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DIÁLOGO DOS MEDOS

Quinta-feira, 09.01.14

Filho: - Pai, a noite está tão escura, não vejo nada! Não devíamos continuar, devíamos voltar para trás.

Pai: - E teus irmãos em casa sozinhos, sem saber de nós, preocupados, pensando que nos perdemos…

Filho; - Ó pai, mas está tão escuro!... Não vejo nada!... Vamos voltar para trás!

Pai: - Verás que daqui a pouco os teus olhos se vão habituar à escuridão. E a Lua não tardará a aparecer. Isto é luar de Agosto!

Filho: - Ó pai!... Mas eu tenho medo, muito medo.

Filho: - Medo de quê?

Filho: - Das almas do outro mundo.

Pi- Qual almas do outro mundo, qual carapuça. As almas do outro mundo não fazem mal a ninguém. Os que morrem nunca mais voltam! As almas que ainda andam neste mundo, essas sim, é que, muitas vezes, fazem mal umas às outras.

Filho:- Mas dizem que no mato, de noite, aparecem muitas coisas.

Pai: - Aparecem tantas coisas de noite como de dia, isto é, não aparece nada. A noite é igual ao dia, só com uma pequena diferença: é que é escura, não se vê, a não ser que haja Lua, mas, mesmo assim, nunca é tão clara como o dia. E é por isso que as pessoas têm medo.

Filho:- Ó pai, mas dizem que nos Terreiros, de noite, aparece um padre e um cão com uma cesta na boca e dentro da cesta leva a chave do sacrário.

Pai: - Minhocas, minhocas na cabeça, é o que as pessoas têm.

Filho: - E no largo da Cancelinha? Dizem que aparece lá uma mesa posta, com comida em cima…

Pai: - Também essa mesa nunca eu a vi, e com muita pena minha, porque às vezes passo lá com fome e aproveitava para comer.

Filho: - Não brinque, pai. Por que é tão anamudo, pai? Porque é que não tem medo de nada?

Pai: - Vou contar-te uma estória, mas uma estória verdadeira. Uma vez, quando eu era rapaz, ia para o Areal, já era de noite. Ao passar na Furna das Mexideiras, ouvi uma barulheira enorme. Fiquei assustadíssimo, tive muito medo e voltei para casa a correr cheio de medo. Meu pai perguntou-me o que tinha. Contei-lhe o que se tinha passado e ele disse-me que eu tinha que lá ir ver o que era, se não nunca mais lá passava, com medo. Como eu não queria ir sozinho, obrigou-me a ir com ele lá, para ver o que era. Dizia ele que se havia barulho, alguém o fazia.

Filho: - E foste, pai?

Pai: - Fui, claro, juntamente com ele.

Filho: - E viram alguma coisa?

Pai: - Vimos muitos cães. Tinham matado um carneiro, nesse dia, e atirado a cabeça para o baldio. Os cães apanharam-na, levaram-na para dentro da furna e, como todos a queriam comer, ladravam muito, faziam uma grande algazarra. Era esse barulho que fazia eco na furna. Era assustador! Mas era uma coisa deste mundo, tão natural. Foi assim que eu perdi o medo. Nunca mais acreditei em nada dessas tolices que contam por aí. Se não tivesse lá ido, nunca mais lá passava com medo… Ainda hoje havia de ter medo. E contava o que ouvira a toda a gente e todos haviam de ficar com medo… Tu também não deves acreditar nessas tolices.

Filho: - Mas há quem conte tantas coisas. Há pessoas que ouvem barulhos estranhos. Pai, não está a ouvir agora? Tenho tanto medo, pai. Parece que está alguém a gemer, ali.

Pai: - É um boi que está a berrar. Estás a ver aquela mancha escura. É um boi. Viu-nos passar e, como é de noite, julga que é o dono e começou a berrar. Como vês, é tudo natural, é tudo deste mundo. Não tens que ter medo de nada nem de coisa nenhuma do outro mundo. O outro mundo não existe, o nosso medo é que o inventa. É preciso é ter cuidado com algumas pessoas e coisas deste mundo… Essas, às vezes, é que nos fazem muito mal…

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publicado por picodavigia2 às 10:55





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