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O MITO DE ALVALADE OU A RAZÃO DE O RIO SADO CORRER DE SUL PARA NORTE

Domingo, 05.01.14

 Os romanos chamaram-lhe Calipus, os árabes Xâter e os portugueses Sado. Nasce na serra do Caldeirão, passa ao lado de Ourique, correndo para oeste, na direcção do mar. Ao chegar à vila de Alvalade, porém, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

A explicação desta suposta irregularidade fluvial, poderá justificar-se assim. Segundo um mito pre-Abbevilense, Eros, filho de Erebo e da Noite, força suprema, invisível e omnipotente, elemento primordial do universo, ter-se-á, certo dia, envolvido de ternuras e amores com Afrodite, atraiçoando Caos, sua natural e originária companheira, dona e senhora do espaço sobrenatural e infinito. Desta adúltera relação nasceu Saláceo.

Para proteger o filho das iras de Caos, Eros e Afrodite esconderam Saláceo num bosque, situado numa pequena serra alentejana, precisamente naquela que hoje é denominada por serra do Caldeirão. Caos, no entanto, descobriu o embuste. Furiosa, quis vingar-se. Para isso procurou o ilegítimo rebento, escondido nos barrocais e contrafortes do Caldeirão, transformando-o num pequeno e ténue fiozinho de água, que, brotando daquela serra, começou a correr, lenta e vagarosamente, ao longo da enorme planície alentejana, dirigindo-se para o Oceano, onde seria totalmente destruído e desfeito, para desespero dos seus progenitores.

E o jovem Saláceo, alheado das intenções malévolas de Caos, iniciou, alegremente, o seu percurso a caminho do mar, descendo encostas e barrocais, perdendo-se entre florestas e barrancos, atravessando campinas e prados, seguindo o destino que, maquiavelicamente, lhe fora imposto: caminhar em direcção à sua própria destruição.

Porém., ao chegar à enorme planície que hoje abrange as terras de Alvalade, surgiu-lhe a caminho o jovem Aladde, filho do Oceano e duma Nuvem, disposto a salvá-lo, impedindo-o de continuar, o caminho para o Oceano e, consequentemente, para a sua própria destruição.

Os ódios de Caos, porém, voltaram a acender-se e a incendiar-se. Os dias tornaram-se escuros e as noites trevas contínuas e, sobre a face da terra começaram a cair, incessantemente, durante quarenta dias e quarenta noites, chuvas diluvianas, que encheram os lagos e fizeram transbordar os rios. As águas do Oceano também se revoltaram e, transformando-se em ondas gigantescas, mais altas do que árvores e maiores do que montanhas, ameaçavam, impiedosamente, galgar e destruir a Terra. Estas ondas, acompanhadas de tumultos estrondosos e do ribombar de trovões, invadiram a Terra, na ânsia de a engolir, desfazendo-se e misturando-se à restante água que cobria a outra parte da superfície terrestre, em horrível tremedal. O Oceano transformou-se, assim, num terror infinito e a terra foi condenada a uma destruição total.

Mas Eros não desistiu e voltou a tentar salvar Saláceo das iras ameaçadoras de Caos. Para isso, chamou Aladde, que vivia desesperado. Eros atribuiu-lhe a incumbência de ordenar, acalmar e a apaziguar todas as águas existentes sobre superfície da terra alentejana – dos lagos, dos rios e das fontes - permitindo assim que a calma e a tranquilidade voltassem à superfície da Terra e Saláceo fosse salvo.

Aladde bem tentava pôr termo a estes horrores e a estas ondas destruidoras, ignorando o destino da enorme planície, agora transformada em medonho escarcéu, quase condenada à destruição, mas sentia-se impotente para dominar aquelas forças que destruiriam tudo, incluindo o jovem Saláceo. Para o ajudar, Eros voltou, mais uma vez à Terra, trazendo-lhe Alba, a mais bela, a mais brilhante e a mais poderosa estrela do firmamento, por quem Aladde, de imediato, se apaixonou. Alba brilhava no universo infinito, com uma intensidade invulgar e um poder extraordinário, desafiando os próprios deuses, que temiam a sua luminosidade e grandeza. Quando se aproximou de Aladde este solicitou-lhe auxílio e socorro para quantos se viam vítimas daquelas catastróficas enxurradas.

A estrela condoeu-se de quantos sofriam as iras infinitas de Caos. E regressando ao firmamento, voltou, pouco depois, montada em nédia hacaneia, acompanhada de um enorme séquito, onde pontificavam carros de fogo, puxados por escorpiões e protegidos por gerifaltes, transportando miríades de gigantes. Lançando o seu brilhante e luminoso poder sobre todas as águas, tanto as que cobriam a superfície da Terra, como as que emergiam do Oceano, expulsou-as da extensa planície. Depois, fazendo descer os gigantes dos carros de fogo, construiu, para defesa e protecção da grande planície, um enorme e alto muro, que mais tarde se transformou em montanha, de que a actual serra do Cercal é um resíduo.

Mas o pobre e ainda frágil Saláceo, apesar de salvo das águas diluvianas e daquele medonho escarcéu, devido à construção de tão imponente montanha, ficou totalmente impedido de seguir o seu lento e vagaroso curso para o mar. Então Alba e Aladde, decidiram mudar-lhe o destino, fazendo-o deslizar para norte e fortaleceram o seu caudal, juntando-lhe as águas que, sobrando do dilúvio, escoriam ainda pelas encostas do Cercal, com outras que continuavam a brotar das cercanias e que hoje formam os rios de Campilhas, Alvalade e S. Domingos.

E Saláceo, ou melhor o rio Sado, seguiu, o seu rumo para norte, alimentando e dando vida a toda a planície alentejana, enquanto Alba e Aladde, verdadeiramente apaixonados, uniam os seus destinos e, para vigiar Saláceo, fixaram-se, mesmo ali, naquele campo cercado pelo enorme muro, no sítio onde hoje é a vila de Alvalade.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:48





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