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O VERBO E A VERVE DE MONSENHOR J. MACHADO LOURENÇO – AULAS QUE O VENTO NÃO LEVOU

Domingo, 29.12.13

POR ONÉSIMO ALMEIDA

 

Começarei esta minha intervenção expressando o prazer muito especial que para mim foi receber este convite. Poderá parecer estranho se lhes disser que não gosto muito de escrever. Costumo mesmo dizer que gosto sim é de ter coisas escritas. Mas quando me chegou este convite do IAC aceitei-o com júbilo. Na verdade, há muito que pensara registar por escrito as estórias do Monsenhor Lourenço fazendo-lhe assim a minha homenagem de antigo aluno perpetuando-lhe a memória em registo de ficar. Palavras leva-as o vento, como todos bem sabemos. Nas suas aulas ele lançou muitas ao vento, mas não poucas ficaram na memória dos alunos. Eu queria fazer a minha parte: pô-las no papel. Daí o júbilo ao surgir-me esta ocasião.

Fica implícito neste meu parágrafo introdutório que não venho fazer qualquer balanço nem biográfico do saudoso Monsenhor Lourenço, nem sequer um balanço literário da sua vasta obra, que aqui apenas referirei de passagem. Pura e simplesmente procurarei servir de intermediário, mero gravador que ouviu da sua boca estórias e apartes, comentários irónicos fora-de-página que me parece não se dever perder. Marginália pura. Obviamente que não esconderei a intenção ou a tentativa de procurar revelar uma faceta não-transparente para quem não conheceu o Monsenhor Lourenço de perto e que dele tem agora apenas os seus escritos. Destas minhas recolecções sairá naturalmente um retrato, que reconheço parcial. Antecipo-me a frisar que não pretende ser mais. Direi mesmo: é um retrato captado da oralidade das aulas, já que me sentei muitos anos nos bancos de aluno com ele como professor tanto de Inglês como de História Universal e História Eclesiástica.

Aliás, um magnífico e sintético retrato do Monsenhor foi elaborado com mestria por um outro aluno seu, meu antigo colega e hoje companheiro de diáspora, o florentino Nuno Álvares Vieira. Quando lhe disse que viria a Angra com esta missão, respondeu-me com o seguinte e-mail:

Encheu-me de emoção saber que tu ias ou vais falar numa homenagem ao Mons. Lourenço. Ainda mais emocionado fiquei por saber que tal homenagem estaria nas tuas mãos, pois sei através dos teus escritos que tu és um admirador do velho sábio - intelectual diversificado, historiador, teólogo sem ser de grandes beatices - batia uma só vez, de mão leve no peito, para dizer "mea culpa", escritor, poeta (até as musas o inspiraram a escrever versos bonitos à rainha das festas da cidade), bom terceirense (amigo da sua terra), humorista, calmo, observador, bom medidor das proporções, compreensivo, altamente humano, etc. etc. Mais do que alguém poderia pensar - nada lhe passava desapercebido. Nada! Não te esqueças de quando dizia que os ministros do antigo governo asseguravam o povo de manter as suas petições debaixo de olho: sentavam-se sobre elas.[1]

Tivesse eu o talento de James Boswell e escreveria, aposto, uma versão moderna de The Life of Samuel Johnson, tantas são as estórias que ao longo dos anos os seus alunos foram acumulando na memória. Não fiz qualquer pesquisa entre os colegas para esta ocasião. Socorro-me apenas da minha memória e, nalguns casos, das minhas sebentas, pois fosse eu pesquisar entre todos os seus antigos alunos e veriam que não exagero comparando-o com Johnson.

O Monsenhor Lourenço repetia, aliás com muita frequência: As minhas aulas são de cultura geral. E tanto assim era que delas foi o que melhor se me colou na mente: os seus ditos, as suas estórias tão cheias de sabedoria, a que ao longo dos anos tenho recorrido para ilustrar as mais diversas ideias. Há um livro americano intitulado Everything I Needed to Know in Life I Learned in Kindergarden, pois sem desprimor para o magnífico corpo docente que tive a sorte de me acompanhar no Seminário de Angra, poderia também eu dizer que muito do que necessitava na vida aprendi nas aulas do Monsenhor. Na verdade, os seus ensinamentos eram, mais do que dados, factos, ou peças epistémicas (para usar o jargão corrente), autênticas pérolas de sabedoria – e por sabedoria aqui eu refiro-me à mais clássica sofia dos gregos. Assim o avaliámos desde cedo e, por isso, quando a propósito do Centenário do Seminário em 1962 eu escrevi uma paródia parcial d’ Os Lusíadas em que figuravam como deuses do olimpo todos os professores do Seminário, escolhi para o Monsenhor Lourenço a figura de Saturno. No final do panfleto, numa “Tabela dos deuses”, eu explicava: “Saturno: Monsenhor Lourenço – Paz e abundância na idade de ouro”.[2]

Era assim que o entendíamos, uma espécie de avô livre e magnânimo que ensina os netos sobre a sua experiência com uma atitude livre, uma dose de candura e uma certa bonomia que se fixam indelevelmente na memória deles, colando-se-lhes também ao coração.

Aludi à obra literária do Monsenhor Lourenço e adverti que não me iria debruçar sobre ela. Não é de facto essa a minha intenção. Conheço-a e posso dizer que a li toda nos anos sessenta. Mas ela é do domínio público e prefiro aproveitar esta oportunidade para complementá-la com uma faceta da obra não escrita. No entanto, constato que não posso deixar completamente de referir também a escrita, cujos títulos recordo na íntegra quase por ordem de publicação, porque cada livro trazia a lista das obras publicadas e eu, que sempre tive, não sei porquê, uma pecha para os livros (escrevi sobre isso uma crónica intitulada “O meu último fetichismo”[3]), admirava a produtividade do meu professor, mesmo se já naquela altura os versos de À Mãe do Amor, Aleluias da Alma, ou Lusa Estrela e, mais tarde, de Benedicite, me pareciam demasiado datados no mundo clássico em que o Monsenhor sempre gostou de viver, e o fez assumidamente, nunca escondendo as suas preferências políticas de católico, apostólico, português (para mais monárquico) e, em literatura, poeta da velha escola. Nunca isso, porém, deu azo a que fosse ostracizado ou hostilizado por uma juventude que vivia fascinada com o novo e voltada toda para o mágico e revolucionário futuro.

A sua novela Vitória era assim como que um rito de passagem obrigatório. Lia-o quem começava a entrar nos dilemas da idade de se descobrir o outro sexo. Conta a vida de um seminarista do Seminário de S. José de Macau, com estórias muito parecidas às nossas de Angra. Por lá os seminaristas não eram conhecidos por “melros pretos”, como em Angra, mas a sua situação era semelhante. De uma vez, num jornal local, apareceu um comentário de um anticlerical referindo o facto de num jardim da cidade só ter visto suínos e seminaristas. Reagindo em verso, alguém que parece ser o próprio Machado Lourenço, pergunta: se àquele jardim só iam suínos e seminaristas e o autor daquele comentário não era seminarista, então era o quê? Mas nessa novela o clímax era a descrição de uma ida do protagonista (o autor? seria autobiográfico esse livro? nunca o pudemos apurar) a Hong Kong para consultar um dentista especializado e que na viagem de barco se reencontra com uma jovem que por ele vivia apaixonada mas até ali sem ele saber. A tensão dramática adensa-se e, perto do final, há uma castíssima cena de beijo, na altura de tão explosivo efeito que os mais velhos e sabidos, os que nos recomendavam a leitura, esperavam pela nossa reacção: - Já chegaste à página… não sei qual agora, que para aqui trago tudo do saco da memória dos anos sessenta sem consulta aos livros que infelizmente perdi nas múltiplas andanças da vida.[4]

Li também as obras de etnografia:  O Romance de um Malaio e Por Terras do Sagrado Ganges, bem como o Beato João Baptista Machado – Mártir do Japão, Prémio João de Barros, da Agência Geral do Ultramar, que na altura me encheu de orgulho. Era o reconhecimento de um autor dos Açores, para mais meu professor. E o prémio não era desprezível: 15 mil escudos, se bem me lembro.  Havia um capítulo sobre “Goa Dourada”, o quarto creio eu, com uma descrição romantizada, altamente idealizada e mítica mesmo, da Roma do Oriente. Teria irritado Edward Said - se o autor de Orientalism lhe conhecesse a existência, talvez o citasse como exemplo da mitificação ocidental do Oriente. Mas o dito capítulo terá afinal tido alguma razão de ser por razões que adiante aduzirei. Orgulhei-me igualmente quando descobri que a Enciclopédia Luso-Brasileira (que eu consultava amiúde na velha biblioteca do seminário quando com um pequeno grupo de colegas lá trabalhava como voluntário sob a orientação do dr. José Enes) incluíra uma entrada com o nome do Monsenhor, ainda que lhe dedicasse apenas duas linhas. Ainda esse mesmo orgulho interior eu senti ao saber que as suas Regras de Gramática da Língua Inglesa, por onde nas suas aulas aprendemos inglês, eram também usadas no liceu. E, se não li o livro Os Lusíadas - Poema Católico, foi simplesmente porque o havia lido em artigos à medida que iam saindo na revista Atlântida, que ele dirigia. Mas voltemos ao tema de que prometi ocupar-me.

Os seus apartes eram lendários. Saíam-lhe com uma naturalidade assombrosa. De certa vez, numa prova oral do primeiro ano de Inglês perguntou ao António Filomeno Maia qual era o presente do indicativo do verbo to be. Nervosíssimo, o Filomeno gaguejou: I bee, you bee, he bees… E o Monsenhor: Pois, pois… Eu abelha, tu abelhas, ele abelha.

Noutra ocasião, ouviu-se na aula o ruído de um avião. Os alunos mais próximos da porta para o jardim, que estava sempre aberta, esticaram o pescoço para ver melhor. O Monsenhor: Ok, não distraiam o aviador.

Tinha uma predilecção por estórias que envolviam incongruências lógicas. Uma das suas clássicas era a dos grilos do padre Patagónia. Guardava-os o padre numa caixa de fósforos e todos os dias ia alimentá-los. Uma manhã, ao abrir a caixa, não os encontrou. Conclusão do padre Patagónia: Comeram-se um ao outro.

Entre essas predilectas incongruências lógicas figuravam os famosos silogismos que não apresentava como seus. Aliás, não reclamava nunca originalidade nas estórias que contava: Tudo o que é raro é caro

Um cavalo bom e barato é raro.

Logo um cavalo bom e barato é caro.

Outro exemplo de incongruência era o silogismo:

Quanto mais se estuda, mais se sabe;

Quanto mais se sabe, mais se esquece;

Quanto mais se esquece, menos se sabe;

Quanto menos se sabe, menos se esquece;

Quanto menos se esquece, mais se sabe;

Logo, não vale a pena estudar.

O inglês era, segundo ele, uma língua estranha sem lógica correspondente na nossa gramática portuguesa.  Uma palavra lê-se Roma, escreve-se Jerusalém e significa Jericó.

Em determinadas matérias controversas comentava: Sobre esta questão, as opiniões dividem-se. Há os que dizem que sim e os que dizem que não. Os que dizem que sim afirmam, os que dizem que não, negam. Eu não digo nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário.

As estatísticas, como as demais modernices, mereciam-lhe gracejos. Não acreditem nas estatísticas! Um homem come dois pães e outro não come nenhum, e vai as estatísticas dizem que cada um comeu um pão. Emparceirava, pelo menos aqui e não só, com Benjamin Disraeli, segundo quem havia lies, damn lies and statistics.

Ainda como exemplo de incongruências paradoxais, contava aquela história de um homem que quis habituar o seu cavalo a viver sem comer, mas teve pouca sorte. Foi aos poucos cortando mais e mais a ração do animal e, quando o cavalo já estava mesmo quase habituado a viver sem comer, morreu.

Nesta ordem de ideias, contava a do homem que foi votar e encontrou um amigo:

- Para onde vais?

- Vou votar.

- Em quem?

- Em Fulano.

- Então vamos para casa. Não vale a pena perdermos tempo. Eu ia votar por Sicrano! – que era da oposição.

Não era nenhum exemplo de pedagogo aggiornado, o Monsenhor Lourenço. Usava nas aulas os antigos métodos, que lhe pareciam mais eficientes do que as novidades pedagógicas, e advogava-os igualmente para a religião. Queixava-se dos métodos modernos de missionação que faziam apenas pesca à linha, obtendo uma conversão de cada vez, ao contrário dos antigos que pescavam cristãos à rede, em massa.

Muitas vezes lia monotonamente do compêndio e eu confesso que foi nas suas nas aulas de História Eclesiástica que devorei todos os quatro volumes de Un Periodista en el Concilio, do padre jornalista espanhol José Luís Martín Descalzo que admirava muito como repórter do Vaticano II. Fazia-o alegando juvenil e parvamente que a história contemporânea da igreja relatada por Martín Descalzo era mais importante que a do Manual de História Eclesiástica, de Bernardino Llorca S. J.. Para tal, tive sempre a cumplicidade de colegas que me encobriam e, com as suas costas me ajudavam a esconder dos olhares do Monsenhor. Ou julgar esconder, porque afinal não era possível iludi-lo. Olho de rato, era muito sabido e conhecia a psicologia humana muitíssimo bem. Não raras vezes atirava a sua piada, mas nunca protestou.

Não gostava de chamar os alunos a exporem a lição. Como que tinha rebuço em apanhar alguém em flagrante impreparação. Contava a história de um professor que tinha idêntico problema e acabava chamando à lição quem acontecia cruzar olhares com ele. Os alunos, tendo-se apercebido disso, um dia ficaram na aula todos de cabeça baixa deitada sobre os braços cruzados em cima das carteiras. Ele ficou quieto e em silêncio, como a aula inteira. Passados vinte minutos de desconforto da rapaziada, um aluno espreitou pelo canto do olho e o professor captou-lhe o olhar: Exponha você a lição. O Monsenhor resolvia o seu problema usando uma latinha, e chamava um aluno para ir tirar um número à sorte.

Havia algo dele mesmo na história que contava do professor que estava a examinar um aluno que não sabia nada. Perguntava-lhe por exemplo qual a capital da França. O aluno, moita. O examinador dizia: Paris. E pedia: Repita lá! E o moço repetia. E por aí fora. A cada pergunta sem resposta, o examinador acabava dando-a ele próprio, mas exigia que o examinando a repetisse de seguida. No final, deu-lhe um dez, a nota tangente da altura.

Como? – atalhou o examinador assistente. - O rapaz não sabia nada.

- Não sabia, mas ficou a saber.

- Mas ele não sabe mais nada!

E da bonomia do homem veio a sentença salvadora:

- Sobre o que não lhe perguntei não posso ajuizar.

Era muito parco nas notas. Dizia que só dava notas de porco – 9/10. Explicava que 20 era para Deus, que sabe tudo. 19 para o professor. 18 seria para um aluno que soubesse tanto como o professor mas não pode ter a mesma nota por ser aluno. 17 era para o melhor aluno da aula, que aliás rarissimamente dava a alguém.

A propósito da atribuição de notas, há uma história que uso com frequência aplicando-a a situações diversas da vida. Às vezes o Monsenhor corrigia testes na aula. Estava um dia a fazê-lo e ia comentando em voz alta. Chegou ao fim de um a que deu um 9. Começámos a torcer para que desse um 10: Monsenhor, quem dá nove dá 10. E o Monsenhor: Pronto. Lá vai 10.

Entusiasmados com o bom sucesso, começámos a pedir: Quem dá 10, dá 11! - e o Monsenhor cedeu e subiu a nota. E o fomos prosseguindo a ponto de a classe entrar em delírio quando se atingiu o 17. Ainda assim, continuámos a incitá-lo a ir mais longe: Quem dá 17, dá 18. O Monsenhor achava que isso era ultrapassar a sua proverbial escala e parou. Bom, vamos lá a ver: que nota é que eu tinha dado no início? E todos em coro: 9! Ele, sempre muito sereno: Ah! De 9 para 18 a diferença é muito grande. Fica o 9.

Achei sempre espantosa esta estória como exemplo de se esticar demasiado a corda das normas e princípios. É sempre possível argumentar em favor de um pequeno jeito ou ajustamento a uma situação, mas isso só pode fazer-se até um certo ponto. Há que draw the line, como se diz em inglês. Em questões de ética, tanto em aulas como na vida real, tenho recorrido inúmeras vezes a esta sapientíssima e pedagógica – diria mesmo salomónica - decisão do Monsenhor Lourenço. O meu grande amigo Eduíno de Jesus lembrou-me que na antiga Retórica a memoratio não significava “decorar”, mas sim reunir coisas de memória para ilustrar. Nesse capítulo, o Monsenhor Lourenço tem sido para mim uma verdadeira Fonte de Hipocrene.

Logicamente incongruentes eram as histórias do ingénuo Caldas Aulette, autor de um famoso dicionário, de que contava muitas, mas que – confesso – confundo por vezes com as que contava do famoso Dr. Assis, celebrada ingénua figura coimbrã da viragem para o século XX[5]. Um dia ofereceram (creio que ao Dr. Assis) uma bonita bengala. Na rua alguém a elogia e ele reage:

- Sim, muito bonita. Só é pena ser muito grande.

- Por que não a corta?

- Porque, se cortar, vou eliminar a parte mais bonita, que é este belo castão.

- Pois corte-a por baixo.

- Não, que ela fica grande é em cima!

Eram muitas as estórias que contava do Dr. Assis. Recordo uma das suas charadas: Contrário do princípio em francês; muito apreciado na mulher, com cedilha. Dá a primeira cadeira na Universidade: Finanças. Isto é, a cadeira que ele, Dr. Assis, leccionava.

Havia nele um sentido pragmático algo inglês. E muito humor nessa cultura cultivado. Na cultura popular da sua Terceira também abunda o humor[6], mas deve tê-lo alimentado sob a influência da cultura inglesa que conhecia muito bem. Privilegiava o raciocínio pragmático e era avesso a elucubrações abstrusas. A gente lê uma frase e não entende, conclui: - Burro eu! Lê-se outra vez. Não entende? Burro eu ou burro tu! Lê-se uma terceira vez e, se ainda não se entende, Burro tu!

Uso inúmeras vezes esta estória nas minhas tiradas contra o uso pedante do jargão académico. Servi-me dela como fundo num conto do meu livro (Sapa)teia Americana a que dei mesmo o título de “Burro Eu!”

Outra:Um homem vai a uma corrida de cavalos e o cavalo X ganha a corrida. O apostador conclui: - Foi sorte. O cavalo ganha nova corrida e ele concluiu: - Coincidência. O cavalo ganha a terceira corrida e ele aposta no cavalo.

Eram muitas as suas máximas:

O bom soldado nunca deve perder a cabeça. Se não, onde é que há-de pôr o capacete? E as suas observações do género: A maior invenção da História diz-se que foi a roda. Não. Foi o botão. Imaginem o que lhes aconteceria nas calças se não fosse o botão! Como fechariam a braguilha?

Ou esta outra: O bom soldado deve dar o sangue pela pátria até à penúltima gota; a última é para fugir.

Entre nós, vários dos seus ditos se transformaram em expressão corrente, como aconteceu com uma saída sua. Explicava-nos:

-          O Sr. Reitor veio dizer-me que esta aula é secundária e acaba a 18 de Março. Devo dizer-vos que recebi a notícia não só com resignação mas até com entusiasmo.

Uma dos seus conselhos irónicos era supostamente o de um lente de Coimbra, que recomendava aos alunos a lavagem frequente dos pés. Não calculam o prazer, o alívio que se sente nos primeiros quinze dias depois de lavados.

Havia ainda os seus àpartes quando ia lendo o compêndio em voz alta. De uma vez, era o referido Manual de História Eclesiástica: “Porém, ao querer pôr-lhe a coroa, Napoleão tomou-a em suas mãos e pô-la em si mesmo, coroando logo a seguir a sua esposa.”

Comentário do Monsenhor:  Hoje as esposas é que coroam os maridos!

A ler um texto sobre a Índia portuguesa: “O grosso das tropas que até há pouco havia na Índia é descendente dos antigos europeus que se conservaram até hoje com sangue europeu puro” – e o àparte:  … a não ser um ou outro que se tingiu, mas por… contrabando.

Sobre uma passagem que referia camelos, comentou: No Oriente, camelos são aqueles que se casam.

Tinha o que se chama a resposta sempre na ponta da língua. As saídas surgiam-lhe com frequência em trocas com os alunos. Sirva de exemplo uma sobre bastardos, a que chamava “filhos de trás da porta” (bastardos):

- D. Afonso IV é talvez o único rei de quem não se conhecem filhos bastardos.

O Carlos Fagundes interrompe:

- E D. Pedro V?

- Esse não teve tempo, coitado.

Na última aula do período pedíamos-lhe uma vez que nos desse um feriado:

 - Não pode ser – disse ele e apontou para as salas ao lado. Estamos rodeados de graúdos: o reitor, o prefeito de estudos… É   perigoso.

Eu intervim:

- Ó Monsenhor, na aula anterior o dr. José Nunes, que foi reitor no ano passado, deu só um quarto de hora de aula.

E o Monsenhor:

- Por essas e por outras é que ele saiu.

De outra vez estávamos à procura de uma dispensa de um exercício escrito (ou tema, como chamávamos os pontos).

- Monsenhor, esta semana já temos quatro!

- Tudo de História?

- Não, senhor: um de Direito, outro de Moral e outro de Dogma, mais agora este.

- Bom, se os outros decidirem não fazer o seu, eu sou capaz de fazer o mesmo.

Noutra aula, lê:

- O rei podia depor um bispo-conde. Ou um arcebispo-bispo-conde.

Interrompi:

- Monsenhor, li num livro que o antigo arcebispo, bispo-conde de Coimbra chamava-se D. Ernesto e os estudantes chamavam-no o ABCDE.

O Octávio atalhou: 

- Ele já morreu!

E o Monsenhor:

- Ah! Então tem mais uma letra: F – Falecido.

De uma vez, na aula número 10 entra um aluno vindo de outra sala. Pede autorização para procurar um ponteiro que faltava na sua sala. O Monsenhor autoriza-o. O aluno percorre os cantos da sala e, sem êxito, desiste:

- Não encontro ponteiro nenhum - e saiu.

E o Monsenhor:

- Eu cá tenho o meu comigo.

Outros ditos famosos eram: Há dois tipos de profetas: os maiores e os menores. Os maiores são os que acertam sempre;  os menores, são os que nem sempre acertam.

De vez em quando, na sequência de qualquer referência à França, acrescentava: … a filha mais velhaca, perdão, mais velha da Igreja…

Eram várias as suas estórias parlamentares:

Um padre-deputado falava no Parlamento e entra uma pomba na sala. Um deputado, conhecido por aparecer frequentemente bêbado, comenta alto: - Lá vem a inspiração do Espírito Santo! O padre deputado riposta: - Não. É a pomba que vem à procura do borracho![7]

Outro deputado afirma de punho cerrado e com veemência:

- Eu cá só tenho um partido!

Da bancada da Oposição respondem-lhe:

- Esteja calado, se não parto-lhe o outro!

Mais uma ainda da sua série sobre o Parlamento:

Um deputado: V. Ex.cia dá uma no cravo, outra na ferradura!

Outro deputado: Porque V. Ex.cia não pára quieto com o pé.[8]

Ainda outra figura política preparava uma intervenção para ler no Parlamento anotando na margem do seu discurso: Argumento fraco. Ler mais alto.

Eram inúmeras as estórias locais.

Contou, por exemplo, a propósito de uma famosa gralha num anúncio de venda de colchões em frente ao Paço Episcopal, a do visconde que telefonou ao director de A União, Dr. Cardoso do Couto, por causa de uma notícia que saíra, por sinal da mesma forma que tinha entrado na redacção: Fulano [ele, o visconde], vende uma égua e os arreios por lhe não servirem.

O Dr. Brasil, conhecido agnóstico de Angra, dava consulta gratuita aos pobres. Era comum agradecerem-lhe com a popular expressão Nosso Senhor lhe pague! O médico respondia: Não quero contas com ele, que é muito caloteiro!

O dr. Valadão (“Velho”) estava a aprender a conduzir. Nervoso, viu ao longe uma vaca e avisou o instrutor: Eu vou dar na vaquinha, eu vou dar na vaquinha! E deu mesmo. Vira-se para o instrutor: Eu não disse?

 

A mesma figura, na aprendizagem de condução com o instrutor a avisá-lo: Páre! Páre! O Dr. Valadão bate com o carro contra a parede. E o instrutor: Assim também, pára; sai é mais caro!

Numa freguesia da ilha havia uma rapariga que não era das melhores coisas que tinham vindo a este mundo. Um dia o marido parece que deu uma cabeçada e partiu os cornos. Diz-lhe ela: Calma! Daqui a dias nascem outros. Antes tê-los inteiros do que tê-los partidos.

Conservador assumido[9], não se poupava a emitir os seus comentários críticos ao que à sua volta ia vendo. Um dia, referindo-se a um nosso colega de curso que encontrou sem colarinho na rua, disse:

- Há dias encontrei na rua o José Manuel Franco. Fiquei sem saber se ele tinha desistido, ou se aquilo era o Concílio.

O Varão pediu dispensa no início da aula, prática comum quando um aluno por qualquer motivo não tinha podido preparar a lição do dia.

O Monsenhor: - Então vai ser chamado o vizinho do lado, o sr. Moules, porque se o senhor não estudou não vai poder ajudar o seu colega.

Terminarei com uma história que costumo contar quando se me oferece a oportunidade de dar um exemplo da finura de espírito e do sentido de humor do Monsenhor Lourenço. Era um dia cinzento de Fevereiro. Estávamos na sala número 4 (dizíamos “aula nº…”) junto ao jardim. Aula de História Eclesiástica e o capítulo daquele dia era sobre “A expansão da Igreja Primitiva”. Como sempre, o Monsenhor hesitava quanto a quem chamar à lição. Na carteira mesmo em frente da sua secretária, o Manuel Faria de Castro esfregava as mãos para se aquecer: Está frio, Monsenhor. E este:

- Pois. Faz frio, faria frio, porque é que o Faria não expõe a lição?

O Faria estava completamente in albis e, ainda não refeito da surpresa, começou a papejar sem conseguir arrancar frase que se ouvisse.

O Monsenhor, com mal-disfarçada ironia, ajuda-o:

- Com que então, a Igreja… estendeu-se muito, não foi?

A classe estala às gargalhadas menos o Faria que, nervoso, não se apercebeu do trocadilho ou não se riu porque o riso geral era à sua custa. O Monsenhor prossegue então num tom ainda irónico mas agora também malicioso:

- … e logo no princípio, não foi?

Há muitas mais estórias do Monsenhor e os colegas de outros cursos foram de certeza testemunhas de inúmeras outras que poderão também contar. Deveriam fazê-lo para se completar tanto quanto possível este retrato de uma personalidade brilhante e de mente tão rica.

Nestes dias li o livro Plato and a Platypus Walk Into a Bar. Understanding Philosophy Through Jokes, de Thomas Caathcart & Daniel Klein[10], um autêntico compêndio de Filosofia urdido com anedotas e ditos de humor. Com as de Monsenhor Lourenço poderíamos do mesmo modo compor uma espécie Livro da Sabedoria Segundo Monsenhor Lourenço. Na verdade, lembro-me de o meu antigo e estimado professor se ter uma vez referido a um livro dizendo que o pobre autor nele tinha posto tudo quanto sabia. Com ele, isso não foi possível. Os seus muitos livros são apenas uma pequena amostra de tudo o que ele sabia e o seu espírito criou. Incito, por isso, os meus colegas a colaborarem enquanto a memória lhes permite.

Nunca o seu humor foi por qualquer um de nós tomado como agressivo ou ofensivo. Havia na sua personalidade uma bonomia sábia da vida, compreensiva das fragilidades humanas que, no enquadramento do seu aspecto físico algo curvado, frágil e, para nós jovens, já avançado em anos, lhe davam um estatuto ou auréola de avozinho querido dos netos porque a autoridade já não residia nas suas mãos e não lhe cabia impor disciplina ideológica ou vigiar os nossos pequenos desvarios de jovens. Em troca, de todos só recebia carinho, respeito e admiração.  

Não deixa de ser deveras curiosa a diferença entre uma obra escrita conservadora e a personalidade no fundo aberta e compreensiva de alguém reconhecendo que, sendo embora de outro tempo, que considerava bem melhor do que o novo, admitia ter esse seu tempo já vivido a sua época. Fora educado no Oriente, por onde circulou numa rede de baluartes da civilização ocidental e cristã – Singapura, Malaca, Goa, Macau. Repetia-nos com frequência: Quem não foi ao Oriente não conhecerá nunca a obra que os portugueses lá fizeram. Só anos mais tarde, quando tive oportunidade de visitar o Oriente, pude aperceber-me do prestígio que ali gozava ainda o Portugal de outrora (até nos táxis ouvi elogios rasgados a Portugal) e de como a Igreja católica, apostólica, portuguesa/goesa, era de facto uma realidade voltada para um passado de ouro que, mesmo se largamente mítico, se pressentia como realidade prestigiada e prestigiante. Os últimos exemplos que conheci foram os de um descendente de goeses, Miguel Rodrigues-Kamat, meu aluno na Brown, que me falava da Goa Dourada com a mesma letra e música ouvida ao Monsenhor Lourenço, como se tivesse lido o tal capítulo quarto da biografia do seu Beato João Baptista Machado. Fez mesmo uma tese de licenciatura em História sobre “The Golden Goa”. Hoje médico, ainda não alterou a sua visão romântica. E mais recentemente, tenho outro aluno, este chinês, o Yi Liu, de Beijing, que me chegou à Brown com uma também altamente positiva ideia de Portugal, como se o nosso país de hoje mantivesse o fulgor imperial de há quinhentos anos.

No início mencionei Edward Said e o orientalismo que ele abominava, mas acho que faria mais sentido evocar aqui a resposta indirecta de Ian Buruma e Avishai Margalit sobre o correspondente ocidentalismo que no Oriente encontraram[11]. Só que o caso de Monsenhor Lourenço é diferente tanto de Said como de Buruma & Margalit, pois tendo a visão que transmitia sido forjada no próprio Oriente, fora depois complexa e duplamente mitizada no seu regresso, ao deparar com um Ocidente que se afastava a passos largos dessa dourada visão do mundo.

Nessa minha primeira viagem ao Oriente, em 1982, senti-me impulsionado a escrever umas linhas ao Monsenhor Lourenço, com quem nunca mais contactara desde que do Seminário saíra, em 1969. Lembro-me de ter adquirido vários postais das ruínas da Igreja de S. Paulo, em Macau, e de os ter enviado a alguns amigos com a seguinte nota referindo-me à presença portuguesa naquelas paragens: “De pé ainda, mas os restos.” Não foi isso que escrevi ao Monsenhor. Não retive o texto verbatim, mas seguiu algo assim: “Vim aqui verificar in loco tudo o que já sabia por lho ter ouvido nas suas aulas.” Cerca de seis meses depois, eu recebia a notícia da sua morte. Mas um amigo próximo dele garantiu-me que ele recebeu o meu postal e o leu com lágrimas nos olhos comentando: “Nunca sabemos aquilo que ensinamos onde vai cair”.

Foi a última lição que do Monsenhor Lourenço recebi e é agora mais um dito que dele – com verdadeira saudade e carinho – conto, sempre que a ocasião se me oferece. Só tenho pena de não ter estado mais atento nas suas aulas para ter podido arquivar na memória muito do que de certeza irremediavelmente perdi. Mas dessas imbecilidades juvenis não vale a pena vir aqui lamentar-me. O Monsenhor Lourenço sabia dosear a nostalgia com sal irónico e não se comprazia em lamentações.



[1] E-mail de 20 de Setembro de 2008.

 

[2] É breve a referência que na paródia lhe faço. Marte (o Dr. Valentim Borges de Freitas) ia falar em defesa dos alunos. Antes de começar a narrar essa sua intervenção, na estância 22,  os primeiros quatro versos referem-se assim a Saturno:

 

Muito perto e um pouco mais adiante

Estava o velho e ridente Saturno

Que o fizera rir havia um instante,

Mas já estava agora sério e seguro.

 

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida, O Centenário (Paródia). Edição do Autor, 1963),

 

[3] Que Nome É Esse, Ó Nézimo? – e outros advérbios de dúvida (Lisboa: Salamandra, 1994),  pp.  43-47.

[4] Nos anos sessenta eu tinha todas os livros do Monsenhor, mas deixei-os nos Açores, juntamente com muitos outros, quando primeiro fui para Lisboa. Não poucos deles levaram descaminho. É, por isso, com imensa satisfação que registo aqui o facto de agora voltar a possuir um exemplar de Vitória.  Foi-me oferecido pelo meu amigo e antigo colega (um ano mais novo no curso) Heriberto Herculino Silveira Brasil, patrício do Monsenhor, pois é também natural das Cinco Ribeiras. Hoje meu @migo internético, convidou-me a almoçar no dia da homenagem do IAC e surpreendeu-me com essa bela oferta desfazendo-se do seu único exemplar. Cabe aqui um agradecimento muito sincero à sua generosidade.

Nesse almoço que teve lugar em S. Mateus à vista de bela água, e a que se juntou o Doutor Cipriano Franco Pacheco, ouvi  aos dois várias novas estórias que no final deste meu texto serão reproduzidas. Pus-me, entretanto, imediatamente a reler essa “novela folclórica”, como o autor lhe chama em subtítulo, e foi com imenso prazer que facilmente recordei inúmeras passagens da primeira e única leitura que do livro fiz há 45 anos. A título de exemplo, menciono os versos do Palito Métrico, do folclore académico coimbrão, que um colega do protagonista de Vitória tentou verter para português, também em verso. Assim, Filius ille putae, qui primus carmina fecit saiu: Aquele filho da mãe / Que primeiro versos fez, / Merecia na cabeça / O que tem bovina rez! (Angra do Heroísmo: União Gráfica Angrense, 1958), p.p. 136s. O Monsenhor contava esta estória nas aulas.

[5] Ver Alberto Costa, O Livro do Doutor Assis. Possuo a 10ª edição (Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1951), que não indica a data da primeira edição.

[6] Sobre essa faceta da personalidade do Monsenhor o Heriberto enviou-me uma achega biográfica preciosa e que transcrevo na íntegra: O humor do Monsenhor Lourenço não nasceu, propriamente, por geração espontânea. Ele pertence a uma família (em sentido genérico) conhecida, aqui nas Cinco Ribeiras, pelos "Bilhanas". Trata-se duma família célebre pelo seu sentido de humor. Um dos seus irmãos, o Marcial "Bilhana", que era casado com uma prima de minha mãe, era um exemplo disso. Naquilo que dizia, nas partidas que armava. Ainda hoje, quem dele se lembra, recorda a alegria que ele espalhava à sua volta, com ditos e brincadeiras. Uma prima do Monsenhor, já em 2º ou 3º grau, por acaso também casada com um primo de minha mãe, ainda hoje é um excelente exemplar do humor dos "Bilhanas". Acontecimento ou situação que aquela boca comente dá para partir a rir. E até o filho dela, com nome de Mago, Belchior, é hoje em dia uma das principais figuras dos terceirenses bailinhos de Carnaval. E sobressai (para além de ser um actor nato) imagina em quê: exactamente no humor. De há uns anos a esta parte, quando as pessoas, pelo Carnaval, aglomeradas em salões de sociedades recreativas esperam que passe um bailinho, é frequente ouvir-se a pergunta "quando é que chega o bailinho do Belchior?". (E-mail de 2 de Janeiro de 2009).

 

[7] O meu amigo e colega, Professor António Cirurgião, aposentado da Universidade de Connecticut, natural do Continente, também frequentou um seminário e diz que um seu professor contava essa estória e dizia que o deputado com fama de alcoólico era Brito Camacho. (E-mail de 11 de Dezembro de 2008).

[8] António Cirurgião informa-me que esta resposta foi também de Brito Camacho. (Idem)

[9] Não contarei aqui uma estória que reflecte bem o patriotismo português do Monsenhor, bem expresso na letra que, a pedido do Dr. Edmundo Oliveira, escreveu para o “Coro dos Soldados”, da ópera Fausto, de Gounod, que cantámos no orfeão. O excessivo passadismo nacionalista desses versos fez-me escrever uma paródia anti-salazarista. Mas essa narrativa ficará para um outro escrito, em outro contexto.

[10] (Abrams Image, New   York, 2007).

 

[11] Occidentalism. The West in the Eyes of Its Enemies (New York: The Penguin Press, 2002).

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publicado por picodavigia2 às 09:49





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