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A LENDA DA CAVEIRA

Quarta-feira, 08.01.14

A Caveira é uma das onze freguesias da ilha das Flores. Pertence ao concelho de Santa Cruz, tem uma área de 3,29 e, de acordo com o Censos 2011, tem apenas 77 habitantes, sendo a mais pequena freguesia da ilha no que respeita à área que ocupa e, também, uma das menores, em termos de população. A Caveira, situada no extremo sul do concelho de Santa Cruz das Flores, dista desta vila apenas de 5 quilómetros, ficando pois nos seus subúrbios e ergue-se sobre uma alta lomba que se estende e prolonga entre a Ribeira da Cruz e a Ribeira da Silva, separando-a, esta ribeira, da freguesia da Lomba e do concelho das Lajes. O alto sobre o qual assenta a freguesia prolonga-se para o mar, formando um alcantilado promontório, rodeado por falésias basálticas, denominado Ponta da Caveira. É ali que tem lugar um vale, com um miradouro lá do alto e do interior da ilha, donde se pode desfrutar de uma das mais belas paisagens da ilha e dos Açores – o vale da Ribeira da Cruz. A paróquia católica da Caveira, pertencente à Diocese de Angra, tem como orago, actualmente, Nossa Senhora do Livramento, embora oficialmente nunca tenha obtido autorização canónica para abandonar o primitivo orago que eram as Benditas Almas. Considerou, em tempos, a igreja açoriana que, uma vez que as Almas do Purgatório, ainda não eram “santas”, não podiam ter o estatuto nem figurar como padroeiras de ninguém, nem de coisa nenhuma.

O estranho nome desta freguesia e o próprio orago tem a sua origem numa antiga lenda, conhecida por “A Lenda da Caveira”. Segundo esta lenda, antigamente, nos tempos em que as embarcações passavam ao largo das Flores, rumo às Américas ou vindas de lá, carregadas de riqueza, por vezes, eram atacadas por piratas ou assoladas por tempestades, após as quais quase ninguém nem nada se salvava.

Durante uma dessas tragédias, no entanto, salvou-se e arribou à ilha, um náufrago. Vinha todo molhado da água salgada, cheio de fome e de frio e foi ter a um lugar bastante acidentado e ventoso, do lado nordeste da ilha, precisamente onde hoje se situa a freguesia da Caveira e onde as pessoas lhe deram comida, roupa e amizade. Esse homem, chamado Demétrio, começou a gostar da vida no pequeno lugarejo, casou e ali se estabeleceu para sempre.

 Como homem bom que era, tornou-se muito querido das gentes do lugar. Mas, apesar de ser cristão, tinha ideias que alguns consideravam heréticas. Dizia que as orações pelos defuntos não tinham qualquer sentido ou valor e negava a existência do Purgatório e do Inferno. Acreditava que a alma humana reside no sangue e que, no momento da morte, esta se separa do corpo sob a forma de ave, a qual pousa numa planta próxima, até que o corpo seja queimado ou comido pela terra. Acreditava também que essa ave cantava enquanto o homem morria, facilitando-lhe a entrada no sono eterno.

 Com esta crença viveu Demétrio, nela educou os filhos e, embora os vizinhos não acreditassem no mesmo, não deixou de viver em sã convivência com eles, sendo muito estimado e considerado por todos,

 Passaram os anos e um dia, Demétrio, já idoso, adoeceu e, passado algum tempo, morreu. Nesse mesmo momento uma lavandeira levantou voo e foi pousar sobre a faia mais próxima, mas não se ouviu o canto facilitador da entrada da alma de Demétrio no sono eterno, enquanto era sepultado no cimo do monte.

 A mulher, que tinha sido influenciada na sua fé pelo marido, apercebeu-se do sucedido e ficou perturbada por a ave não ter cantado durante o enterro de Demétrio, mas nada disse.

 Passado algum tempo, durante a noite, começou a aparecer sobre a colina uma caveira com uma luz interior. A gente, que morava ali, sentia-se aterrada com a visão e soube-se então que era a caveira de Demétrio, cuja alma vinha pedir orações para ser recebida no Purgatório.

Alguém encarregou-se de mandar rezar missas e de oferecer terços por intercessão do bom, mas herético Demétrio e, passado pouco tempo, uma mansinha lavandeira cantou sobre a faia e a caveira desapareceu.

 No alto e pedregoso lugar a família e os vizinhos construíram um nicho dentro do qual fizeram um painel representando a caveira.

 O nome ficou na mente das pessoas e aquela lugar da ilha das Flores passou a chamar-se Caveira, nome, mais tarde dado também à freguesia que ali se formou e que ainda hoje se mantém, sendo as suas padroeiras de origem, as Benditas Almas do Purgatório.

 

 Fonte – Ângela Furtado Brum, Lendas e outras histórias dos Açores

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publicado por picodavigia2 às 14:24





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