Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A VACA LOUCA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 12.01.14

“Hoje vou contar mais uma “estória” muito antiga que meu pai me contava quando eu era bem pequeno.

Há muitos, muitos anos - contava ele - na Cuada, vivia um homem que passava todo o seu santo dia a tratar das duas vaquinhas leiteiras que tinha e que eram o seu sustento e da sua família. Tratava-as com tanto cuidado e carinho que elas, para ele, eram quase como se fossem pessoas da sua família. Eram as meninas dos seus olhos. Ai tal amor, aquele homem tinha às suas vacas! No Inverno levava-as aos pastos, durante o dia e à noite recolhia-as ao palheiro, protegendo-as dos temporais e do frio e alimentando-as com maçarocas de milho e erva bem verde e fresquinha que ele próprio acarretava às costas, das lagoas do Curralinho. No Verão, para que elas não sofressem o calor do dia, guardava-as no estábulo e levava-as a pastar aos campos pela frescura da noite.

Ora aconteceu que um certo dia, um das vacas, quando ele as ia levar a um pasto que tinha nos Lavadouros, ao passar pelo Calhau do Tufo, junto à canada que dá para a Fajã das Faias, assustou-se por qualquer razão e desata a correr a toda a velocidade por aquela canada a baixo, na direcção da Ribeira Grande. Parecia que estava louca, a “cramilhana”. Tinha o diabo no corpo, a maldita. O lavrador ficou preocupado, pois não tinha pastos para aquelas bandas e a vaca nunca tinha passado naquela canada. Por isso começou a chamar por ela:

 — Formosa! Formosa! Ó Formosa? Que diabo terá acontecido a esta vaca?

Prendeu a outra vaca à beira do caminho, num galho duma faeira e desata a correr tanto quanto podia, pela canada abaixo, atrás da rês, até que conseguiu agarrar-lhe o rabo, lá em baixo, já quase junto à Ribeira Grande. Mas não foi capaz de aguentá-la, nem impedi-la de continuar a correr como louca, a fugir, a caminhar desnorteada e a entrar por uma grandessíssima furna dentro, arrastando o domo atrás de si.

 Correu, correu sem parar, pela furna dentro e o dono sempre atrás a puxar por ela, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo homem. Lá muito para dentro, bem no interior da furna corriam, saltavam, andavam de um lado para o outro muitos homens, mas eram muito pequeninos e tinham muitas vacas, umas com galhos enormes, outras “moichas”. Havia também muita roupa estendida ao sol nas beiras dos caminhos e muitos galos também a correr de um lado para o outro e a cantar.

 O animal entretanto tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão que andava misturada com os animais domésticos. O homem nunca mais a viu, por isso, cada vez mais admirado, nem sabia como sair dali.

 Enquanto andava por ali, à deriva e sem saber o que fazer, viu pelas beiras do caminho umas plantas muito estranhas que nunca tinha visto na Cuada.

 Agarrou numa, puxou com toda a força e por fim arrancou-a. Vendo que não encontrava a vaca que o tinha arrastado até ali, resolveu voltar ao sítio onde deixara a outra, pelo mesmo lugar por onde tinha ido, trazendo na mão uma planta muito estranha, mas que seria a prova de que tinha ido aquele lugar misterioso.

 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava a planta que tinha trazido consigo e que as pessoas nunca tinham visto igual. A furna, por onde o lavrador entrou, já lá não está visível mas a planta que o lavrador trouxe passou a crescer na Cuada e só desapareceu, misteriosamente, depois da morte do lavrador.

Se esta estória é verdadeira ou falsa, não sei, mas era assim que meu avô a contava.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:05





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Janeiro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031