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O LAVRADOR DA ARADA

Sábado, 11.01.14

Numa das últimas aulas de um dos meus primeiros anos, como aluno, no Seminário de Angra, o Dr Edmundo de Oliveira, professor de Música, com o objectivo de sensibilizar os alunos para a pesquisa e defesa do património cultural açoriano, no que à música dizia respeito, encomendou à turma um pequenino trabalho para férias – cada um de nós devia procurar uma música popular na sua freguesia ou na sua ilha, registar a letra e a música e aprendê-la. Havia de cantá-la nas primeiras aulas, no início do ano lectivo seguinte.

Arrepiei-me. Na realidade a Música não era o meu forte. Mas lá fui para férias sensibilizado para executar a tarefa.

Ora, na Fajã Grande, os foliões do Senhor Espírito Santo, cantavam, entre outras, “O Lavrador da Arada”, uma música cuja letra era muito conhecida e apreciada. Ouvira-a, muitas vezes. Como meu pai, em tempos fora folião do Senhor Espírito Santo, cantava-a muitas vezes. Eu, habitado a ouvi-la já conseguia traulitá-la. O pior era arranjar a música. Tanto procurei, tanto labutei e tanto coscuvilhei que fui dar com ela num livro antigo que havia nos arrumos da igreja paroquial. Todo contente por ver que havia de sair airosamente daquele imbróglio e fazer um figurão na aula do Dr Edmundo, arranjei uma folha de papel com pautas e zás! Numa tarde passei a música e a letra para a pauta com a clave de sol, muito bem desenhada. Regressei ao Seminário e lá me encaminhei para a aula de música, todo contente, cuidando que, pela primeira vez, havia de fazer boa figura e ter um êxito musical de se lhe tirar o chapéu. Chegou a minha vez de apresentar o trabalho, entreguei a partitura ao mestre e comecei, com a outra cópia, a cantar, cuidando eu, de acordo com as notas que ali estavam escritas: “O la-vra-do-or d’a-a-a-ra-da, aien-com-trou-ou um-um po-o-bre-zin-in-nho eo po-bre-zin-in-nho lhe di-i-sse, ó, le-va-me no-o teu-eu car-rin-in-nho…”

Olhei para o Dr Edmundo de soslaio. Ele ria perdidamente. Quando terminei, com um suave e doce sorriso, disse-me:

- Até cantaste muito bem, sim senhor! Mas a música que cantaste não é a que está aqui!

Foi a risota geral, um gozo acentuado e eu, cheio de vergonha e vermelho que nem um pero!

O Dr Edmundo, vendo a minha atrapalhação e o meu desalento elogiou mais uma vez o meu desempenho musical, explicando que nos Açores, algumas canções, embora tendo a mesma letra, nalgumas ilhas, eram cantadas com música diferente nas outras.

Mas durante muito tempo, pelos corredores e recreios do Seminário, não se cantava outra coisa que não fosse  “O Lavrador da Arada.”, à moda das Flores.

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publicado por picodavigia2 às 15:35





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