam-se ondas infinitas de prata e de espuma.

A certa altura, abstraído em tão paradigmática contemplação, sem me aperceber, meti um pé em falso num pequeno riacho, tropecei e estatelei-me de tal forma que o meu corpo ficou a balouçar entre cai e não-cai, à espera de rolar pela falésia, atingindo o oceano. Foi meu pai que, lesto e hábil, me agarrou, impedindo-me de rolar pelo íngreme barranco e cair no fundo do precipício. O resultado foi um enorme susto para ele e um grande galo para mim, o qual me impediu, radicalmente, de continuar a fruir a excelência e beleza daquela paisagem nocturna.

Chegámos às primeiras casas da Ponta. Luz, apenas na pequena lâmpada da capelinha de madeira da Sra de Fátima, fruto da exima devoção à virgem do António Simão e marco protector dos viajantes que se dispunham a subir a temível e perigosa rocha. Meu pai decidira que tínhamos que parar na Ponta. Estávamos exaustos, famintos e cansados e o meu galo crescia cada vez mais. Mais adiante, uma luz, a única em todo o reduzido casario. Meu pai bateu à porta. Conhecia muito bem o dono. Eu já nada podia decidir ou opinar.

A porta abriu-se imediatamente. Uma das filhas do Maurício Esteves assumiu, aflita e sobressaltada, de candeeiro em riste, gritando:

- Já chegaram!? Já chegaram!? Entrem, entrem depressa!

Nós, pasmados, hesitantes e perplexos.

Só depois de entrarmos ela explicou, chorosa e triste, que o pai estava nas últimas e o irmão mais velho tinha ido a pé, aos Terreiros, esperar o Dr João Alves, que vinha de Santa Cruz, de carro, para depois lhe fazer companhia. A partir dos terreiros faria o trajecto a cavalo, mas àquela hora da noite, bem necessitava de companhia. Julgara que eram eles e, quando se apercebeu de que éramos nós, ficou decepcionada. O pai piorava de instante para instante e, temia-se que, quando o médico chegasse, já nada pudesse fazer. Abeirámo-nos do leito escurecido em que expirava o velho Esteves e onde reinava um misto de choro e amargura. Ao lado, os filhos, alguns vizinhos e amigos e a candidata a viúva, que ocupava lugar de destaque, junto à cabeceira do moribundo

Meu pai, depois de se inteirar do estado de saúde do agonizante e das causas de tão inóspito acometimento, pediu uma faca, cuja lâmina fria colocou sobre o emérito galo que eu conquistara na descida da rocha, o qual, lenta e progressivamente, foi reduzindo o seu volume, embora não desaparecendo totalmente.

No velho relógio da sala bateram duas horas. Enquanto o moribundo continuava a agonizar, lançando por vezes alucinantes e dolorosos estertores, já alheio a tudo o que o rodeava, e os circundantes tentavam encobrir e disfarçar choros e soluços, decidimos dar continuidade à parte final, por certo a mais fácil, do nosso atribulado percurso.

 

FINALMENTE EM CASA

 

O caminho agora era acessível e conhecido. Eu caminhava ronceiro atrás do meu progenitor, que cônscio do adiantado da hora, procurava, recuperar o tempo perdido, nos matos de Ponta Delgada. O sono e o cansaço haviam-se conjugado em mim e dominavam-me de tal forma, que já nem conseguia andar, ou, se o fazia, era maquinalmente. Porém, ao chegar à fatídica ladeira das Covas, dei uma enorme corrida e vim agarrar-me ao braço de meu pai, pedindo-lhe protecção. Era ali, exactamente ali, naquele malfadado sítio, que o padre Silvestre ouvira gritos horríveis e gemidos ansiosos, quando regressava da Ponta, depois de, zelosamente, cumprir as suas obrigações pastorais. O testemunho do reverendo, inicialmente digno de pouco crédito, acabou por tornar-se verídico, porque os gritos e os gemidos foram ouvidos por outras testemunhas. Todos os habitantes quer da Ponta, quer da Fajã, temiam passar por ali, sobretudo durante a noite. Apenas alguns homens mais destemidos e menos crédulos, e meu pai estava nesse número, sabiam ao certo o que se passava. Entrei em pânico. A minha própria sombra e a de meu pai me assustavam. Ele, então, pacientemente, explicou:

- Era a Ana do José Felício. Na véspera, um grupo de homens, liderado pelo Ângelo da Joaquina, tinham-lhe feita uma espera, na relva do João Cristóvão, e viram-na chegar, à tardinha, e esconder-se numa furna. Quando sentia alguém passar, punha-se, de imediato, a gemer e a gritar. Inicialmente pensava-se que era apenas para assustar o senhor padre Silvestre. Afinal, a razão era outra, como ela própria explicou, depois de levar umas valentes bordoadas. Queria apenas impedir que pessoas da Ponta tivessem medo de passar por ali, impedindo-as de vir trazer a moenda ao moinho do José Mateus e, assim, as deixassem no seu, que ficava para além da ribeira do Cão.

A explicação do meu progenitor, no entanto, não me acalmou. A certa altura tive mesmo a certeza de ouvir os tais gritos horrorosos e suspiros alucinantes. Arrepiei-me todo e tremi de medo. Meu pai, no entanto, acalmou-me. Eram cães que andavam por ali a farejar fêmea.

Chegámos a casa! Três horas! Minha irmã sobressaltada e aflita, ainda não pregara olho. Assumindo o seu papel de mãe, deitou-me o mais rápido possível. Acordou-me às sete. Era a minha obrigação ir levar a Trigueira ao Outeiro Grande. Regressei, como por vezes fazia, pela Bandeja e Fontinha, entrando em casa da minha avó, para lhe contar a nossa trágica odisseia.

- Foi um milagre de Santa Rita! - Exclamava ela.

E a santa teve honras de luzinha acesa, durante um mês.

                                                            

 

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publicado por picodavigia2 às 10:21





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