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OS CESTOS DE VIME

Sexta-feira, 10.01.14

A intensa e diária actividade agrícola que se verificava na Fajã Grande, nos anos cinquenta, implicava o uso de recipientes necessários e adequados à recolha e transporte das batatas, dos inhames e dos cereais, nomeadamente do milho, que ocupava o primeiro e mais importante lugar em toda a actividade agrícola produtiva da freguesia. Na altura, o plástico ainda era desconhecido, os utensílios de lata rareavam, os de madeira eram caros e as sacas de sarapilheira pouco funcionais. Daí que se recorresse, habitualmente, ao uso dos cestos, fabricados na própria freguesia, com os vimes que por ali cresciam abundantemente, feitos, muitas vezes, pela própria pessoa que deles necessitava e, consequentemente, de fácil e barata aquisição.

Assim, todas as casas tinham grandes quantidades de cestos, de formas, feitios e tamanhos diferentes e com usos diferenciados. Quando, em alturas de maior necessidade, se os cestos rareavam ou os que se possuía em casa não chegavam, pediam-se emprestados aos vizinhos que sempre os disponibilizavam.

Os cestos eram feitos com vimes. Uns, com vimes descascados entrelaçados com outros mais finos, geralmente, elaborados com requintada qualidade, com formas mais redondinhas e acabamentos mais cuidados, destinavam-se a transportar os alimentos, sobretudo para os homens que trabalhavam nos campos, impedindo-os de vir a casa e interromper os trabalhos. Quando se ia levar o jantar a quem trabalhava nos campos, quando se carregava a comida para o mato em dia de Fio, os alimentos eram colocados à cabeça da mulher, dentro destes cestos. Uma vez que exigiam rigorosa higiene, deviam ser mantidos limpos, conservados e bem guardados em casa, não lhes sendo dado nenhum outro uso, a não ser para guardar o pão acabado de cozer. Outros cestos, semelhantes a estes, também feitos de vimes descascados e que os tornava totalmente brancos, eram os cestos da roupa. O seu fim era o de ir guardando a roupa suja, transportá-los à cabeça, cheios de roupa, a fim de ser lavada na ribeira. Depois de lavada a roupa era dobrada, transportada para casa nos cestos e estendida nas linhas. Na Fajã Grande ainda havia os cestos normais, ou seja, aqueles que eram usados para quase tudo o que não fosse roupa, alimentos ou estrume. Eram feitos de vimes normais, com a casca, tinham uma forma mais grosseira, abrupta e menos cuidada, por vezes até um pouco toscos, mal feitos, mal acabados e bastante maiores do que os outros, embora os houvesse de vários tamanhos. Serviam para tudo, estes cestos, nomeadamente para acarretar o milho quando as maçarocas eram apanhadas dos milheiros, para o transportar para os carros ou até para casa, para encher as maçarocas descascadas ou até para as debulhar e guardar os grãos. Era também com estes cestos que se transportavam os inhames, as batatas, doces e brancas, as abóboras, os “bogangos” as favas, os tremoços, os bites, a beterraba e até as couves, a casca do milho e a rama da batata. Quando a erva ceifada para o gado, se mais miúda, também era acarretada em cestos, dadas as dificuldades que era prendê-la com cordas, formando molhos. Finalmente, existiam os cestos destinados, exclusivamente, para acarretar o esterco e que resultavam do envelhecimento dos outros, embora, por vezes, fossem também construídos de raiz, sendo, neste caso ainda mais toscos, mais mal feitos e mais abrutalhados do que os anteriores. Estes eram cestos negros, sujos, mal cheirosos, cuja única utilidade era, exclusivamente, a de transportar o esterco dos palheiros para os campos, servindo também de elo de ligação entre os carros e os campos, quando as vias de acesso às propriedades não eram adequadas â passagem do carro de bois ou do corsão.

Os cestos, no entanto, ainda tinham muitos outros usos paralelos, pois serviam como escada de acesso a um lugar onde, de pé, não se chegava, para transportar fruta quando apanhada em grande quantidade, para acarretar as achas da lenha depois de serrada e fendida, para tapar um galinha que estava choca ou um galo à espera de ser degolado e de ir para o caldeirão, para substituir a joeira e avantajar o trigo ou outro cereal, para substituir o camaroeiro na captura do sargaço, para colocar um de cada lado das selas dos burros e até para as crianças se entreterem a apanhar pombas. Além disso os cestos ainda eram fundamentais na extracção do sargaço que saía no Rolo e que dali era extraído para estrume dos campos. Retirado do mar com garfos, o sargaço era acarretado para os lagos em cestos. No entanto, como o sargaço era um produto, limpo e até continha algum cheiro a maresia, a marisco e a algas, utilizavam-se todos os cestos disponíveis, excepto os da comida, que nesse dia também eram necessários para ir levar o almoço e à noite o jantar, aos que trabalhavam todo o dia na extracção de tão precioso e gratuito adubo.

Os cestos, na Fajã Grande, eram, geralmente, fabricados por quem deles necessitava, embora houvesse alguns cesteiros famosos, na freguesia, com destaque para meu tio José e o para o Guilherme. É que fazer um cesto não era fácil. Para além de exigir sabedoria e prática, o cesteiro trabalha com materiais rijos e fibrosos e como não usava luvas, as mãos ficavam-lhe gretadas e cheias de cortes. Para aliviar esse martírio e para tornar os vimes mais maleáveis, estes eram mergulhados em água, durante um ou dois dias.

Os cesteiros mais habilidosos, no entanto, não se limitavam apenas a construir cestos. Dado que tinham engenho, arte e criatividade e como os vimes abundavam, na freguesia, também construíam cestas de asa de vários tamanhos, cabazes, bandejas, travessas, cadeiras e até mobílias de sala. As cadeiras de vimes, do tipo poltrona eram muito vulgares nas salas de todas as casas da Fajã, naquela altura e hoje serão, muito provavelmente, autênticas relíquias históricas.

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publicado por picodavigia2 às 16:54





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