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CANTAR “OS ANOS BONS”

Quarta-feira, 01.01.14

Na década de cinquenta, todos anos, alguns grupos de crianças percorriam todas as ruas da Fajã Grande, no primeiro dia do ano, com o objectivo de cantar “Os Anos Bons”, junto das portas de quase todas as casas, excepção das que estavam de luto ou tinham algum enfermo em estado grave. Estes grupos organizavam-se alguns dias antes e tinham como principal critério de formação, a idade. Os mais velhos formavam grupos entre si e os mais novos procediam da mesma maneira. Em todos os grupos havia um chefe ou líder que tinham como funções principais formar, preparar e liderar o grupo e ainda a de receber o dinheiro e no fim o dividir equitativamente por todos os membros. No dia de Ano Novo lá iam pelas portas das casas, tocando gaita, ferrinhos e cantando, a fim de que a dona da casa desse uma moedita, um copinho de licor ou um punhadito de figos passados.

Sempre integrei o grupo dos mais novos que alguns anos depois se desfez, sobretudo porque a maior parte abandonou a ilha com destino à América e ao Canadá. Recordo-me que o líder do meu grupo era o José Nunes, que morava na Fontinha, perto da casa da minha avó e tocava muito bem gaita. Era na loja dele que ensaiávamos e era lá também que terminado o périplo pela freguesia nos juntávamos para contar e dividir o dinheiro, sempre com grande rigor e sem trafulhices ou batota, Faziam parte do grupo para além do José Nunes e de mim, o Heitor, o José do Urbano, o José Tobias, o Antonino Lourenço e o José Gabriel.

Chegados juntos da casa cantávamos a primeira quadra desejando aos donos Bom Anos:

 

Anos Bons e tão Bons Anos,

Deus vos dê de melhorados,

Tudo isto passou Cristo

Perdoai nossos pecados.

 

Ó senhora dona da casa

Raminho da salsa crua

Lá aos pés da sua cama

Nasce o Sol e põe-se a Lua

 

         Se a porta se abria logo, sinal de que nos haviam de dar alguma coisa, cantava-se esta quadra:

 

A senhora Mariquinhas

Assentada na cadeira

Parece um botão de rosa

Apanhado na roseira.

 

         Se a porta demorava em abrir-se ou nem sequer se abria, sabendo nós que a dona estava em casa, cantavam-se estas:

 

Ò Senhora Mariquinhas

Meu raminho de tremoço

Venha-nos abrir a porta

Se não canto até ao’almoço.

 

Ò Senhora Mariquinhas

Coração de pedra dura,

Venha-nos abrir aporta

Estou co’a mão na fechadura.

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publicado por picodavigia2 às 11:05





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