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O CALHAU DO TOURO

Segunda-feira, 06.01.14

Misterioso, enigmático, mítico e assombroso, o Calhau do Touro era um gigantesco pedregulho encastoado na primeira relva do Mato, ali mesmo logo ao cimo da Rocha que, em certos dias, vomitava urros uivantes, gemidos dolentes, rugidos assustadores, como se fosse um monstro vivo e verdadeiro. Um espanto, aquele calhau! Uma das mais interessantes e misteriosas maravilhas naturais da Fajã Grande! Tratava-se, na realidade, de um normal mas gigantesco pedregulho, possivelmente arrancado a algum pináculo, lá das alturas do Queiroal ou da Água Branca, por chuvas diluvianas e intempéries catastróficas e que arrastado pelas encostas macias e verdejantes do Rochão do Junco, por fortíssimas rajadas de vento, associadas à força da gravidade, saltitando por valados, rebolando por grotões, deslizando por socalcos, se viera alapar ali, inerte, zurzido, resvalado, quase morto. O Calhau do Touro, com os seus uivos angustiantes e berros medonhos assustava quantos, desprevenidos e alheados, passavam por ali.

De vereda em vereda, de socalco em socalco e de grotão em grotão, o Calhau do Touro, em tempos muito recuados e de que nem memória havia, quando a ilha ainda não parecia ilha, naturalmente viera parar ali, logo acima da Rocha, na primeira belga planáltica que encontrara, a separar os atalhos que, na direcção do Norte conduziam ao Queiroal e para os lados de Nordeste permitiam aos transeuntes chegar ao Curral das Ovelhas, atingir o Rochão do Junco, alcançar a Burrinha e a Água Branca ou até seguir para Santa Cruz ou outras localidades do Nordeste da ilha.

Alapado ali, o Calhau do Touro ali permanecera ao longo dos séculos, talvez desde de que a ilha era ilha e ali havia de fixar-se para sempre, manso, tranquilo e calado em dias de tempo calmo e de ventos de Sul e de Oeste, que a Rocha íngreme e altiva impedia de lá chegarem. Mas nos dias de grande ventania, com ventos muito fortes a soprarem, ininterruptamente, do Norte e do Nordeste, com fortes rajadas, a enfiarem-se encanadas por aqueles descampados abaixo, era um lamento perene e intercalado, um berreiro medonho e assustador, uma gritaria que nunca mais acabava. Parecia que tinha o diabo no corpo, aquele maldito calhau!

Tanto berrava, tanto gritava, tanto rugia que assustava os que por ali passavam, sobretudo os desprevenidos ou quantos desconheciam os dotes estridentes daquele misterioso e estranho prodígio da natureza.

Mas, afinal e bem vistas as coisas, o Calhau do Touro, simplesmente, não passava de um enorme pedregulho que rolara pelas encostas do Queiroal e do Rochão do Junco e viera parar ali quase ao cimo da Rocha, na primeira relva a que se chegava, logo após a Cancela. A sua localização e o seu exagerado tamanho faziam com que, fustigado por certos ventos, se formasse ali uma espécie de eco que se repercutia pelos arredores, assemelhando-se aos berros de um touro. Era essa a razão do seu epíteto.

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publicado por picodavigia2 às 10:32





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