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A RAZÃO DE SER

Domingo, 12.01.14

O Aires entrou no “Margem Direita” e sentou-se sozinho. O empregado demorou a trazer-lhe o café e isso obrigou-o a acender um cigarro. Finalmente, o moço, meio a olhar para a televisão, meio a olhar para a rua, dirigiu-se, lentamente, para a mesa, poisando-lhe em cima a chávena, assinalada pelo “Sical”. Contrariado, esmagou o cigarro quase inteiro, desfazendo-o na borda amarelada do cinzeiro. O café esfriara, mas tomou-o assim e sem açúcar. Por fim afastou a chávena a pingar de borra e acendeu outro cigarro, enquanto aguardava, pacientemente, uma vaga para o jornal. Todos os dias a mesma encenação!

Olhou ao redor. Um tipo, já de idade avançada apoderara-se do jornal, açambarcava-o como se fosse seu, usufruindo, regaladamente, toda a informação ali contida. Pairava agora, no ar, um silêncio enigmático, entrecortado apenas pelo som da televisão e pelo roncar dos carros que transitavam na rua. O empregado estagnara, de há muito, junto ao balcão, à espera de clientes. Entravam espaçados. Um agora, depois outro e finalmente um terceiro. Tomavam um café ao balcão, acendiam um cigarro e saíam. E o Aires acabou por ficar outra vez, sozinho, com o empregado e o homem que se assenhoreara do jornal e nunca mais o largava. Hesitou entre ir-se embora ou esperar. Aparentemente a leitura aproximava-se do fim; o tipo já ia nas páginas dos anúncios. O empregado continuava estagnado e indeciso, junto ao balcão De vez em quando, pegava no comando da televisão e ia mudando de canal. Depois vinha à porta e voltava para junto do balcão, num redemoinho lento e indeciso.

Finalmente, o homem desembaraçou-se do jornal. O Aires levantou-se, de rompante, na tentativa de o capturar. Porém o empregado, adivinhando-lhe a intenção, antecipou-se e colocou-lho, prazenteiramente, sobre a mesa, num gesto já estudado e com o qual denunciava uma vontade mal ensaiada de agradar aos clientes.

Agora era o Aires o dono e senhor de toda aquela informação, o detentor do que se passara no país e no mundo. Folheou páginas a fio. Leu tudo e não leu coisa nenhuma. A maioria das manchetes e dos títulos revoltavam-no: “Criança recém-nascida abandonada em contentor”, “Senhora assaltada em plena rua”, “Idosa violada e roubada”, “Escola sem pavilhão”, “Falta de chuva preocupa os agricultores do Alentejo”, “Mais de cem trabalhadores da Pedauto despedidos”, “Governo de costas viradas para os Sindicatos”, “Tiroteios aumentam na Tchechenia”, “ Liberdade para Pinochet”... Cansou-se depressa... Suspendeu a leitura... Olhou, através da montra enevoada e sentiu uma enorme revolta...

Voltou ao jornal. Saltou colunas, desfolhou páginas e nem olhou para os anúncios. Por fim optou pelas notícias regionais, “De Norte a Sul”, naquelas páginas onde se percorre o país de lés-a-lés, onde se relata o mais ínfimo pormenor do que se passa na mais pequena e recôndita aldeia do país. Saltava de título em título, de coluna em coluna e de página em página, como se, numa viagem fantástica, percorresse todas as vilas e aldeias de Portugal. Eram notícias sucintas, mas algumas prenderam a sua atenção. Curiosamente sentiu que havia um tema que se repetia página após página, coluna após coluna e fixou-se aí, sem saber porquê... Talvez porque andasse com a ideia de escrever uma história para os Jogos Florais de Ílhavo, cujo regulamento recebera dias antes. Agarrou-se mais firmemente ao jornal e fixou-se mais na leitura dos pequenos títulos que curiosamente se repetiam quase sem cessar: “Banda prepara procissão da festa da Sra da Ventura, em Ciradela”... Mais abaixo: “Procissão do Sr da Graça não sai por falta de Banda”, e logo a seguir: “Banda dos Bombeiros de Viatodos acompanha procissão dos Capuchos” e ainda: “Pároco contra Banda, por causa da procissão da Fradela”. Na página seguinte voltava ao tema: “Em Vila Gariz, o povo revolta-se contra procissão sem Banda”; mais abaixo: “Banda de Tabuado na procissão dos Passos”; e, no canto inferior esquerdo, em espaço ainda mais reduzido: “Em Juncal, povo revoltado! Sem Banda não há procissão”. Finalmente a última página das regiões referia: “Procissão da Ventura, pela primeira vez sem Banda”, e, por fim, “Banda de Ferraz na procissão do Terço”...

Saltou para a página de “Opinião”. Novamente um título lhe chamou a atenção: “Bandas Musicais, um património a defender”. Interessou-se e começou a ler aqui e além, o que mais lhe prendia a atenção: “...Desde os tempos mais remotos que a música andou associada a todas as manifestações festivas do homem, quer no aspecto religioso, quer no profano... A música está pois inerente a toda a vida humana, quer no seu aspecto lúdico, quer no religioso, quer até no social, cultural e, porque não, no laboral. Por isso mesmo, ela não pode ser apenas património de artistas e intelectuais ou de grandes cidades ou centros populacionais onde a vida cultural é mais intensa. Ela também pertence ao povo humilde, talvez mesmo analfabeto, das pequenas aldeias e dos lugares mais recônditos, mas que têm uma sensibilidade e um gosto musical, como os grandes génios da música, embora se manifeste de forma muito diferente e atinja outros objectivos... As Bandas de Música, em muitas localidades também chamadas Filarmónicas, são uma das formas de preservar esta riqueza cultural do nosso povo. A sua criação resulta, geralmente, dum conjunto de esforços comuns, dum trabalho de grupo, por isso mesmo elas têm também uma componente social muito grande, pois congregam esforços e sacrifícios, para que representem dignamente a comunidade em que estão inseridas. É sobretudo nas pequenas aldeias, onde infelizmente rareiam os espectáculos e as realizações culturais e entre povo simples e humilde, mas dotado de grande sensibilidade e riqueza musical, que as Bandas Musicais são a expressão mais pura duma verdadeira cultura musical. Elas permitem, também, uma aproximação das pessoas, uma conjugação harmónica de valores e interesses, indiciam uma notável forma de cultura popular e permitem uma procura acentuada de padrões de interesse comum...” Saltou mais umas linhas... Mais adiante: “...É sobretudo nas festas e arraiais populares que esta riqueza cultural se manifesta, mas é nas fervorosas procissões de cada festa religiosa que ela tem o seu epicentro...” Por fim, concluía o articulista: ”Banda e procissão, um binómio que a cultura popular enraizou e desenvolveu, que agregam e conjugam um sensibilidade artística, uma criatividade espontânea e uma fé inaudita.”

- Bom – respirou o Aires, fechando e dobrando pausadamente o jornal – e eu a cismar que o tema escolhido para os Jogos Florais de Ílhavo não tinha razão de ser!...

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publicado por picodavigia2 às 22:40





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