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AS FESTAS SÃO SINAIS QUE FALAM

Sábado, 11.01.14

Aqui transcrevo na íntegra, mais um texto de Emílio Porto, publicado em Agosto passado, no seu blog “Alto dos Cedros”.

“E ocasiões para revelar o que somos e temos.

Uma festa das nossas aldeias – seja ela qual for – revela sempre alguma coisa das pessoas, das suas capacidades, dos seus sonhos satisfeitos. Por estes dias – no Bodo de Leite, no São João Pequenino, na Feteira, na Baixa, na Liga dos Amigos, na Mãe de Deus, e talvez ainda mais – somos confrontados com imagens de piedade e devoção, de trabalho e canseira em terra e no mar, de cor e luz, de arte e beleza.

Os palcos movem-se, e quando é preciso constroem-se com meia dúzia de paus de faia ou de incenso, como se fazia antigamente, e sobre eles desfilam os mais diversos artistas, talvez os menos cotados, que não conseguem lugar nos grandes aglomerados.

Também neste campo da arte, nem todos conseguem ir aos melhores palcos. É como no futebol: nem todos sabem jogar como o Falcão ou o Nuno Gomes.

Mas têm lugar e têm espectadores que os admiram e lhe batem palmas. Quem passou por esses lugares de festa popular deu por isso. E, se calhar, alguns deles agradaram mais do que outros que tiveram a sorte de pisar os palcos das maiores festas. Vimos isso com uma dança da Terceira, na tarde de domingo passado, sobre um palco improvisado no poço da Telha. A festa do Chicharro era naquele sítio.

E nas Ermidas e Paroquiais, quando é o caso, o religioso tem o seu lugar. É bom lembrar que a festa tradicional, geralmente, começa por aí. Mas, cuidado: já não é assim em todos os lugares. As festas ficam-se apenas pela presença secular e laica. Uma atitude que importa respeitar, pois está em conformidade com as vontades das comunidades. E ninguém se admire se a tendência aumentar e se transformar em costume. Nos dias que correm, mais se acentuam as distâncias entre as cúpulas do poder e os povos.

Todavia, a ideia do poder absoluto já não consegue impor-se. Cada vez mais há pessoas que aceitam partilhar. O poder e os povos juntam-se, dão as mãos e fazem. Foi o que vimos no porto da Baixa – todos se juntaram, todos andavam satisfeitos, não faltou nada sobre a mesa posta em cima do cais.

Os produtos do mar abundaram e a crise andou longe, ninguém deu por falta dela. Tudo isto é o resultado de livre aceitação, de crença. Quem acredita faz o seu caminho. Os povos na concretização dos seus objectivos juntam-se, e fazem.

Ali recordei o Padre João Domingos – com quermesse instalada a favor da homenagem a ser-lhe prestada no aniversário dos seus 100 anos no ano de 2012. Foi ele que apontou o rumo certo – os melhoramentos do caminho da Baixa, a central comunitária, as canseiras burocráticas para a Ribeirinha ser freguesia; e nunca deixou de sentar-se diante das crianças a ensinar o Pai Nosso e a Ave Maria. Muito do seu exemplo foi determinante no ambiente urbano da freguesia. Era teimoso, diz-se, mas nunca foi absoluto, e deixou trabalho feito.

Outra lembrança de acontecimento importante foi o ramal que dá acesso àquele porto, antes por entre falésias íngremes de estafar quem subia ou descia. Foi obra das gentes da terra, sem projectos, nem adjudicações, nem concursos, obra do 25 de Abril, logo inaugurada pelo Comandante Sá Vaz, que veio da Horta, propositadamente para aquele efeito. Aquele Ramal continuará a ser popularmente chamado de Ramal do Porto da Baixa. No meu pensamento será o Ramal “Comandante Sá Vaz”. Foi eu próprio, que o fui buscar à Madalena para esse efeito, e depois voltar a colocá-lo no cais de regresso à Horta.

Todas estas imagens me ocorreram durante a tarde de domingo passado, no arraial da festa do Chicharro, bem saboroso para quantos o provaram. Ainda recebi um convite para ir ao São Caetano, lá no porto do Galeão. Coitado deste santo que nunca teve nada por causa da proximidade do Bom Jesus! Talvez por essa razão, recordando fracassos antigos, optei por ali continuar, com o canal em frente e São Jorge, invejoso, a olhar para esta rampa, toda colorida, pequena, mas cheia, muito cheia a transbordar

 Importa, sim, olhar para as capacidades e os contributos que as comunidades põem em marcha na concretização dos seus momentos escolhidos, para celebrar o que lhes vai na alma, seja de fé seja de cidadania. Importa muito ir por onde indicam e gostam. Não gostam mesmo nada é de quem lhes imponha, seja lá o que for.

Este mês tem sido pródigo. Nas esplanadas e comércios abundam os programas. São sinais positivos que importa realçar.”

       

   Texto publicado no Pico da Vigia, em 25/04/12

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