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ADDENDUM (O VERBO E A VERVE DE MONSENHOR J. MACHADO LOURENÇO – AULAS QUE O VENTO NÃO LEVOU)

Domingo, 29.12.13

POR ONÉSIMO ALMEIDA

 

Não era preciso ser adivinho para prever o que iria acontecer com esta homenagem. Decidi enviar o texto a três dúzias de amigos e antigos colegas, hoje espalhados pelo mundo, e ele despoletou uma cadeia de reacções carregadas de afecto por esse nosso antigo professor, e trazendo-me estórias adicionais. Outras foram-me contadas na minha passagem por Angra, aquando da sessão de homenagem do IAC, bem como no dia seguinte, em Ponta Delgada, num encontro de colegas do meu curso que resolveram assinalar com um convívio os cinquenta anos da nossa entrada para o Seminário Menor naquela cidade, em 1958. Tendo sabido da sessão em Angra, pediram-me que relatasse o que ali se passara e recontasse algumas das estórias que contara na minha intervenção. Obviamente que choveram as lembranças de cada um e o carinho pela pessoa do Monsenhor Lourenço ficou refrão na corrente de sentimento dessa noite de nostálgica alegria. 

De Lisboa, onde trabalha na comunicação social, um e-mail do cónego António Rego  como que deu o mote: “Fui transportado a um mundo fantástico”, revelando o quanto aqueles  idos anos sessenta pertencem a um passado que não só é de outro século como de outro milénio. Optei por, além das estórias novas, reproduzir as passagens que ao Monsenhor se referem pois isso dará uma dimensão mais representativa e alargada da justeza desta homenagem do IAC.

Da sua actuante livraria Culsete, em Setúbal, Manuel Pereira de Medeiros enviou-me um e-mail que, não sendo exactamente sobre o Monsenhor Lourenço, ajuda a criar um enquadramento importante, desenhando uma espécie de contexto temporalizado que permitirá ao leitor compreender melhor a auréola mítica que envolve estes anos 60 (no caso, também ainda fim da década de 50) nuns Açores remotamente isolados do mundo:

Marcou muito o meu curso. O tal curso que marcou muita coisa, como ainda agora foi possível perceber na reunião de 15 de Junho p.p.. Regressado à Terceira estávamos no 5.º ano, fôramos os primeiros alunos de Coelho de Sousa em Português no 3.º e 4.º. No 5.º Português, Inglês e História com Mons. Lourenço. Antes de no 6.º a Literatura com o Cónego José Augusto Pereira. E também no 6.º Filosofia com José Enes e Grego com Cunha de Oliveira. Vês a sequência e a sorte? Percebes o que de mim veio a mim desta sequência? Há mais. Especialmente Simão Bettencourt, de difícil intimidade mas comigo desde o primeiro ano até à sua morte uma grande e riquíssima amizade.

Tenho que ter mão em mim para não encher a tua caixa de correio!!

Vê lá se não há na tua memória atribuída a Mons. Lourenço alguma piada que já andava no ar das aulas n.º 4, 3 ou 10 antes de lá ele entrar...

Do Carlos Sousa, antigo Chefe dos Serviços de Emprego nos Açores e director do muito conhecido grupo musical Belaurora:

Mal recebi o teu e-mail, abri imediatamente o texto e li-o com sofreguidão. Acabei com lágrimas nos olhos. De alegria e de comoção. Bendita a hora em que se lembraram de Monsenhor Lourenço, para o homenagear. […] Também em mim, Monsenhor deixou gravados indelevelmente pedaços de sabedoria, (a pouquinha que tenho foi somatório do tanto que daquele tempo ficou). E, como "a memória é a faculdade de esquecer", espero que em mim só se apaguem no ponto final da vida.

O Januário Pacheco, que durante muitos anos leccionou no Luxemburgo, reagiu num e-mail, enviado creio que de Lisboa:

[…] Tenho muitas saudades do Mons. Lourenço e tenho muita pena de não ter fixado muitos dos seus ditos e anedotas cheias de humor e de sabedoria, como dizes. Nas férias ia muito a casa dele. Era muito simples, acolhedor para todos os vizinhos e familiares. Estou a vê-lo sentado, a saborear o seu cachimbo, entre os seus livros desarrumados. Depois, os afazeres e a revolução fizeram esquecer o muito que o Monsenhor dizia e sabia. Foi pena.

[…] O seu modo de estar com todos, e os pequenos factos que contas no texto definem a sua personalidade melhor do que tudo. E era uma pena as novas gerações ficarem sem os conhecer. Depois de assim escritas e relembradas, vão perdurar.

Até pensei ir à Terceira também para assistir as essas homenagens. Ainda não sei se vou. Vamos ver.

De um e-mail do Nuno Álvares Vieira, que na sua aposentação lecciona no Stonehill College em Massachusetts, e de quem já citara no meu texto um e-mail anterior, retiro a seguinte passagem:

Ainda a respeito do Monsenhor, uma coisa que aprendi dele foi "a arte de se poder falar positivamente de alguém, mesmo quando não haja muito de positivo para se dizer". Sabes onde aprendi isso? Através das recensões que ele fazia de livros na Atlântida. Sem escrever nada de negativo, dava margem suficiente para o leitor se aperceber do calibre de obras de menos qualidade. Assim era a índole bondosa e carinhosa do velho Monsenhor.

O José Luis da Costa Rodrigues, antigo professor de música e maestro de coro num Liceu de Genebra, Suiça, conta:

O Mons. Lourenço interrogava um aluno. Como este não soubesse nada, a chamada consistia em perguntas do Monsenhor. O aluno levantava a cabeça para ouvir a questão, olhava para o livro, levantava a cabeça e saía com o que tinha lido. Nova pergunta mesmo procedimento. A todas as interrogações era um mergulho no livro e uma cabeça que se levantava com uma resposta ao lado. Para acabar com o manejo o Mons. pergunta ao aluno: - Sabe o que tem de comum uma galinha e um aluno que não estuda as suas lições? – Mmm... - Os dois aplicam a palavra do Salmo: De torrente in via bibet, propterea exaltabit caput. Consulta feita: último versículo do Salmo 109.

Na sua gramática inglesa o Monsenhor Lourenço alternava regras em português e regras em inglês. As primeiras destinadas aos alunos do primeiro ano de inglês eram ditas as regras para os "menores de 18 anos" (alusão à proibição de certos filmes aos menores de 18 anos). No segundo ano era abolida essa proibição; daqui em diante tínhamos acesso às regras em inglês como quem pode ver todos os filmes graúdos... 

No refeitório dos "superiores" não sei se o Padre Coelho, o Dr. Cunha, ou o Dr. Enes, um deles, tinha feito um poema que só falava em cruzes. O autor pergunta ao Monsenhor: O que pensa do meu poema? - Penso que estamos diante de um cemitério...

[…] temos todos muitas recordações do Mons. Lourenço cujo humor era contínuo mas sem ofender. 

Artur Goulart, antigo Director do Museu de Évora, bem como antigo Chefe de Redacção de A União, partilhou comigo um importante dado para se conhecer melhor o que se passou num período particularmente duro da vida cultural angrense:

[…] uma bela homenagem [a uma pessoa] de quem tenho óptimas recordações, embora o não tenha querido acompanhar n' A União quando ele foi nomeado director. Achei que me devia solidarizar com o dr. Cunha de Oliveira e, pese embora o pendor humanístico e honesto do Monsenhor, a abertura a outros ventos não se compadecia. Apesar disso, sempre tivemos excelentes relações, como professor, como colega (?), grande companheiro de bridge, de humor fino e inteligente, de inúmeras histórias dos orientes. […] Julgo que também é dele a dos "quatro reis de Israel, que eram três, Esaú e Jacob". E aquela belíssima em latim, que procurei ontem nos meus papéis e não encontrei, referente aos cónegos, e que ele contava mesmo depois de ter sido nomeado tal, que deves conhecer e que acaba por afirmar, uma vez que basta um cónego para constituir um Cabido, que "quanto menor é o número, maior é a besta". Tem piada é em latim.

Do Urbano Bettencourt, poeta e professor na Universidade dos Açores, chegou-me o seguinte:

[… o teu] contributo para o perfil de JMLourenço, uma espécie de retrato em composição avulsa ou fragmentária, que dá conta de um homem cujo mundo, aparentemente, não era daquele reino sorumbático e pesadão do Seminário. O teu elenco é bastante vasto, afinal tiveste-o como professor em três disciplinas. Só o tive em Inglês, para mais naquela idade idiota dos 13-15 anos, mas lendo o teu texto lembrei-me de dois comentários dele. O primeiro possivelmente terá ocorrido também contigo, pois deves ter estudado Inglês pelo mesmo livro ...azul : quando estudávamos o humor de Three men in a boat, de Jerome K. Jerome, ele "dava-se ao trabalho" de traduzir para português... o nome do autor, Jerónimo Kapa Jerónimo, acrescentando logo: quem capa um capa dois.

Numa aula em que andávamos a contas com o "My bonnie is over the ocean / My bonnie is over the sea", um dos meus colegas, já não sei qual,  foi encarregado de ler e talvez levado pela pronúncia de "ocean" foi no balanço e, em vez de "over the sea", leu "over the she". Comentário imediato de Monsenhor Lourenço: "Ora, ora, em cima dela não!"

Tanto um como outro comentário eram coisas altamente improváveis de serem ditas numa aula "eclesiástica" naquela primeira metade dos anos 60. Mas acho que me têm servido também de modelo para algumas "quebras" inesperadas no ambiente das aulas.

João Esaú Dinis, que foi Director da Escola Superior de Tecnologia de Saúde de Lisboa, acrescentou esta estória:

Dele retive o caso de, no Concílio de Mâcon, se ter discutido, duvidado ou, pior, afirmado que as mulheres não teriam alma. Face ao desconforto da história, lá foi [o Monsenhor] explicando: “Pois, os padres da Igreja, num intervalo das sessões, enquanto passeavam para trás e para a frente, pelos corredores, terão comentado entre si do seguinte modo: “Pela maneira como tentam o homem, até parece que as mulheres não têm alma como nós”.

E com tal amenidade, parecia incólume a infalibilidade conciliar.

De Brampton, Canadá, o Eduardo San-Bento Couto, depois de um e-mail apressado, enviou-me no dia seguinte um outro, comovente, em que acrescenta mais algumas estórias pessoais, de diálogos tidos com o Monsenhor Lourenço:

Ontem, a compreensão foi resultado de velocidade de leitura; hoje, foi de meditação. Chorei sem querer, tal a realidade presente dos ditos e situações. Embora tu e eu não compartilhássemos da maioria das aulas com Mons. Lourenço, revi-me em quase tudo o que testemunhaste.

Mas, porque penso que este é o tempo oportuno, ou nunca o será, aqui vão alguns aspectos do Monsenhor, os quais me tocaram e sobre os quais, como tu, ainda reflicto frequentemente:

1.         O seu pasmo perante a pluralidade e relatividades das religiões.

Visitei o Oriente pela primeira vez em 1972; ainda estava bem viva em mim a experiência das vivências de Mons. por aquelas paragens. E então percebi o significado da sua luta romana monolítica perante o monolitismo hindu e budista, e respectivo pragmatismo.

Assim me respondera Mons. com seu algo de sarcasmo perante a minha procura gélida da veracidade:

«Senhor Couto, o baptismo não faz mal a ninguém do mesmo modo como não faz mal o banho da vaca santa ou a refeição nirvânica da última hora» ; respeitar as três visões é um investimento seguro sem consequências negativas».

Aquilo escandalizou-me, embora no fundo tivesse gostado muito da resposta.

                        2. O seu entendimento profundo dos símbolos religiosos. Repara nesta:

«Senhor Couto, o que é mais fácil de aceitar? Comer e beber Deus ou lavar-me na urina de uma vaca? A última é muito mais simples e menos horripilante».

                        3. O cuidado com que lidava com excepções. (Método científico aplicado à pedagogia).

Como eu nunca senti que tivesse liberdade de ter notas baixas, lá ia tentando também exceder-me no inglês.

Nota frequente do Mons. no papel dos 'exercícios': «17 valores. Tudo certo. Deves ter copiado.»

No princípio, eu ripostava; mas Mons. respondia-me: «Não ligues a isso; 17 significa tudo certo; e se copiaste, tanto melhor para ti».

Outros teriam aberto um inquérito...

Onésimo, desculpa-me o arrazoado. Mas és o culpado porque me fizeste reviver coisas bonitas em fim de ano.

Vários outros e-mails me chegaram dos mais diversos pontos do globo. Recordo, com receio de esquecer nomes, os de Manuel Quaresma (professor na Catholic University of America, Washington, DC ), Olegário Paz (que durante décadas leccionou em Lisboa), António da Silva Cordeiro (antigo professor no Seminário, há décadas residente em New Jersey, EUA), Octávio Ribeiro de Medeiros (Vigário Episcopal e professor na Universidade dos Açores), Gualter Dâmaso (da Açortravel), José Gabriel Ávila  (ex-RTP-Açores e bloguista), todos em Ponta Delgada, e Afonso Carlos Rocha (Reims, França) . O jorgense José Manuel Melo (gerente bancário aposentado, também em Ponta Delgada), evocou o seu “antigo e sempre recordado professor”, acrescentando que numa festa de S. Tomás de Aquino foi declamador de um poema de Mons. Machado Lourenço – “’Ao Anjo das Escolas’ – escrito de pronto para o acontecimento” . De Toronto, o José Carlos Rodrigues, advogado e antigo maestro do Orfeão Edmundo Oliveira, de Ponta Delgada, fez também uma emocionada evocação de J. Machado Lourenço num e-mail que por acidente perdi.  De Oakland, Califórnia, uma  carta do Fr. Joe Ferreira refere a memória benquista do saudoso Mons. Lourenço, de quem guardo as melhores recordações, sobretudo pelo incentivo que me dispensou nas minhas inclinações jornalísticas”.

Um autêntico gentleman, bondoso e com um fino senso de humor. Tive sempre por ele a mais profunda admiração.

Na sequência da longa conversa com o Heriberto Brasil, pedi-lhe que passasse à escrita as estórias que me contou. Fez o favor de aceder ao meu pedido e, de um e-mail seu, seu extraio as que se seguem:

Quando Monsenhor Lourenço chegava à sala de aula, após a oração inicial (Hail Mary, full of grace…), ia-se sentando vagarosamente. Era o momento esperado ansiosamente pela turma porque, geralmente, saía estória ou dito humorístico. 

As estórias ou ditos que se se seguem foram contados por ele no início de algumas aulas.

Certa vez, estavam Monsenhor Lourenço e o Sr. Cónego Jeremias Simões a pescar no porto das Cinco Ribeiras. Nisto, o Sr. Cónego Jeremias sente uma “ferrada” no anzol e levanta o caniço com tanta violência que o peixinho, que vinha mal preso, desprendeu-se e caiu ao mar.

O Sr. Cónego Jeremias, entre o entusiasmo e a frustração, volta-se para o Monsenhor Lourenço e exclama:

- Viu! Viu!

Ao que o Monsenhor respondeu:

- Vi, vi, o seu caniço vir sem nada para cima!

O Cónego Jeremias não achou piada nenhuma, enquanto o Monsenhor se fartava de rir.

Depois que o Senhor Padre Roberto, pároco de Santa Bárbara, herdou (de forma considerada um tanto ou quanto manhosa) os bens do Senhor Padre Joaquim, pároco de São Bartolomeu – caso que estava sendo muito comentado – Monsenhor Lourenço despeja esta, com um sorrisinho de malícia:

- Ora, ora. O Pe. Roberto herdou o Pe. Joaquim. Mas a mim na’m’herda [nada]!

Certo dia, após o momento de humor inicial, levámos muito tempo para serenar e estávamos a pisar o risco.

Logo o Monsenhor Lourenço admoestou:

- Ora, ora. Eu gosto de contar estas coisas para criar um ambiente alegre. Mas depois quero toda a gente em silêncio e com atenção. Porque eu já tenho dito que dou um nove a rir, um oito a rir muito e um sete a chorar de rir.

Numa certa aula, dissertando sobre o comportamento que devíamos ter quando fôssemos padres, afirmou:

- Sim, porque havia um indivíduo que costumava dizer: “Há uma classe de pessoas que só merece pancadas. É a classe que usa saias – mulheres e padres”.

E acrescentou:

- E olhem que tinha certa razão!

Uma das estórias que contou, do seu inesquecível Oriente, foi esta:

- Eu fui acompanhar o Dom José da Costa Nunes, como secretário dele, numa das suas visitas a uma diocese sufragânea de Goa. Como estava um calor insuportável, o Dom José não levava calças por debaixo da batina. Íamos numa carroça. De repente, o cavalo dá uma guinada e o Dom José cai de costas, no fundo da carroça, ficando a espernear, sem calças.

E ria muito, recordando o ridículo da situação.

O Padre Cipriano Franco lembrava-se de uma narrativa que o Monsenhor fizera do naufrágio de um barco em que viajava. A grande maioria dos passageiros saltou para a água, mas José Machado Lourenço não. E justificava-se:

- Se hei-de ir acabar na água, ela que venha ter comigo!

O Carlos Joaquim Fagundes, há décadas a leccionar no Norte de Portugal (Paredes), enviou-me um longo e-mail com estórias adicionais, que alguma delas indesculpavelmente eu omitira. Ele escreve:

Recordo-me praticamente de tudo o que referes na tua alocução, excepto daquele do D. Pedro V, em que sou protagonista. Lembro-me sim uma aula de História da Igreja, em que ele abordou o papado de Alexandre VI. Eu lera na Biblioteca (infelizmente ia lá poucas vezes, mas para tal também não era motivado), algo sobre esse período, e perguntei-lhe: - Monsenhor, não nos vai falar do “Baile das Castanhas”? Ele sorriu muito simpaticamente, como era seu hábito e respondeu: - Bem, isso fica para a aula de Ballet. – e continuou a lição.

Entre os célebres silogismos dele, lembro-me de um outro que não referes: “A água mata a sede; o peixe salgado tem água, logo… o peixe salgado mata a sede.”

Era também muito frequente nele, perante qualquer postulado não aceitável, a expressão “ ou isto ou aquilo é assim ou então a lógica é uma batata”. Frequentemente, perante uma negativa que alguém tinha ou por outra qualquer contrariedade que lhe era referida, ele tentava acalmar o sofredor, com este dito: - “A meu pai nunca morreu nenhuma vaca. Ele não as tinha.”

Uma questão de “alta metafísica” que ele levantava muitas vezes, era a do “ovo”: - “Uma galinha põe um ovo no Pico. O ovo vem para a Terceira onde nasce o pinto. Donde é natural o pinto?  Do Pico ou da Terceira? Creio que se referia a isto porque ele próprio ou alguém da família dele fora concebido no Pico e nascera na Terceira.

Deves recordar-te de um outro episódio muito interessante. Antes da aula começar, ficávamos todos em pé. Ele rezava, em Inglês, a Ave Maria e nós, em coro, retorquíamos com a Santa Maria, também em Inglês. No fim ele dizia: Mother of God. Nós respondíamos: -  Pray for us. Só então o Monsenhor dizia: Sit down, please! e nós sentávamo-nos de imediato. Certo dia, o Monsenhor esqueceu-se da invocação à Mãe de Deus e, a seguir à Ave-Maria, disse Sit down, please! Todos nós permanecemos em silêncio, excepto o José Maria Bettencourt, que estava distraído e muito convicto, retorquiu: - Pray for us. - Amen. – respondeu Monsenhor com uma tranquilidade e uma simpatia desusadas.

Também me lembro que contava muitas histórias do padre Himalaia, das suas experiências e invenções. Numa outra aula alguém estava a mascar chiclet. O Monsenhor muito sério e sempre a olhar para o livro assim que teve oportunidade, com voz indecisa como quem não sabia ler: - “… mascando… mascaaaaannnnnndo… Ah! Mas quando….” (e continuou serenamente a leitura).

Certo dia saiu-se com esta: - O sacristão da minha freguesia tem ideias muito avançadas sobre a Eucaristia.” Alguém lhe perguntou “porquê” e o Monsenhor respondeu: - Então não é que o outro dia eu ia celebrar missa e tinha-se acabado o vinho. Eu perguntei-lhe: - Então e agora? Como vai ser? Ao que ele respondeu: - Não há problema. Vou ali ao botequim do Mendes e trago-lhe um copo de bagaço.”

Era de facto uma simpatia e confesso que tive sempre uma enorme admiração por ele, sobretudo pela sua cultura e pelos seus dotes literários.

 

No final da sessão no IAC, o Padre João de Brito Carmo, que tem dedicado tanto do seu tempo ao estudo do folclore terceirense, lembrou-me uma história que se tornara, aliás, proverbial entre nós. Numa aula de inglês, o Monsenhor fazia exercícios de retroversão com os alunos do seu curso. Pediu então ao hoje Padre José Constância que traduzisse para inglês a frase: Eu amo-o. O Constância avançou: I love… mas, titubeante, estacou. O Monsenhor insistiu no complemento directo: Eu amo-O! E o Constância: I love… you.

O Monsenhor: - A mim não que já estou muito velho!

 

No referido encontro em Ponta Delgada, o José Adriano Borges Carvalho, advogado na Praia da Vitória, recordou uma que também se tornou famosa. Era comum o Monsenhor pedir que enunciássemos os verbos, sobretudo os irregulares: - To be? - To be - was - been. - To do? - To do - did – done. - To go? -  To go - went - gone. - To set? - To set - set - set. De uma vez, voltou-se para um aluno e pediu-lhe a enunciação do verbo to put. O aluno, reflectindo a nossa dificuldade em pronunciar o u suave, exagerou e pronunciou algo como To pât – pât –pât. 

O Monsenhor corrigiu:  - Não tenha medo de dizer put, que em inglês não quer dizer nada!

O José Francisco Costa, professor no Bristol Community College, em Fall River, onde dirige o LusoCentro, recordou a hilariante cena do Monsenhor Lourenço numa aula em que lhe vimos sair fumo do peito. Tinha posto na algibeira do casaco o cachimbo, seu companheiro habitual, mas sem estar completamente apagado. O José Costa fez entretanto acompanhar a evocação desse divertido episódio de um poema que aproveitarei para fechar este memorial como mandam as regras – isto é, com chave de ouro -, se bem que naturalmente ainda muitas outras lembranças e estórias vão surgir à medida que esta homenagem for chegando ao conhecimento de outros antigos alunos . Eis então o poema:

 

Naquele meu tempo, “Monsenhor”

só rimava com “Lourenço”.

Sábio. Terno. Avô universal,

a mim em tanto tão igual

que até fumava de um cachimbo que, um dia,

em plena aula, se reacendeu por dentro do casaco…

E ficou-me, indelével imagem,

um rosto de serenidade,

perfil de natureza humilde,

olhar inclinado entre a terra e o céu.

Sem pressa para viver mais,

ou acabar os dias mais cedo.

Monsenhor Lourenço, mestre

de quem aprendi a maior lição:

saborear a memória dos que me ensinam a vida.

 

(Em “Matinas”, depois de ler as “Laudes” do Onésimo)

           

                                                                       Onésimo Teotónio Almeida

                                                           Providence, Rhode Island 31 de Dezembro de 2008

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publicado por picodavigia2 às 09:58





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