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O DESCANSADOURO DO BATEL

Domingo, 29.12.13

O descansadouro do Batel era, de todos os descansadouros existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, o que se situava num local de maior beleza e de mais plena graciosidade. Na realidade do local onde aquele descansadouro se situava, desfrutava-se de uma das mais belas vistas sobre a Fajã Grande, dado que se encastoava num lugar alto, sobranceiro ao Alagoeiro, a grande parte da freguesia, ao mar e a toda a orla marítima e ainda a uma grande parte da zona além do povoado, desde a Ribeira das Casas até à Rocha da Ponta e à das Covas. Tinha pois o descansadouro do Batel um posicionamento privilegiado, invejável, uma colocação, paisagisticamente, fabulosa, perfilando-se altivo e ufano, sobre quase toda a área da Fajã Grande, com a rocha escabrosa e imponente a servir-lhe de tapume e protecção, com o Monchique e a Baixa Rasa, lá ao fundo, no alto mar e com a extraordinária e rendilhada orla costeira, onde proliferavam baías, caneiros e enseadas, desenhados sobre o baixio negro e lávico, com rendilhados de todas as formas e feitios, transformando-o numa espécie de ex-libris de todos os descansadouro fajãgrandenses.  

Este descansadouro situava-se no cimo da ladeira do Batel, no cruzamento com uma canada que ligava o Batel à Bandeja, num sítio de relvas e de algumas terras de cultivo de milho, de forrageiras e de batata-doce, o que, consequentemente, não dificultava nem obstruía a possibilidade de quem ali se sentasse para descansar, para conversar, para fumar um cigarro, desfruísse da paisagem de sonho e de magia que dali era possível observar.

Na realidade, estrategicamente bem localizado, no alto de uma encosta, no cimo duma ladeira e num sítio bastante alto e largo, onde se iniciava uma canada que dava para a Bandeja, o descansadouro do Batel fora edificado pelos nossos antepassados, sabia-se lá há quantos anos. Mas tratava-se de um descansadouro maravilhosamente belo, enigmático, um espaço rectangular, apenas com uma parede a Sul, junto à qual havia sido construída, através dos tempos, uma ampla bancada feita de pedras soltas, encostadas e encavalitadas umas nas outras. Os homens que ali se sentavam a descansar, quando carregados com molhos, cestos ou sacos, colocavam-nos sobre as paredes do caminho circundante, precisamente do lado em frente ao do descansadouro. Muitos, porém, colocavam os seus carregamentos sobre a própria parede que servia de abrigo ao descansadouro. No entanto, se o vento soprasse de Norte ou de Oeste era praticamente impossível utilizar aquele local para descansar.

O descansadouro do Batel servia os homens que vinham de todas as terras do Sul, na direcção do Alagoeiro e da Fontinha, nomeadamente, Lavadouros, Alagoinha, Mateus Pires. Paus Brancos, Pico Agudo, Pocestinho, Escada Mar e ainda os que vinham da Rocha dos Paus Brancos e do cabeço da Rocha.

Como praticamente todos os outros descansadouros da Fajã, este, actualmente, também se perdeu no tempo e talvez mesmo nas memórias. Dada a sua especificidade e, sobretudo, tendo em conta a vista de que usufruía, poderia muito bem ter sido preservado ou recuperado, mantendo-se, assim, como uma espécie de miradouro, mas também e sobretudo, como testemunho vivo e verdadeiro dos trabalhos, das canseiras, dos carregamentos, dos sacrifícios de todos os nossos antepassados que outrora ali se sentavam a descansar, a conversar, a fumar e, quando tinham disposição e o cansaço lhes permitia, a observar a vista maravilhosa que dali realmente ainda hoje se desfruta.

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publicado por picodavigia2 às 11:02





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