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BALEIA VIRTUAL

Quinta-feira, 09.01.14

Tarde sombria de Agosto. Homens nas lides dos campos a lavrar, a sachar, a ceifar que a tarde não era de grandes calmarias. Mulheres atafulhadas nas tarefas caseiras, a lavar, a limpar, a amassar e a cozer o pão que era sexta-feira. A rua Direita quase deserta. Quatro crianças preparam uma das suas brincadeiras favoritas – a pesca à baleia, - decalcando nos seus folguedos inócuos e fantasistas, as aventuras, as fadigas e os trabalhos estampados no quotidiano dos adultos. Antes haviam-se deslocado ao Outeiro, na mira de cortar algumas canas, com que construiriam um bote. Primeiro, com fios de espadana, amarraram as duas maiores, uma à outra, em ambas as extremidades. De seguida, cortando as restantes em tiras com tamanhos diferentes mas decrescentemente equiparados em pares, com excepção da maior que era única, e com as extremidades escanadas em bicos côncavos, de forma a encaixarem nas duas primeiras, alargando-as, e dando-lhes uma forma elíptica, a simular a superfície superior do tampo de um bote de baleia. Tudo preparado! Três miúdos ocupam o barco: o mestre à ré, um marinheiro a meio e o trancador à proa. O quarto elemento, o Rodrigues, subindo e encavalitando-se no cimo do chafariz, ali à entrada da Casa de Espírito Santo de Cima, com as mãos fechadas e colocadas nos olhos, a deixar no meio um pequeno orifício, finge segurar uns binóculos, com os quais vigia toda a rua, na mira de descortinar baleia. De repente, avista uma e, simulando com as mãos segurar uma bomba, atira para os ares um jacinto que viera do Outeiro, junto com as canas:

- Fexxt! Puum!

O Câncio, o Júlio e o Greves – os três do bote - sentados na soleira duma das portas da loja do Padre Pimentel, à espera do sinal, iniciam uma tresloucada corrida na direcção da casa de Espírito Santo, onde o adro virara porto, ao mesmo tempo que gritavam:

- Baleia! Baleia! Baleia à vista!

- Vamos arriar! Bote para a água! – Anunciam o Júlio e o Greves, saltando para dentro da embarcação que ali estava varada, aguardando a hora da safra.

Enquanto isto, o Rodrigues, num ápice, abandona a vigia e vem fazer de baleia. É que o número de compinchas era muito reduzido e não se podiam dar ao luxo de manter um elemento do grupo sem fazer nada, sentado lá no alto do chafariz. Depois de encher a boca de água numa das torneiras, desata a correr e vai pôr-se de cócoras, no meio da rua Direita. De vez em quando levanta-se e lança rapidamente jactos de água para o ar, ajoujando-se de imediato, evitando ser arpoado. Era a baleia a profundar nas águas escuras do oceano! Depois, sempre à socapa, repete a cena: boca a abarrotar de água e esguichos convulsivos para o ar. Nova fuga ao arpão…

Os outros, em pé, a segurar as canas, remam e movimentam, velozmente, o bote, na perseguição do cetáceo, na mira, duma baleia virtual.

- Vira-me esse esparrel p´ra direita, mestre. Ali há baleia! – Grita o Júlio para o Câncio que logo acrescenta:

- Já está na direcção! Atira-lhe, agora!

De repente o cetáceo vem à tona, lançando um último esguicho para os ares. Secara-se-lhe a boca… e a torneira ali bem perto. O Greves, atirando o arpão, também ele de cana e amarrado ao bote com fios de espadana entrelaçados uns nos outros, tenta atingir a baleia, mas falha… Nesse momento, atravessando a rua em grande correria, um amigo dos quatro, o Álvaro, em tom de gozo:

- Atira-lhe Greves, atira-lhe, mas nunca lhe acertas. Eu cá é que sou um bom trancador! Nunca falho uma.

O Rodrigues tenta suspender a brincadeira:

- Parem, parem. Agora não vale – e dirigindo-se ao Álvaro - Ó Álvaro, anda brincar connosco. Vem fazer de baleia! Não aguento sozinho a fazer de baleia. – Depois, apontando para o Greves em tom recriminatório: - Ele está sempre a perseguir-me e apanha-me logo. Não consigo vir acima d´água, uma vez que seja, que ele atira-me logo o arpão. Com duas baleias é mais fácil não ser apanhado.

- Hoje, não posso, hoje não posso. – Repetia o Álvaro, esquivando-se. Logo o Júlio em tom de gozo:

- Olha o medricas, vai p’ra casa da avó, p’ra baixo das saias das titias…. Áh! Áh! Áh!

E o Greves, pondo mais água na fervura:

- Olhem! E traz os chinelos. O chinelinho hoje vem de chinelos.

- Vocês falam, falam, mas é “roídos de inveja”. Se soubessem p´ronde eu vou!? Vou para Ponta Delgada e de barco, num barco a sério.

O Júlio ainda acrescentou:

- Vais… Vais… Vais mas é tratar das galinhas da avó…

Foi o Rodrigues que pôs termo às suspeitas;

- Eh pá. Olha que ele vai calçado e com a roupa de domingo. Se calhar é mesmo verdade.

- Pois fiquem sabendo que vou a Ponta Delgada, e vou de barco. Mas num barco a sério. É no S. Pedro, que já está no Cais, à minha espera. Adeus que não posso demorar-me mais.

- Vamos continuar a brincar, - concluía o Câncio. - Com ele não podemos contar hoje. Olhem, vem ali o Chapinha. É do melhor que há para baleia.

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publicado por picodavigia2 às 08:34





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