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DEZ CENTAVOS

Terça-feira, 31.12.13

Era o último dia do ano. Álvaro passara a manhã excitadíssimo à espera de que a tarde chegasse depressa, a fim de ensaiar o que haviam de cantar durante a tarde do dia de Ano Bom. Na véspera, depois de um chorrilho de pedidos, corroborados com inúmeras juras e variadíssimas promessas, o pai cedera. Havia de o deixar ir, pela primeira vez, cantar os “Anos Bons”. É verdade que era impossível entrar nos ranchos dos maiores e que não era fácil ser aceite nos dos mais novos, mas o José Nunes, seu amigo desde há muito, era o chefe de um dos ranchos dos mais pequenos e havia prometido aceitá-lo. Mais, havia já combinado que a tarde do último dia do ano era para ensaios, na sua loja.

Jantou à pressa, apesar dos lamentos da mãe e dos protestos dos irmãos mais velhos que não cessassem de recriminar, atirando-lhe à cara que ninguém queria um badameco daqueles num rancho, vestiu uma froca de angrim que o frio do Inverno não estava para brincadeiras e, pés descalços e mãos a abanar, saiu em louca correria pela porta da cozinha. Para além do Fitas já lá estavam o José Henriques, o Heitor e o Luís. O António Jorge chegou mais tarde e, logo depois o Narciso, novato como ele. Muitas outras vezes ali se haviam reunido, sobretudo nas tardes de chuva, para outras flostrias e brincadeiras. A mãe do Nunes era condescendente e, como não o queria longe de casa, permitia que se acomodassem por ali, pese embora o barulho, a desarrumação, a barafunda e zaragata em que o grupo era pródigo.

O ensaio correu com grande dignidade, concentração e perfeccionismo. O resultado era excelente: cantavam que nem uma cotovia e tocavam que nem a música da Caveira. O Nunes na gaita, o Heitor nos ferrinhos e o Luís no tambor.

Regressou a casa ao lusco-fusco. A noite pareceu-lhe infinita, a manhã quase infindável e a missa nunca mais acabava. Finalmente chegou a tarde. A mãe autorizou-o a que levasse a melhor roupa, “a da missa” e fosse calçado com os sapatos de pele cabra.

Iniciaram a peregrinação pelo cimo da Assomada. Parecia vinha vindimada! Um dos ranchos dos maiores já por ali passara e iam “às casas melhores” às que “davam mais”. Mas começaram a juntar algum. Dez centavos daqui, vinte dacolá e alguns figos passados ou meio cálice de licor, caseiro, “fraquinho”. Chegaram à Praça com noventa centavos na bolsa que o António Jorge ia segurando. A Fontinha deu menos. Moedas brancas apenas duas de cinquenta centavos, na rua Direita. Uma na casa do Senhor Padre outra na da Senhora Dias. A Tronqueira e a Via d’Água consubstanciaram negas contínuas – pouco deram. Ávidos, foram contar o dinheiro para o adro da igreja, atrás da sineira. Três escudos e sessenta centavos. Agora era só dividir por sete. Muito fácil. “Cinquenta centavos a cada um”. – Concluiu o Heitor. Os dez excedentes ficavam para o Nunes que acumulara as funções de chefe, de organizador e de tocador de gaita. Além disso cedera as instalações para os ensaios. Era mais que justo!

Álvaro regressou a casa, felicíssimo. Sentia-se o homem mais rico do mundo. Uma moeda de vinte centavos e três de dez. Abriu a porta num ápice, aproximou-se da mãe que se entretinha a remendar umas calças do pai. Estendeu-lhe a mão que seguravam as quatro moedinhas e exclamou:

 - Veja mãe, o que eu ganhei. Olhe, são para si! Todas para si.

A mãe levantou a cabeça do trabalho, olhou de soslaio, sorriu e beijou-o. Depois, num misto de transtorno e inquietação, pegou nas moedinhas deixando-lhe na mão uma de dez centavos.

Expressando no rosto mais alegria, por saber o que poderiam representar para ela os quarenta centavos, Álvaro apressou-se a abrir uma das gavetas da cómoda da sala, de onde tirou uma pequena carteira e onde introduziu a moeda que a mãe lhe devolvera - dez centavos. Cuidava que com ela, em Setembro, havia de comprar um chocolate, na festa da “Senhora da Saúde”.

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publicado por picodavigia2 às 10:05





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