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AS BANANAS

Terça-feira, 14.01.14

Todos os anos, nos fins de Outubro, a garotada da escola era recrutada para acarretar e arrumar a lenha, que, durante o  ano, arderia no lar de padre Mateus.

Depois de carreada por carros de bois, a lenha era serrada, cortada e rachada com serras e machados, manejados por valentes braços, que não se poupavam a esforços, nos domingos à tarde, pois todos acreditavam que, sendo destinada ao pároco, não era pecado trabalhar ao domingo.

Finalmente o arrumo na velha e esconsa loja, por baixo da residência paroquial, era tarefa da garotada, que assim se unia aos adultos, dando cumprimento ao estabelecido no quinto mandamento da Santa Madre Igreja – “Contribuir para as despesas do culto e sustentação do clero, segundo os legítimos usos e costumes e as determinações da Igreja. “

Apesar do esforço que a sua consecução exigia, a tarefa era ardentemente desejada  pela maioria das crianças, porquanto, por um lado, correspondia a um feriado e, por outro,  terminava sempre com um cálice de licor caseiro e uma biscoito ou um figo passado a cada um.

Por isso, quando a Dona Perpétua, anunciou que os rapazes, no dia seguinte, não deviam trazer a sacola, porque iriam arrumar a lenha do senhor abade, apenas o Antunes, o Gameiro e o Tonico se assumiram como objectores de consciência à sacrossanta tarefa.

- O padre que a arrume! – Sentenciou o Antunes.

- Ou que pague a quem lha arrume, porque isto de trabalhar para aquecer não é comigo – acrescentou o Tonico.

- A mim é que não me apanha lá! – Decretou, muito senhor de si, o Gameiro.

D. Perpétua apercebendo-se de tais impropérios, que, em sua beatífica opinião, quase rondavam a heresia e o ateísmo, impôs de forma categórica:

- Se não forem acarretar e arrumar a lenha do Senhor Prior ficam a fazer cópias, ditados e contas de dividir todo o dia. É certinho!... Ai se é!...

Perante tão dramática e indesejada alternativa, a bravata oposição dos três garotos ruiu. E optaram por colaborar, embora contrafeitos, no arrumo da lenha.

O trabalho era supervisionado pelo sacristão, por isso qualquer tentativa de fuga, esquivança, ou menor empenhamento na tarefa era, no mesmo dia, comunicado a D. Perpétua. E esta não perdoava – nunca menos de vinte palmadas com a férula.

Daí que os três presumíveis objectores de consciência desistissem dos seus intentos de sabotagem da tarefa e se empenhassem, da melhor forma, embora contrariados, em arrumar a lenha do reverendo.

Ao cair da noite, quando toda a lenha estava empilhada, a Genoveva, como de costume, apareceu com dois cálices, uma garrafa de licor de ananás, menos de meia e um pratinho de biscoitos, declarando antecipadamente:

- É só um biscoito a cada um! E licor, só meio cálice que é para não fazer mal aos meninos!

O Antunes, o Gameiro e o Tonico, entendendo que aquele pagamento era injusto porque inadequado ao trabalho prestado, sobretudo pelo facto da entidade patronal ser um eclesiástico, resolveram entrar em reivindicações.

“Biscoitos, pelo menos, podiam ser dois, que não fazem mal!”

Os seus protestos, no entanto, de nada serviram e esbarraram com a persistência da Genoveva, que permanecia na sua:

- É só um biscoito a cada um! E nada mais!...

Os três garotos retiraram-se revoltados, jurando que aquilo não podia ficar assim e haviam de vingar-se.

Ora o padre Mateus tinha junto de casa um pequeno quintal, onde a Genoveva plantava couves, alfaces e outros legumes. Num dos cantos, junto à parede que dava para o caminho, havia uma pequena plantação de bananeiras, das quais pingavam três enormes cachos de bananas, que, dia após dia, iam amadurecendo.

O Gameiro, o mais forte em Matemática, fez as contas:

- Vinte escudos, corresponde a um alqueire de milho e é quanto se paga por um dia de trabalho. É o que deve custar cada cacho. Ora, quantos somos nós?

- Três! - Respondeu o Tonico, de imediato.

- E os cachos? Quantos são?

- Se bem os contei – acrescentou o Tonico – também são três.

- Então, está certíssimo! – Concluiu o Gameiro. – Um para mim, outro para ti e outro para o Antunes. Não podia calhar melhor!...

O Antunes e o Tonico ainda ripostaram:

- E se alguém nos vê?!

- E onde os vamos esconder? É que não comemos as bananas todas num dia!...

- Está tudo programado cá por mim! Esta cabecinha pensa em tudo! – Acrescentou o Gameiro. - A mim ninguém me vê!... A ti só te vêem se quiseres!...

- Mas... o sítio... o sitio para guardar os cachos sem que ninguém os veja? Não comemos as bananas todas num dia!

- Deixem isso comigo! – Respondeu o Gameiro.

O desaparecimento das bananas do quintal de padre Mateus causou grande consternação na freguesia e foi alvo de grandes comentários e de inúmeras suspeitas.

Mas descobrir o ladrão foi, de todo, impossível.

Todos os dias, enquanto as bananas duraram, o Antunes, o Gameiro e o Tonico dirigiam-se para as Aguadas, Rua Nova e depois seguiam para as Furnas Pequenas.

A Maria Bengala, espreitando pela janela, bem se admirava:

- Para onde irão estes três todos os dias? Coisa boa, não andam a urdir!

 

A festa de Cristo-Rei aproximava-se. Dias antes, D. Perpétua impôs autoritariamente:

- De tarde, venham limpinhos e tragam roupinha melhor. Às três horas todos se vão confessar, para comungarem na festa de Cristo-Rei.

O Antunes, o Gameiro e o Tonico entraram em pânico. Olharam-se e embranqueceram. Como é que iam confessar ao padre Mateus, se tinham sido eles os autores do roubo das bananas, sendo elas do próprio abade?

Na hora do intervalo, depois do almoço, ultimaram-se estratégias:

- Cá por mim digo que pequei por desobediência – propôs o Tonico e, perante o espanto do Gameiro, concluiu – Então não há um mandamento da Lei de Deus que manda obedecer a pai, mãe e outros legítimos superiores. Ora minha mãe e a D. Perpétua já me deram ordens para não roubar. Desobedeci-lhes! Foi um pecado! É o que vou confessar...

- Boa! Que rica teoria! Han! – Acrescentou o Gameiro. E virando-se para o Antunes – E tu, também não gamaste nada, pois não?!

- Eu também não! – Concluiu, prontamente, o Gameiro. – O meu pecado foi de gula! Comi bananas a mais... É o que eu vou dizer...

- Ai sim! Sendo assim também não fica o roubo para mim – acrescentou o Antunes.

- Então o que vais dizer? – Interrogaram os outros dois.

- Eu vou dizer que pequei por omissão! Vou dizer que vos vi, aos dois, a roubarem as bananas ao padre e não lhe disse nada.

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publicado por picodavigia2 às 10:02





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