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RECORDANDO EMÍLIO PORTO

Domingo, 29.12.13

Todos os que lidaram de perto com ele, sobretudo nos últimos tempos, de certo que ainda se sentem atordoados com o seu repentino desaparecimento, com a sua morte súbita e inesperada. Emílio Porto faleceu, no passado dia doze, durante um ensaio do Grupo Coral das Lajes do Pico, por ele fundado em 1983, e do qual sempre foi maestro e o principal responsável pela organização de todas as suas actividades musicais. A sua morte deixou na maior apreensão e nostalgia a família, os seus amigos mais próximos e todos aqueles que, de perto ou de longe, com ele conviveram e trabalharam.

Conheci o Emílio Porto, quando em Setembro de 1960, demandei, pela primeira vez, o Seminário de Angra. Recordo-me de o ver assomar à janela do seu quarto, voltada para os “miúdos”, sempre sério e pensativo, a descer os degraus dos teólogos, a correr para a sala seis, a fim de chegar a tempo à aula de Teologia, a jogar voleibol no campo junto à cozinha, a percorrer as ruas de Angra, com passagem pelo pátio da Alfândega e, sobretudo, a reger, com mestria, elegância e emoção, a capela do Seminário. Frequentava o décimo primeiro ano e eu, o terceiro. As normas de um regulamento interno, rígido e rigoroso, impediam a comunicação diária entre os alunos das três prefeituras, quebrada apenas, nas manhãs de Natal, nos dias de Festa, nos ensaios do orfeão e pouco mais. Não era de muitas falas, nem se metia em graçolas ou brincadeiras com os mais pequenos. Tinha, no entanto, um ar alegre, prazenteiro, solene, digno, concentrado e trabalhador, revelando já dotes extraordinários e inexauríveis, a nível da formação musical.

Anos mais tarde, embora em tempos diferentes, cruzei-me com ele em São Caetano do Pico, substituindo-o, nas inúmeras actividades em que ele ali se envolvera e a que procurei dar continuidade e prosseguimento. Em São Caetano do Pico, Emílio Porto, para além de granjear o respeito, a consideração e a estima de toda a população, deixou uma obra notável. Dedicado à juventude, que acompanhava em todas as actividades e com quem se envolvia em todos os acontecimentos, com destaque especial para a música e também para o teatro, Emílio Porto fundou o boletim paroquial “Presença”, criou o Grupo Desportivo de São Caetano, tendo adquirido o terreno e construído dois campos para a prática do futebol, um nos Cabeços e outro na Terra do Pão, reestruturou a Tuna Musical da Terra do Pão, um e outro destinados sobretudo à ocupação dos jovens, renovou o Grupo Coral, e adequou as celebrações litúrgicas, de forma brilhante e digna, às reformas protagonizadas pelo Concílio Vaticano II. Dedicou os seus anos de trabalho naquela freguesia, ao serviço da comunidade e dos outros, nomeadamente, dos velhos, dos doentes e dos jovens. Se algo descuidou, foi em prol de si próprio, porquanto viveu, durante quatro anos, acompanhado familiares, em precárias e degradadas condições de habitabilidade.    

Mais tarde serviu o exército português no ultramar, durante a guerra colonial, realizando duas comissões de serviço em Angola. A forma como o fez, estabelecendo a amizade como estandarte da guerra e a verdade como lema de vida, granjeou-lhe o respeito, a consideração e a estima de quantos com ele conviveram. A atestá-lo os variadíssimos testemunhos de quantos acompanhou naquelas missões e os encontros regulares que, passados quarenta anos, ainda mantinha com os seus camaradas de guerra.

A partir de então, perdi-lhe as pegadas. Sei, no entanto, que, quer como homem, quer como cidadão ou professor e ate como político, teve sempre um comportamento digno, nobre e exemplar, pautado por um empenhamento honesto, por uma competência fluente, por uma dignidade desmedida e por uma humildade transparente, que nem o Grau de Comendador, com que foi agraciado pelo presidente Jorge Sampaio em 2008, nem a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico que a Assembleia Regional dos Açores lhe atribuiu, haviam de desfazer.

Quis o destino que nos reencontrássemos, há uns anos, no Mucifal. A partir de, então, restabelecemos uma amizade recíproca, íntima, sã e enternecedora, a nível individual e familiar. Não apenas em encontros frequentes, que agora podíamos fruir, mas também no “Alto dos Cedros” e no “Pico da Vigia”, dia após dia, íamos fazendo deslizar memórias de um passado que, afinal, tinha muito em comum.

Na madrugada do passado dia doze, fui fulminado, com a notícia empírica e real da sua morte. Emílio Porto falecera na véspera, durante um ensaio do seu Grupo Coral. Nesse dia, algumas horas antes, havíamos conversado e programado a sua visita ao Norte do país e que ele próprio já anunciara através da Internet. Na noite do dia seguinte, eu havia de o ir esperar à estação de Campanhã, no Porto.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 23/04/12

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