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O BALEEIRO PERDIDO (DIÁRIO DE TI ANTONHO)

Quarta-feira, 08.01.14

24 de Junho de 1946

 

Contavam os antigos, que certo dia, aqui na Fajã, depois do vigia, de lá de cima do Pico, atirar o foguete anunciador de que havia sido descoberta baleia, os homens que andavam na sua faina agrícola diária, de repente, uns largaram o sacho mesmo ali no lugar em que se encontravam, alguns atiraram a foice com que ceifavam fetos e cana roca para um canto, outros abandonaram os animais que andavam a tratar e todos, vindos dos campos de perto ou das terras de longe, correram para o Porto Velho, onde estavam varados os botes baleeiros e em cujo boqueirão estava a lancha que os rebocava. As mulheres, aflitas e espavoridas, corriam para casa a fim de lhes prepararem uma dentada de comida acompanhada com café que os seus homens levassem para o mar e com que se alimentariam o dia inteiro. Depois de tudo preparado lançavam-se também em louca correria na direcção do mar, com a intenção de chegarem antes que partissem. Os homens, sobretudo os mais lestos e que haviam chegado primeiro, arriaram os botes à pressa e, juntando-se aos atrasados, remavam afoitamente, iniciando uma marcha lenta pelo mar fora, enquanto as mulheres de cima dos rochedos do baixio lhes iam atirando os sacos de pão de milho ou bolo, com queijo, linguiça, inhames e peixe frito, uma garrafa com café e num caso ou outro, de sumo ou de vinho. A lancha, esperando pelas sacolas de comida mais atrasadas, iniciava também a sua marcha, aproximando-se dos botes e lá os ia rebocando pelo mar fora, até desaparecerem no horizonte. As mulheres regressavam a casa a abafar suspiros e a avantajar desejos. Os botes, no mar alto, navegando à vela algum tempo, no alto mar para não assustar os cetáceos, avistaram por fim uma gigantesca baleia, que se fosse apanhado daria para cima de cem barris de óleo, despertando assim ainda mais a fúria desesperadora dos baleeiros. Era uma pechincha que não se podia desperdiçar de forma alguma.

Como todos a queriam caçar, gerou-se grande reboliço entre os botes. Apanhar uma baleia daquele tamanho era um acto heróico. Desceram as velas, enrolaram-nas nos mastros e começaram a remar na ânsia de caçar o enorme cetáceo que, pouco depois, como que amedrontado, voltou a mergulhar para aparecer uns bons metros mais fora, lançando para o ar enormes jactos de água que enchiam o mar de ondas e espuma. Um dos botes conseguiu aproximar.se e pôr-se em posição mais vantajosa para atirar. Sob as ordens dooficiale, o trancador, curvando o corpo e fixando o olhar naquela enorme mancha negra, atirou o arpão certeiro ao sítio mais adequado. A alegria enorme mas a confusão ainda foi maior. A baleia, ferida e louca de dor, num instante levou a primeira celha de linha, e depois a segunda. Só que antes da ponta da linha sair da celha, o trancador, apesar de forte e robusto, agarrou-a a amarrou-a ao tronco. Mas de repente, sem que ninguém esperasse, caiu que nem um melro. Preso na linha, num ápice foi arrastado pela borda do bote e engolido pelo mar, enquanto os companheiros ficavam atónitos, aflitos, enterrados num silêncio de morte. Só o oficial dizia: "Não! Não!"

O gasolina passou a triste notícia aos restantes botes e toda a tarde procuraram com tristeza o pobre baleeiro desaparecido. Exaustos, desolados, com uma tristeza de morte a tolher-lhes o rosto, não podendo fazer nada, voltaram, já noite alta para terra.

 A chegada ao Porto Velho foi de grande tristeza e consternação. Todos os baleeiros se abraçavam aos seus e choravam amargamente. Um silêncio profundo enegrecia ainda mais o porto. A família vestiu-se de luto e toda a santa noite as vizinhas choraram e carpiram de dor enquanto os homens contavam em voz baixa, como tudo se tinha passado.

No dia seguinte ainda saíram alguns botes à procura, por descargo de consciência, do corpo do trancador para que lhe dessem enterro digno. Depois de muito andarem, começaram a avistar, ao longe, um negrume no mar e foram para lá. Qual o seu espanto quando avistaram, sobre a grande baleia, já morta, o baleeiro, de pé, encostado ao cabo do arpão fincado no toucinho do animal. Como se nada tivesse acontecido disse para os colegas por quem esperara toda a noite:

 " Só agora é que vocês chegam? Tenho estado aqui toda a noite à vossa espera!". De seguida, perante o pasmo dos outros, saltou para o bote, como se nada fosse. E foi ele que prendeu a baleia ao gasolina para a rebocar para o porto de santa Cruz, porque os outros de tanto medo e pânico que tinham, não foram capazes de o fazer.

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publicado por picodavigia2 às 10:21





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