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PELOS TRILHOS DE SÃO JOÃO DO PICO

Segunda-feira, 06.01.14

A freguesia de São João do Pico explodiu cultural e desportivamente, através dum vaivém intenso, variado, pleno de vivências, encharcado de actividades e iniciativas, acorrentado à história e às tradições, galvanizado de empenhamento e dedicação, uma espécie de “vulcão de cultura e de desporto” donde emergiu uma lava agregadora, atraente e construtiva, unindo a memória do passado às vivências do presente, fortalecendo o sentido de união e o espírito colectivo, solidificando a identidade e a idiossincrasia da sua população.

Na realidade e integrando o Projecto “Freguesias CoMvida”, organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia de São João, como o já haviam feito a Ribeirinha, a Piedade e a Calheta, embora de forma diferente mas com actividades semelhantes, organizou entre os dias 21 e 28 de Abril, uma Semana Cultural e Desportiva, durante a qual se realizaram diversíssimas actividades. A Semana, agora realizada, caracterizou-se por um forte empenho dos seus organizadores e uma desmesurada afluência de participantes e constituiu um marco importante no desenvolvimento cultural e na prática desportiva não apenas da população da freguesia mas também dos forasteiros que, por estes dias, demandaram São João.

 Desta erupção de vivências culturais e de realizações desportivas, em que a semana foi fértil, emergiu, na manhã do dia 28, a realização de um trilho pedestre, por veredas e atalhos de outrora, com epicentro no Pico da Urze e que se estendeu, numa torrente de alegria, satisfação, camaradagem e confraternização, pelas encostas da montanha, quase até ao mar. Transportados até ao Pico da Urze em viaturas particulares, os cerca de cinquenta participantes num dos vários “Trilho dos Pastores de São João” iniciaram uma caminhada desde aquele monte até aos subúrbios de São João, não apenas descendo o vetusto e histórico “Caminho da Serra” mas também atravessando pastagens pejadas de gado bovino e percorrendo campos outrora a abarrotar de inhames, de frutos e de lenha. O “Caminho da Serra”, hoje um percurso abstracto, emerso em sombras e memórias, constituiu, no entanto, em tempos idos, a principal via pedestre a ligar o mar à serra, percorrida por quantos retiravam daqueles campos o seu sustento quotidiano ou, naquelas paragens, apascentavam os seus gados. Além disso, o “Caminho da Serra” também ligava aquela freguesia picoense às povoações do norte da ilha, nomeadamente, à vetusta vila de São Roque, nas demandas em Tribunal, para ir ao médico ou simplesmente consular um advogado. Era também a vereda que permitia o aceso às relvas para a ordenha, para tratar do gado alfeiro e que conduzia, diariamente, a população nas suas idas e vindas àqueles recantos serranos, para cortar lenha, apanhar inhames e sobretudo para acarretar o leite.

Orientado sob a sábia experiência do senhor Rui, profundo conhecedor daqueles párramos e andurriais desde criança, o grupo participante desfrutou de um interessantíssimo percurso pedestre que, embora cerceado, aqui ou além, por algumas dificuldades inerentes não apenas à natureza agreste e abrupta do terreno mas também provenientes do seu abandono actual, lhes proporcionou uma verdadeira caminhada de deslumbramento, de fascínio, de encanto e de magia, adocicado pela frescura do ar, pelo perfume dos campos, pelo sabor do poejo e da nêveda.

Nas encostas meridionais do Pico da Urze, a enorme e ampla Fajã, pejada de endémicas, onde sobressaem, para além do cedro, da urze e da queiró, o sanguinho, o tamujo, o rosmaninho, o pau branco, o folhado e o lendro, num chão atapetado do musgos, fetos, intercalados com árvores seculares com o tronco caiado de musgo, pejado de parasitas, com destaque para a “doiradinha”, a reivindicar para si o estatuto de um habitat em clausura, “sem ver o mar e sem ver a montanha do Pico” e que, outrora, se transformava em chá milagroso que curou os nossos antepassados dos mais variados achaques, das mais vis maleitas e dos mais atrozes sezões.

Depois da floresta endémica, as pastagens da Vereda do Giga a abarrotarem de erva verde, fresca e tenrinha, misturada com trevo, poejo, nêveda e mantastro, que fazem a delícia dos bovinos e enchem o ar de um perfume perturbante, adocicado, tranquilizante e enternecedor.

Finalmente o Outeiro do Cação, já mais cá para baixo, a fazer-nos regressar, novamente à floresta, onde agora o incenso, de braço dado com a faia e o loureiro, tem o seu império, com árvores seculares, de porte altíssimo, copas avassaladoras, transformando o “Caminho da Serra” num manancial de frescura, numa abóboda de murmúrios, numa torrente de imponência tranquilizante mas dominadora. Depois, o caminho segue ainda, ingreme e abrupto, atravessando a Falquejadura, pejado de furnas minúsculas onde se “acaçapavam” os homens para se abrigarem das intempéries e da chuva, de descansadouros, de marcos históricos, de cruzes a assinalar mortes e das ruínas da histórica Casinha da Laje, uma espécie de hall de entrada na serra e que servia de abrigo a quantos, em dias de chuva demandavam aqueles descampados.

Não ficaria completa, esta crónica, se não informasse os leitores, que o grupo, atravessando, agora sim, as modernas e alcatroadas ruas de São João, continuou, é verdade que já um pouco desfeito e sem recurso ao guia, a caminhar, como se do “Caminho da Serra” se tratasse, indo desembocar, ali mesmo, no restaurante “Tacão”, com janela debruçada para o mar e onde os caminhantes que assim o entenderam, puderam saborear um excelente almoço e desfrutar de um agradável e inesquecível convívio.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 01/04/12

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