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LEITE AO MATO

Sábado, 11.01.14

Hoje, a subida da Rocha da Fajã é um passeio turístico. Passeio difícil, é verdade, mas engrandecido e glorificado com a tão propalada exaltação dos antigos trilhos pedestres, a ressuscitarem, por toda a parte. São os caminhos, atalhos e veredas antigas, íngremes e sinuosas por onde outrora caminhavam diariamente os nossos antepassados nas lides dos campos e no tratamento do gado, muitas das vezes vergados ao peso de pesados molhes de lenha, de erva ou de fetos ou carregados com cestos bem acuculados de batatas, cebolas, milho ou inhames,

Por isso mesmo, em tempos idos, mas não muito distantes, era uma obrigação para muitos dos habitantes da Fajã Grande, talvez mesmo uma exigência diária para alguns, subir e descer aquele alcantil, descampado, abrupto e pétreo que era a Rocha, na sua intrínseca sinuosidade, onde o caminho, volta a volta, se havia cravejado de degraus toscos e escabrosos e de pedregulhos soltos e escorregadios.

As voltas da Rocha eram trinta e duas, As primeiras cinco, logo no início, onde o terreno não era muito acidentado, eram as mais suaves, mais fáceis e mais acessíveis, sem grandes obstáculos a transpor. Mas a partir da sexta, até à Furna do Peito, tudo se complicava. Eram degraus atrás de degraus, numa subida penosa, angustiante e aflitiva, com escorregões e sobressaltos à mistura, sempre a alertar para se prevenirem os transeuntes, não fosse cair algum pedregulho, lá do alto. Felizmente a Furna do Peito, encastoada bem lá no interior da rocha, uma catedral de lava, a convidar ao descanso, por vezes até à oração, servia de lenitivo, alento e repouso, tanto dos que subiam como dos que desciam. Uma cruz feita com dois paus toscos amarrados com um cordel, no seu interior bem se apresentava como símbolo de um calvário que era aquela subida e alertava para o perigo a que estavam sujeitos os que por ali transitavam. A seguir à enorme furna, mais três ou quatro voltas ingremes e escarpadas, com piso escorregadio, mas a aproximarem-se das voltas do Descansadouro, estas inquestionavelmente mais mansas e tranquilizantes, a permitiram, com as suas saliências excrescentes, que se começasse a visionar, lá em baixo, o mar, o Monchique, o baixio e as casas da Via d’Água. A seguir a volta do Descansadouro, enorme, rectilínea, ladeada pela Furna da Caixa, paralela à Rocha, a flutuar sobre uma enorme verga e a permitir que mesmo a andar fosse permitido descansar. No seu termo e a Sul, um enorme e enigmático Descansadouro de onde se desfrutava de uma magnífica vista sobre a Fajã, desde o Oceano até ao Curralinho, com excepção da Assomada, entrincheirada e escondida entre os contrafortes do Pico da Vigia e do Outeiro. Através dos tempos ali se haviam construído muros circundantes para repor as cargas e prevenir das quedas, ladeados por assentos destinados ao descanso dos transeuntes, uma vez que constituía, depois da Furna do Peito, o segundo lugar de descanso obrigatório na subida e na descida da Rocha. Nas voltas seguintes, regressava-se às subidas íngremes, aos degraus encastoados uns sobre os outros, aos pedregulhos soltos, ao perigo, à dificuldade e ao cansaço. Até à Fonte Vermelha era um verdadeiro martírio, acentuado e acrescido na famigerada volta que a antecedia, a mais dura, a mais difícil e a mais escarpada de toda a Rocha. Mas na Fonte Vermelha, para além de se poder saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta, na que se dizia ser a melhor água da ilha das Flores, era a certeza de faltarem poucas voltas para o cimo da Rocha. A fonte era formada por uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente à água que dela emanava continuamente. Todos os que por ali passavam dela bebiam, todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam. A seguir à Fonte Vermelha faltavam dez voltas para se atingir o cimo da Rocha, as primeiras, até à Furna dos Dez Reis, eram bastante acessíveis e de piso melhorado, mas a partir da pequenina furna, onde se depositavam sonhos e desejos, na esperança de testar a sua virtualidade, voltava-se ao íngreme, ao escabroso, ao difícil. Chegar à trigésima segunda volta era uma vitória inquestionável, uma certeza glorificante, um feito radioso.

Mas nos anos cinquenta e nos anteriores, havia muitos rapazes e muitos homens da Fajã que subiam diariamente aquele gigantesco penhasco para ir tirar leite ao gado, regressando na descida com as latas a abarrotar do precioso líquido, geralmente em palanca, presas num pau, uma à frente mais pequena e outra, maior, atrás. No caso de necessitar de três, as duas mais pequenas prendiam-se atrás, uma ao lado da outra, através de um gancho enfiado no pau. Acrescente-se que muitos destes homens subiam e desciam a Rocha duas vezes, uma pela manhã e outra à tarde.

Aqui ficam os nomes de alguns deles, talvez dos que, na década de cinquenta, o fizeram com mais frequência e que lhe deram mais continuidade: André, Antonino do André, Ângelo Câmara, Ângelo de João Augusto, Ângelo Mancebo, Antonho Dias, Antonino de José Luís, António de José Cardoso, António Teodósio, Armando de João Augusto, Elviro, Filhos do Raulino Fragueiro, Francisco Facha, Francisco Flores, Guilherme Pimentel, João de Freitas, João Facha, João Luís, José António Macela, José de Lima, José do Augusto, José do Laureano, José do Lucindo, José Fagundes, José Felizardo, José Francisco, José Lourenço, José Felizardo, José Pureza, José Rodrigues, José Trancão, Luís do Laureano, Luís Fagundes, Manuel Cardoso, Mateus Felizardo< Teodósio, entre muitos outros, que talvez o fizeram mais esporadicamente .

 

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publicado por picodavigia2 às 09:23





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