Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



FESTA DA ASSUNÇÃO EM SÃO CAETANO DO PICO

Domingo, 29.12.13

Com o mar a estender-se-lhe em frente e a assumir-se como tapete natural, de um azul aveludado, tingido de bruma e, aqui e além, a salpicar-se de espuma e maresia, e com a montanha atrás, como baluarte de sonhos, de emoções mas também como enigma duma rusticidade evolutiva e retumbante, a freguesia de São Caetano já mais se esquiva à celebração do 15 de Agosto – A Senhora da Assunção. É verdade que a confirmar-se o dogma, estabelecido para clarear o mistério, a Senhora que se assumiu ao Céu em corpo e alma não se arroga, na sua plenitude aparentemente mais convencional, o estatuto de padroeira, que o orago da freguesia desde os primórdios do povoamento da ilha e por influência de colonos italianos, foi, incondicionalmente, atribuído ao Santo que lhe deu nome. Na verdade é crença comum, talvez com ornamentos lendários, que os primeiros colonizadores desta zona situada numa das maiores baías do Sul do Pico, seriam muito devotos de São Caetano, sacerdote de Vicenza, Itália, pelo que o elegeram como padroeiro da localidade, dando, mais tarde, nome à freguesia. Mas com o rodar do tempo e o passar dos séculos, com imposições não litúrgicas e muito menos não teológicas, a festividade da Senhora da Assunção sobrepôs-se à de São Caetano, apagando-a, enfraquecendo-a, quase mesmo a eclipsá-la, ombreando, no entanto, lado a lado com a do Espirito Santo, esta aureolada com costumes e tradições ancestrais, muito sui géneris, e acabou por tornar-se uma espécie de “ex-libris” da freguesia, uma jactância paradigmática e fulgurante, um folguedo religioso, mas amedrontado e retumbante, a marulhar num quotidiano estático e quiescente, em que a freguesia se enraizou e onde floresce.

E a festa mais uma vez desabrocha, na sua simplicidade genuína e pura, sem grandes euforias ou alaridos, anunciada pelos toques tímidos e hesitantes dos sinos. É a festa constituir-se numa espécie de solenidade não solene, causticada, este ano, por intempéries climatéricas, ventos e chuvas que cerceiam o giro habitual da procissão e impedem a “Recreio dos Pastores de São João” de atirar aos quatro ventos os seus acordes, devidamente ensaiados e preparados. Com ela vai-se uma parte do povo, os menos fiéis, os pouco arreigados em costumes e tradições

A chuva tem o condão de alegrar os campos ressequidos mas também de reduzir o percurso processional e alagar os santos, a isto puco habituados. É o descalabro festivo, o desmoronar-se de um projecto, é verdade que ocasional e pouco duradouro, mas emoldurado no sonho sombrio e constante, mas mais uma vez frustrado, de se fazer este ano mais e melhor do que no ano transacto. Acresce à frustração do extermínio festivo, a despedida do pároco – Paulo Areias - que agora se vai entrincheirar em acções pastorais, em terras distantes, no norte da Alemanha, paredes meias com a Bélgica. A substituição implicará, no mínimo, “dois ramos de flores”. E havia de acontecer logo em plena crise.

E no silêncio de uma tarde sem acordes musicais, apenas os choros infantis do Samuel ao sentir sobre a nuca a gélida água lustral ecoaram pelas encostas da montanha silenciosa e coberta de um nevoeiro peçonhento e incomodativo, quebraram o estigma da desolação. O próprio reboliço das favas, dos caranguejos, das bifanas de albacora a solicitarem o sabor do mosto já fermentado de um tinto nascido de entre estas pedras negras e perfumado com o enxofre deste magma basáltico, num cubículo para tal talhado, ali ao lado, se perde entre lamentos de deslumbramento e frustração:

- Este tempo deu-nos cabo da festa!

- Não admira, aqui em São Caetano e por todo o Pico, Agosto é o primeiro mês do Inverno!

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 15/08/12

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 14:34





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031