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GENESIS I

Segunda-feira, 17.06.13

O amplo largo fronteiro à assimétrica igreja de Santa Luzia estava a abarrotar de pessoas, de conversas e de açafates repletos de bolos de véspera, assinalados com chavões e cravejados de flores. Um espectáculo de cor, de aromas e de simplicidade. Aguardava-se a chegada do pároco que havia de percorrer um a um, os quatro corredores, ao lado dos quais se dispunham os açafates, ordenados e arrumados em cima de bancos, como se fossem gigantescos grãozinhos de milho, semeados em regos paralelos, a germinar nos campos, por entre a terra húmida e fortalecida.

A tarde estava sombria e, do lado de São Jorge soprava um vento húmido, aguerrido e dominador. Cuidava-se mesmo que podia chover. Essa a razão por que o “mordomo” da festa e os seus colaboradores haviam equacionado a hipótese de colocar os açafates no salão paroquial, contíguo à pequena capela que ostentava, no frontispício branco, uma coroa granítica, preta, sobrevoada por uma pomba da mesma cor. Paradigmáticos símbolos do Divino Espírito Santo, nas ilhas açorianas! Mas o tempo aparentava melhoras e o povo preferia ver, observar de perto, sentir e presenciar toda aquela celebração em louvor da Terceira Pessoa da Trindade, ali ao ar livre, entre a montanha e o mar, entre o fogo e água, com o céu a servir-lhe de resguardo.

Não tardou muito e o pároco surgiu, lá do fundo, emergindo da igreja, paramentado de alva branca e estola vermelha, acompanhado de um acólito a segurar-lhe a caldeirinha da água benta e o hissope com que o pão havia de ser aspergido. À frente dois foliões, com tambor e pandeireta – pum-pum, pum-pum – trem-trem, trem-trem – entoavam loas ao Paráclito. O pequeno cortejo aproximou-se dos açafates. Os foguetes ribombaram e o povo fez silêncio. Encharcando o hissope que o acólito lhe apresentava na água da caldeirinha, o pároco, percorrendo os corredores delineados entre os açafates, dirigia preces a Deus, ao mesmo tempo que atirava respingos de água benta sobre o pão. O povo, silencioso, benzia-se. Alguns, mais crentes, bichanavam orações. Terminada a bênção de todos e de cada um dos açafates, o pároco, despojando-se das vestes litúrgicas, retirou-se, enquanto a filarmónica do Cais, entoava, com solenidade e mestria, o Hino do Espírito Santo. Muitos dos presentes acompanhavam os acordes musicais e os solos dos clarinetes, das trompetes e dos cornetins requintados, cantarolando em voz baixa: “Alva pomba que meiga apareceste, ao Messias no Rio Jordão…”

O bar, ali ao lado, que, em respeito religioso pelo divino, quase havia parado durante a bênção, ressuscitava, agora, o reboliço inicial das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas e dos copos de vinho, perfumado com o negro enxofre da lava basáltica, onde as vides haviam germinado. Foguetes ribombavam em uníssono com o repicar dos sinos. O apinhado de gente cada vez mais volumoso aguardava, expectante e ansioso, a hora de “receber o pão”.

Dezenas, centenas, milhares de bolos de véspera, assinalados na parte superior com os chavões dos que os haviam ofertado, enfeitados com flores multicolores, passavam, agora, das mãos dos distribuidores para as de todos os que ali, pacientemente, haviam aguardado o momento mágico, transcendente e emocional, em que recebiam aquela dádiva do Divino, oferecida pelo humano.

- Ó sinhõ, - explicava Ti Manuel da Silveira, ao mesmo tempo que com a mão direita ajeitava a aba do chapéu de feltro a tapar-lhe o cocuruto e estendia a esquerda para receber uma véspera. – Ó sinhô, isto é um costume muito antigo. Foram os nossos antepassados, há muitos, muitos anos que fizeram esta promessa. E pode acreditar que enquanto houver gente nesta freguesia, esta promessa há-de ser cumprida todos os anos. Lá isso há-de... – Depois apontando lá para os lados da montanha, que se ostentava tímida e enevoada: – O sinhô está a ver ali em cima aquele cabeço, e um outro mais além e ainda outro? Pois são sete, ao todo, veja bem, sete e olhe que de todos eles, há muitos, muitos anos, saiu muito fogo, lava pura, vinda de dentro da terra e que deslizou por aqui a baixo, a correr para o mar como se fosse um rio e destruiu isto tudo. Casas, animais, vinhas e campos, tudo… Tudo, o fogo levou. Ficaram poucos, mas foram esses que, naquele momento de enorme agonia, fizeram esta promessa: “Se o fogo parar, os que escaparem hão-de dar pão a todos os pobres, neste dia, enquanto o mundo for mundo, em louvor do Senhor Espírito Santo”.

O povoamento do local onde hoje se situa a freguesia de Santa Luzia do Pico, remonta, muito provavelmente, aos primórdios da chegada dos primeiros povoadores à ilha montanha, neste caso oriundos do Faial e enviados por Job Dutra que “estando à sua janela, vendo esta ilha do Pico, mandou um barco de gente para a povoar”. Fê-lo, no entanto, Job Dutra, algum tempo depois de Fernando Álvares Evangelho, já ter entrado na ilha, pelo sul, saltando “em terra onde se diz o penedo negro, e com ele um cão que trazia”.

No entanto só quase dois séculos depois, em 1617, esta localidade foi elevada à categoria de freguesia, sob a invocação de Santa Luzia, tendo, durante os anos anteriores pertencido e estado dependente da vizinha freguesia de Santo António. Durante esses anos, nos finais do século XVI e a expensas de um dos seus habitantes, Vicente Pereira Furtado, foi construída uma ermida dedicada a Santa Luzia. Tratava-se de um templo pequeno, pobre e coberto de colmo que, apesar de tudo, serviu de igreja paroquial durante vários anos, situando-se, junto ao altar-mor, o túmulo do seu fundador.

Foi desta modesta ermida, derrubada em 1718, a quando da crise sísmica e eruptiva que destruiu praticamente tudo o que era construção humana e cobriu a terra com uma espessa camada de lava, escoada em grande largura e por uma extensão de nove quilómetros, até ao mar, que nasceu a actual igreja paroquial de Santa Luzia. Porém a construção deste templo, já com a categoria de igreja foi lenta e por fases, dadas as dificuldades económicas existentes. Em 1800 voltou a ser reedificado, obtendo então, ao que parece, a fisionomia actual, embora sem as torres. Só em 1844 é que se procede à construção de uma das duas torres assimétricas que possui e só em 1876 é que foi pintado o retábulo do altar-mor e construída a outra torre.

Na ermida primitiva celebrou-se durante muitos anos, no início do povoamento, o culto pagão de oferenda dos olhos de animais, acompanhado por uma prece causada pelo medo de perder a visão. Possivelmente e porque a maioria das oferendas seriam olhos de galos, essa celebração ficou conhecida por Festa dos Galos. Mais tarde este culto terá sido “baptizado” pela igreja católica, dedicando o templo a Santa Luzia, padroeira dos oftalmologistas e dos que têm falta de visão.

A freguesia de Santa Luzia do Pico estende-se desde o interior da ilha até à orla marítima e é composta por várias localidades, como o Canto do Mistério, os Mistérios de Santa Luzia, os Fetais, o Lajido do Meio, o Meio Mundo, a Miragaia, a Ponta da Baixa, a Ponta Negra, a Rua de Cima, o Lajido, os Arcos e o Cabrito, localizados estes últimos, junto ao mar. É nestes lugares mais próximos do mar que existem várias ermidas como é o caso da Ermida de Nossa Senhora da Pureza, cuja construção recua ao século XVII, a Ermida da Rainha do Mundo edificada no mesmo século e a Ermida de São Mateus da Costa, construída no século seguinte.

 Além destas construções, a marca humana na paisagem da freguesia é ainda possível ver-se no Império do Divino Espírito Santo, nas Ermidas de São Domingos e de São Vicente e em muitos outros edifícios que se evidenciam, pela sua grandiosidade arquitectónica.

Em Santa Luzia localiza-se uma das Zonas da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, onde ao longo de muitos séculos se produziu um dos mais famosos vinhos Verdelhos dos Açores, que era exportado para a Europa continental, chegando a ser servido à mesa dos czares da Rússia. Este vinho tem o segredo da sua qualidade nas lavas negras, onde a pedra de cor preta era fortemente aquecida pelo calor do Sol, dando assim origem a um vinho licoroso, elevando-lhe o teor alcoólico.

A história desta freguesia é profundamente marcada por duas erupções vulcânicas, uma ocorrida no século XVI e uma outra nos princípios do século XVII, mais precisamente em 1718. Esta última teve grande violência, tendo procedido à expulsão de grandes quantidades de lava, cujos rios, em alguns casos, chegaram a percorrer distâncias de nove quilómetros até atingirem o mar, entre o Porto do Cachorro e o Lajido, matando animais, destruindo casas e campos, desfazendo tudo o que até aí havia sido construído e edificado pelo homem. Dos que sobreviveram uns decidiram reconstruir de novo e sobre a própria lava, aquilo que o infortúnio lhes havia retirado, outros, talvez porque totalmente aniquilados nos seus bens e nos seus haveres, decidiram partir. Um deles chamava-se José Pereira de Azevedo.

José Pereira de Azevedo deitou a mão à taramela da porta de casa já noite escura. Na cozinha, mais atónita do que atarefada, a mulher segurava, no regaço, o pequeno António, num berreiro aflitivo, angustiante e pouco habitual. No lar, entre duas pedras toscas, fumegava um lume frouxo, a definhar-se de instante a instante e como que a deixar a cozinha envolta em penumbra. Sobre o lume, um caldeirão de ferro negro e tisnado, prestes a suspender a cozedura.

Deste há muito que Madalena de São João, numa aflitiva agonia, desistira de atiçar o brasido com uma acha ou sequer com um garrancho. Aguardava com uma ansiedade desmesurada e uma aflição desmedia a chegada do marido. Por isso, mal ouviu o barulho do levantar da taramela da porta da cozinha, que dava para um pequeno pátio exterior, agarrou ainda mais o filho, apertou-o ao peito com maior intensidade e veio postar-se frente à porta, ao mesmo tempo que o marido a abria:

- Credo, homem! Que te demoraste tanto! E eu aqui, numa aflição tão grande! Numa agonia por ele, por mim e por ti! Ainda há pouco, tudo voltou a tremer! Sentiste? Parecia que a casa vinha abaixo… E eu aqui… Sozinha, com ele ao colo… Cheia de medo, sem saber onde me esconder, para o proteger! Agarrei-o, debrucei-me sobre ele! Se a casa desabasse, se estas paredes caíssem eu havia de o proteger e o Senhor Espírito Santo havia de fazer o milagre de salvar o nosso menino.

José arrumou num canto da cozinha o alvião e o foicinho que trazia ao ombro, limpou as mãos num pano amarelado, suspenso da borda de um lava mãos de ferro, arrumado junto do lar, pegou no filho ao colo e abraçou-se a ela, na tentativa de a acalmar. Talvez a sua presença transmitisse tranquilidade ao filho e permitisse à mulher recuperar o ânimo perdido.

Na realidade, Madalena de São João, sentindo a presença reconfortante do marido, calou-se, por uns minutos. Também o menino, vendo ali o pai e, sentindo os seus braços a envolver-lhe o corpito, pareceu aquietar-se um pouco. José sabia que todas as palavras que proferisse naquele momento seriam uma farsa em que ela não acreditaria, mas arriscou:

- Também não foi tanto assim, mulher. Foi grande, foi um grande abalo de terra, é verdade, mas os da semana passada foram bem maiores. – E sentindo que a mulher ia acalmando enquanto o ouvia, acrescentou com mais convicção: - Deus teve piedade de nós. Protegeu-nos e protegeu a nossa casa. Cuidei que isto já tinha acalmado… E há-de acalmar, Deus é pai de misericórdia - e com gestos de carinho e blandícia tentava distrair o pequeno António que, de imediato, estendeu os bracitos vacilantes na direcção da mãe, a querer, também, encavalitar-se no colo dela.

A arfar cansaço e suor, José, aconchegando a si o pequeno, sentou-se num banco, junto ao lar. O lume que a mulher agora se entretinha a reanimar, iluminava-lhe o rosto tisnado de sol, que o filho fixava com ternura.

De repente, um outro abalo, mais forte, mais vertiginoso, mais abrupto, mais terrível, mais apavorante e mais ameaçador do que todos os que durante aquele anoitecer, até então se haviam feito sentir. Seguiu-se um forte estrondo, que acometeu com enorme violência o velho casebre. Madalena expeliu um grito de horror, de aflição e de angústia, ao mesmo tempo que invocava a protecção divina. José, procurando manter uma calma que não tinha, tentava, sem proveito, proteger com o seu, o corpo do filho. Fora um abalo fortíssimo e demorara uma eternidade. Algumas das frágeis paredes do velho casebre começavam a ruir. José Pereira de Azevedo, aconchegando mais o pequeno ao colo, deitou o braço sobre os ombros da mulher e, empurrando-a, à sua frente, saiu de casa, numa correria louca e numa aflição inexaurível.

Na realidade, desde há alguns dias que abalos muito fortes, tremores de terra assustadores, estrondos tão espantosos que pareciam trovões secos, se haviam feito sentir, não apenas, em Santa Luzia, mas também ali ao lado, nas Bandeiras e em muitos outros lugares e freguesias do Pico. Uma tragédia terrível que atormentava e punha em alvoroço as populações. Muitas pessoas já pernoitavam na rua, algumas casas já haviam ruído quase por completo. O medo e o terror haviam-se apoderado de todos.

Aquela noite porém estava a ser a mais trágica, a mais sinistra e a mais desoladora. Uma noite de terror permanente! A pior de sempre! Já iam em mais de meia-dúzia o número de abalos sentidos, desde o anoitecer. Alguns com uma intensidade fortíssima e uma duração prolongada e assustadora.

As ruelas circundantes ao casebre de José Pereira de Azevedo, ao lado da pequena ermida de Santa Luzia, embora fosse Inverno e a noite estivesse muito fria e escura, estavam cheias de gente, de medos, de desânimos, de preces e de súplicas ao Altíssimo. A aflição, o medo, a angústia, o desespero apoderavam-se de todos. Amparando-se e confortando-se uns aos outros, novos e velhos, homens e mulheres, jovens e crianças, numa prece comunitária, imploravam a misericórdia e a compaixão divinas, pediam, publicamente, perdão pelos seus pecados, ao mesmo tempo que se iam enrolando com cobertores de lã, a fim de se protegerem do frio.

Há noites e noites que era aquele martírio sobressaltado, aquele susto contínuo, aquela maldição permanente! Tudo havia começado quase no início do ano e já íamos a seis de Fevereiro. Toda a população vivia num enorme angústia. Todos estavam apavorados e cheios de medo. Quase não pregavam olho, durante a noite, e se adormeciam, era com um passar por brasas, para, logo a seguir, acordarem com um estrondo maior do que o anterior. A pequena casa de José Pereira de Azevedo e os outros casebres de pedra negra e solta, espalhados por aqui e por acolá, ao redor da pequenina ermida, só por milagre do Divino Espírito Santo ainda não haviam ruído por completo.

 

Estávamos nos primórdios do século XVIII, mais concretamente no início de Fevereiro do ano de 1718 e não apenas a freguesia de Santa Luzia mas quase toda a ilha do Pico vivia num medo e numa angústia permanente desde há algumas semanas assoladas por abalos de terra, constantes, permanentes, pavorosos e aterradores.

A noite embora permanecendo escura e fria, aproximava-se da madrugada. Aqueles trovões secos, terríveis e temíveis, que a todos assustava e horrorizava, agora eram mais espaçosos e sobretudo bem mais fracos. José Pereira de Azevedo, cuidando que o pior já passara e temendo que o frio da noite lhe engelhasse o filho, decidiu regressar a casa, com a mulher e o pequeno António. Era outro conforto, embora a segurança fosse quase nula. A mulher, inicialmente, manifestou determinada recusa, mas por fim cedeu. Não havia de ficar sozinha, ali ao relento, e o marido em casa com o filho. Foi sobretudo o argumento teimosamente sustentado pelo marido de que o frio da noite iria fazer muito mal ao pequeno que a demoveu da sua persistente teimosia. Regressaram os três a casa. Primeiro adormeceu o filho e, algum tempo depois, de tão cansado que estava, o pai. Madalena de São João, nervosa e temendo o pior, manteve-se acordada.

Não tardou muito! Seriam umas seis horas da madrugada, quando José Pereira de Azevedo, pese embora tivesse adormecido poucos momentos antes, acordou sobressaltado com um enorme, terrível e monumental estrondo. Ao seu lado a mulher, que, antes, na velha enxerga de pragana se havia voltado e revirado, vezes sem conta, sem pregar olho, contara bem, muito bem. Dezasseis vezes! Dezasseis vezes durante aquela madrugada infernal, a terra tremera em horrendos abalos, seguidos de grandes estrondos. O último, porém, aquele que acordara o marido, já quase madrugada, fora o maior, o mais horroroso, o mais tremendo, o mais demolidor. Parecia que a casa, a montanha, o mundo lhes desabava em cima.

Há noites e noites que era aquele martírio sobressaltado, aquele susto contínuo, aquela maldição permanente. Quase não pregavam olho e se adormeciam, era como um passar por brasas, para logo acordar com um estrondo maior do que o anterior. O pequeno casebre de pedra negra e solta dos Azevedos, só por milagre do Divino Espírito Santo ainda lhes não caíra em cima. Em muitas casas da freguesia, algumas mesmo ali, ao lado, já não havia pedra sobre pedra.

Tresloucada e aos gritos, antecipando-se ao marido, Madalena saltou da velha enxerga num ápice e agarrou-se ao corpo do pequeno António, que dormia, ali ao lado sobre um tapetes de palha, enrolado em grossos cobertores de lã, como que a impedir que as pedras que rolavam das paredes vacilantes caíssem sobre o filho. Depois agarrando-se e amparando-se ao marido, com o garoto muito embrulhado e muito aconchegado ao seio, saíram, os três, atónitos, assustados, porta fora.

Ainda não amanhecera por completo mas a madrugada, apesar de escura, parecia clarear com as revoadas dos trovões secos e com os estrondos sucessivos e aterradores, vindos das encostas da montanha. Atónita, apavorada e entontecida com o ribombar daqueles trovões secos, toda a população, temendo o pior, saíra para o relento da madrugada. Dos casebres ao redor, novos e velhos, homens e mulheres gritavam em alto berreiro, confusos e apreensivos, tentando encontrar um outro familiar que havia permanecido no interior dos velhos casebres.

De repente e por entre o escuro da madrugada e o cada vez mais aterrador ribombar dos ruídos, uma enorme clarão. Começava, lá no alto, entre a montanha quase invisível e o firmamento adormecido, um fogo terrível, vermelho, assustador que se escoava como se fosse um rio, na direcção das casas, dos campos, das hortas, das vinhas e do mar. Um verdadeiro inferno! Parecia que o mundo acabava naquele momento, ali sem salvação ou redenção possíveis para ninguém. O terror era geral e o pânico indomável. Cada qual procurava, sem proveito, os seus familiares.

A manhã até parecia que se clarificava com aquele fogo estranho e pavoroso, por entre um alvoroço louco e imaginável. O fogo descia cada vez com mais veemência, pelas encostas sobranceiras ao povoado, na direcção do mar e começava a atingir os casebres mais pobres mais pequenos, construídos no sopé da montanha, do lado das Bandeiras. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria sem fazer coisa nenhuma, tentando procurar os familiares desaparecidos. Era um alvoroço tresloucado, uma gritaria inaudita, um desassossego nunca visto. Parecia que a abóboda celeste se havia transformado numa enorme bola de fogo que caía sobre a ilha, aniquilando-a e destruindo-a por completo.

O povo, cada vez mais assustado, mais aflito e mais oprimido com aquela estranha e aterradora catástrofe, não arredava pé de junto da ermida edificada em memória da sua padroeira, Santa Luzia. A manhã continuava a crescer em claridade, em medos, em gritos e em alvoroços loucos, imagináveis. O fogo continuava a deslizar, imparável e demolidor, pelas encostas da montanha, na direcção do mar, com uma velocidade vertiginosa, com uma veemência indomável e com uma persistência implacável, soterrando vinhedos, destruindo campos, desfazendo caminhos e atalhos, ameaçando os pequenos casebres, transformando a extensa encosta entre Santa Luzia e as Bandeiras, num autêntico mar de lava sulfúrica, vermelha e incandescente. Já havia casebres soterrados, os mais pobres, os mais pequenos, os mais distantes, os construídos no sopé da montanha, do lado que dava para as Bandeiras, mas que se sabia já haviam sido abandonados. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria tresmalhado, louco, num alvoroço incontrolável, tentando fazer tudo sem fazer coisa nenhuma. Procuravam-se refúgios, mas não os havia.

José Pereira de Azevedo, tentando evitar os gritos de raiva e de dor da mulher e o choro inocente mas prolongado e intenso do filho, ainda mal acordado e sem perceber o que se passava, tentou aproximar-se do centro da freguesia, do pequeno largo contíguo à igrejinha, onde permanecia a maioria do povo, uns dentro da ermida outros fora, mas todos invocando, incessantemente, a protecção de Deus, através da intercessão da sua padroeira, a Gloriosa Virgem e Mártir Santa Luzia.

Mas também ali, como em toda a parte reinavam a aflição, o desespero, a angústia e um medo medonho e gigantesco. De perto e de longe chegavam murmúrios e lamentações. É que aquele fogo misterioso, saído do interior da terra, de instante para instante, avançava mais ameaçador, mais temeroso, mais indomável. Já destruíra muitos campos, atingira muitos currais matando ovelhas e cabras, aniquilando prados, ardendo florestas, vinhedos, aproximando-se, cada vez e mais, das casas, sobretudo das que ficavam mais distantes do centro do povoado. O ar tornava-se quente e sufocante e o cheiro a enxofre e a queimado aumentava assustadoramente. O fogo, correndo cada vez mais na direcção do mar, por onde passava, parecia converter e transformar tudo em pedra de lava ardente.

Quando José Pereira de Azevedo, acompanhado da mulher e do filho, chegou ao largo fronteiriço à ermida de Santa Luzia o dia já começava a clarear e, do lado de São Jorge, soprava um vento forte e seco que atiçava ainda mais a lava incandescente que, assustadoramente, parecia ameaçar toda a ilha. Aqueles abalos, aquela espécie de trovões secos e assustadores que se haviam sentido naquela noite e nas anteriores, no entanto, haviam parado ou pelo menos já não se ouviam com tanta intensidade. Agora era o fogo e apenas o fogo que assustava e destruía tudo por onde passava.

Aglomeradas junto aos umbrais da pequena ermida homens, mulheres e crianças rezavam, oravam, pediam perdão e suplicavam a protecção divina. O vigário Francisco Dias já havia terminado a missa. Do átrio de entrada da pequena ermida, juntamente com Frei José das Cinco Chagas, dirigia aos fiéis palavras de paz e tranquilidade, incitando-os ao arrependimento, pedindo-lhes que suplicassem o perdão divino, garantindo-lhes que Deus era pai de misericórdia e que havia de ter compaixão de todos os seus filhos. Que todos se arrependessem dos seus pecados porque a misericórdia e o perdão de Deus eram infinitos.

Passaram-se algumas horas que pareceram anos. O povo a chorar, a gritar, a rezar, a suplicar perdão e auxílio e o fogo a jorrar do centro da terra como se fosse sangue vil e destruidor, que, implacavelmente, caía como castigo sobre aquele povo bom, simples, humilde e temente a Deus.

Seriam umas dez horas, quando abalos maiores e mais assustadores voltaram a fazer-se sentir ao mesmo tempo que a torrente de lava se tornava maior, mais ameaçadora, mais intensa, mais destruidora e mais mortífera. O povo já não tendo forças para continuar a implorar, a pedir e a suplicar, ajoelhou massivamente como se fosse levado por uma força estranha, misteriosa e sobrenatural. Muitos prostravam-se por terra. Cuidava-se que era o fim de todos e de tudo! Um homem, apenas um homem, no entanto, se mantinha em pé, firme e solene, porque crente e confiante em Deus, apesar de velho e alquebrado pelo tempo, pelos anos e pela pobreza – Frei José das Cinco Chagas. Ao ver o povo prostrado, silencioso e perplexo, entrou no templo e, dirigindo-se a um dos altares, retirou dele a coroa do Divino Espírito Santo, que ali estava permanentemente, rodeada de círios e de flores, exposta à veneração dos fiéis, trazendo-a, solenemente, até ao exterior do templo, enquanto com a sua voz trémula e rouca, entoava o “Véni Creator Spiritus”.

Terminado o hino, erguendo bem alto, nos seus braços trémulos, a coroa de prata, símbolo do Paráclito, e abençoando com ela o povo ali presente, exclamou em tom de grande convicção:

 - Meus irmãos: Tenhamos fé no Espírito Santo Divino e confiança no Seu amor por nós. Hoje, dia 1 de Fevereiro de 1718, nós todos, habitantes desta freguesia de Santa Luzia, do Pico, aqui reunidos, em momento de tão grande aflição e agonia, apesar de sujeitos a este enorme e temível castigo, confiamos na bondade e no amor de Deus, por isso mesmo, prometemos solenemente ao Divino Espírito Santo que se ele fizer cessar estes temíveis tremores e afastar de nós este fogo aniquilador e não nos destruir, se o Divino Espírito Santo nos salvar desta tormenta, todos, mas mesmo todos nós e os nossos filhos e os filhos de nossos filhos e todos os que hão-de habitar esta terra sacrificada de Santa Luzia, nos anos vindouros, prometemos solenemente todos os anos, enquanto o mundo for mundo, no dia da festa de Pentecostes, com o trigo das nossas terras, amassar e cozer pão, muito pão e distribuí-lo por todos os pobres e por quantos dele necessitarem para saciar a sua fome. Assim o havemos de fazer sempre em louvor do Divino Espírito Santo, como fizeram os nossos pais e os nossos avós desde que aportaram a esta ilha do Pico e a todas as outras ilhas dos Açores.

Foi então que se ouviu, subindo ao céu, um grito uníssono, espontâneo, sincero e crente:

- Assim o prometemos e assim o faremos, pelos séculos dos séculos. Amén!

Fez-se um silêncio enorme, enigmático, perplexo, inexplicável e quase incompreensível, que durou alguns minutos. Apenas se ouvia o roncar tremendo dos trovões a misturarem-se com o ciciar deslizante da lava efervescente e os latidos dos cães, também eles em enigmática aflição. O povo, interiorizando as palavras de Frei José das Cinco Chagas, como se quisesse fixá-las para sempre na memória de todos, gravá-las em letras incorruptíveis no coração de cada um, rezava, implorava, meditava e suplicava a protecção do Divino Espírito Santo, aguardando que as suas fervorosas e humildes preces chegassem junto ao trono do Altíssimo. Os momentos eram silenciosos, longos, doridos e amargos. O tempo, tingido de angústia e sofrimento, demorava e, como que se transformava-se numa eternidade

Muito a custo se passaram algumas dolorosas e angustiantes horas, após as quais, para espanto de todos, aqueles terríveis e fortíssimos tremores começaram a diminuir de intensidade e a ouvirem-se como se fossem apenas um eco. Ao mesmo tempo aquele rio de lava incandescente e destruidora, que descera ininterruptamente pelas encostas da montanha, como que parecia, agora, menos intenso e, aos poucos, o imensurável manto de lava que se havia derramado sobre toda aquela zona, entre Santa Luzia e Bandeiras, parecia ir adquirindo uma cor mais amarelada, mais escura e mais estranha.

Ao meio dia já nem o eco daqueles tenebrosos e aterradores trovões secos se ouvia, a torrente de lava parecia ter-se escoado por completo e o chão desde há muito que não tremia. Um Sol sereno, quente e acariciador desceu sobre a parte sul da ilha, envolvendo-a com um manto doirado. O vento começara a soprar mansamente de Oeste e o mar tornara-se tranquilo e mais azulado. Um misto de perplexidade e alegria como que começava a inundar os ânimos de quantos até então se encontravam exaustos e prostrados no pequeno átrio da ermida. Um a um, os habitantes de Santa Luzia, que até então haviam permanecido deitados, ajoelhados, prostrados, enrolados em cobertores e em sacos de serapilheira, iam-se levantando, na expectativa de que aquele, afinal, ainda não seria o último dos dias de suas vidas. O espectro do medo, do terror e da morte ia-se desanuviando, estranha e lentamente, como um amanhecer de verão que, aos poucos, se ia clarificando. O povo tímido mas expectante, começava a acreditar num milagre. O Senhor Espírito Santo viera em seu auxílio. Salvara-o.

Frei José das Cinco Chagas havia colocado a coroa do Divino Espírito Santo, sobre uma pequena mesa à entrada do templo. O velho ermitão permanecera toda a manhã, de joelhos, debruçado sobre a mesa e com a cabeça reclinada sobre os braços, em profunda e convicta oração.

De longe começavam a chegar ao largo fronteiriço à igreja homens e mulheres, vindos do Lajido, dos Arcos, do Meio Mundo, da Miragaia, do Cahorro e até das Bandeiras, que se juntavam à multidão, aglomerada no largo, em frente à ermida, contando e narrando factos extraordinários. No Cachorro, todo a zona envolvente à ermidinha da Senhora dos Milagres, construída há pouco mais de trinta anos, fora poupada pela lava. A enorme e caudalosa torrente destruidora, ao chegar junto da ermida, por intercessão de Nossa Senhora, Mãe de Deus, afastara-se dela, deixando-a intacta assim como todas as casas ao seu redor. Mais acima havia um boi a pastar num campo, que também poupado à fúria avassaladora da torrente. Ao redor tudo tinha sido destruído. Aquele boi estava a ser criado para ser oferecido ao Senhor Espírito Santo. Lá para os lados do Meio Mundo um outro campo cujo trigo havia de ter o mesmo destino, também não fora atingido pela lava incandescente. Estas e outras narrações passavam de boca em boca e iam chegando aos ouvidos de todos, ao mesmo tempo que os ia animando, revitalizando, enchendo de força e coragem e sobretudo e de um estranho sentimento de fé e confiança - algo de sobrenatural pairava sobre todos, uma força estranha e divina protegia-os. O Senhor Espirito Santo, em cuja força e poder haviam confiado, salvara-os.

E quando ao fim da tarde, o povo reunido começava a partir dali, na possível demanda dos seus lares, na quase certeza de que tudo passara, cada um dos que ali haviam permanecido o dia inteiro, ia sentindo dentro de si e acreditando convictamente que só um milagre, um grande milagre da força e do poder do Divino Espírito Santo os havia salvo. Por isso mesmo, todos sentiam dentro de si aquela força incrível - o vínculo que os unia na promessa que conjuntamente haviam feito e que todos haviam de cumprir e transmitir aos seus filhos e aos seus netos para que a cumprissem para sempre e jamais esquecessem aquela promessa que ajoelhados diante da coroa que Frei José erguera e com que os abençoara, haviam feito ao Divino Espírito Santo.

E transitando em grupos, pelas ruas, às escuras, com destino a lugar nenhum, entoavam cânticos de louvor ao Divino Espírito Santo:

 

“Ó Senhor Espírito Santo

Nós rogamos com clamores

Mandai que nesta terra

Não haja mais tremores.

 

Glória ao Pai, nosso criador,

E ao Filho que por nós s’imolou,

Glória ao Espírito Santo Divino

Que com a Sua força nos salvou.

 

Os pecados são a culpa

Da terra tanto tremer

Eu vos prometo, Senhor

Nunca mais vos ofender.”

 

O dia seguinte ao da tremenda catástrofe amanheceu sombrio, escuro com um tempo ameaçador. O vento soprava de Sudoeste, o mar revoltara-se e embravecera subitamente e, sobre o Faial pairavam umas nuvens cinzentas, sinistras, prenunciadoras de aguaceiros. Era evidente que, mais tarde ou mais cedo, havia de chover.

A ameaça de chuva, no entanto, consubstanciava uma ambivalência, aparentemente, intrigante. Por um lado se chovesse seria benéfico, pois a chuva enviada por Deus como que serviria para limpar, para lavar e até para arrefecer todo aquele manto de lava, aquele pantanal de fogo que no dia anterior correra em catadupa por ali abaixo, que ainda fumegava, deixando um pestilento cheiro a enxofre e a carne queimada e assinalara marcas atrozes, aterradoras e indeléveis, por aqui e por além, no solo. Por outro lado, porém, a chuva não era bem-vinda, antes pelo contrário, até era indesejada, pois seria uma autêntica desgraça, uma verdadeira tragédia. É que para além de trazer o frio consigo, a chuva não seria condescendente com ninguém, a todos molharia. Na realidade os abrigos eram poucos e a maioria das casas haviam sido destruídas por completo. Quase todas as habitações, sobretudo as mais débeis e pobres, haviam ruído e até a própria igrejinha de Santa Luzia também sofrera prejuízos enormes, arrasantes, destruidores e irreparáveis, pondo em causa todo o seu interior, nomeadamente, a imagem da padroeira, as alfaias litúrgicas, os altares e até o sacrário onde se guardava o Santíssimo Sacramento. Apenas a coroa do Divino Espírito Santo que Frei José das Cinco Chagas havia retirado do altar e colocado sobre uma mesinha, fora da porta do templo, escapara àquela tremenda e avassaladora catástrofe.

Por volta do meio-dia a previsão confirmou-se. As nuvens escuras e carregadas de água que haviam amanhecido sobre o Faial, durante a manhã, tinham-se deslocado, muito lentamente, na direcção do Pico. Parecia que haviam parado ali mesmo, por cima de Santa Luzia, para dentro em breve se abrirem, despejando águas diluvianas por ali abaixo. Com as casas destruídas, a lava a devastar tudo e, agora, com a chuva a alagar o pouco que sobrara, não havia sítio onde o povo se abrigasse e protegesse, nem migalha com que se saciasse a fome. Sobretudo as crianças e os mais idosos sofriam em demasia.

A meio da tarde, no entanto, começaram a chegar carros de bois, carroças puxadas por cavalos e mulas carregadas de géneros alimentares, de roupas e agasalhos diversos, vindos de Santo António, do Cais do Pico e, sobretudo, de São Roque. O povo destas localidades, apesar de também atingidas por fortes tremores de terra, e as próprias autoridades municipais, sob as ordens do tenente Alçada de Melo, representante do capitão do donatário, sediado na vila das Lajes, haviam recolhido e angariado alimentos, roupas, cobertores, remédios, desinfectantes, chás e mezinhas. Vinham ali trazê-los distribuindo-os pelos doentes, pelos velhos, pelas crianças e sobretudo pelos mais necessitados. Juntamente, também um grupo de fradinhos, sediados num convento, construído uns anos antes e localizado no povoado do Cais do Pico e que pertenciam à Ordem dos Frades Menores, para ali se dirigira a prestar auxílios, a trazer conforto, a fortalecer os ânimos. Na madrugada do dia seguinte chegaram do Faial alguns barcos também carregados de géneros alimentares e de barracas feitas de pano de serapilheira e de peles de animais, destinadas a abrigar os que haviam ficado sem habitação.

José Pereira de Azevedo, a mulher e o filho passaram a primeira noite ao relento. Enrolados em grossos cobertores e em sacos de serapilheira, alguns cheios de lá, de palha, de erva ou de feno. Os pais, com o calor dos seus corpos, foram protegendo o pequeno António do vento, do frio, da chuva e dos rigores matinais. A meio da manhã e depois de convencer Madalena de São João a permanecer ali, junto às paredes da pequena ermida, José Pereira de Azevedo decidiu ir dar uma volta, no sentido de verificar como haviam ficado os seus parcos haveres: duas pequenas terras de trigo, outras tantas de vinha e, lá mais no alto, uma de incenso e faias. O medo e o terror dominavam-no como se fosse um pássaro ferido, sem comida e sem ninho. Sabia que a lava se havia escoado para os lados das Bandeiras com mais intensidade e aí fizera os mais graves prejuízos. E os seus receios tornaram-se reais. Todas as suas propriedades haviam sido totalmente destruídas pela lava incandescente que no dia anterior a montanha expelira.

Desde da segunda metade do século XV que o povoamento dos Açores se havia consolidado, fixando-se em todas as ilhas um população activa, trabalhadora, que aos poucos se ia adaptando às precárias e difíceis condições de vida das ilhas, aos rigores climatéricos, às crises sísmicas, tentando edificar, dia a pós dia, um património agrícola, habitacional, artístico e cultural, notável, grandioso, específico e único. Embora pacífico e ordeiro o povo açoriano necessitava duma estrutura governativa que, sobretudo, o defendesse dos ataques exteriores, nomeadamente dos corsários e dos piratas e que o ajudasse no tempo de crises e de calamidades. Por isso, a partir da segunda metade do século XV estabeleceu-se, nas ilhas, uma estrutura governativa de cariz senhorial, com o objectivo de assegurar e manter o efectivo governo das ilhas, confiado ao seu donatário, que nelas se fazia representar pelos seus capitães, também chamados capitães-do-donatário, a quem competia a governação das capitanias em que o arquipélago, à semelhança de outras parcelas do país, fora dividido. Paralelamente, seguindo a forte tradição municipalista portuguesa, as ilhas foram rapidamente estruturadas em concelhos, com os seus órgãos municipais a assumirem boa parte da condução da governança e administração local. O poder real era representado por um corregedor, que percorria as ilhas em correição, verificando o cumprimento das leis por parte das câmaras e dos capitães-do-donatário. Paralelamente, o poder espiritual e a organização religiosa das ilhas dos Açores, como das restantes terras do além-mar português, começaram por estar sujeitas à jurisdição espiritual da Ordem de Cristo, exercida pelo vigário “nullius” de Tomar, que mandava visitar as ilhas pelos seus representantes, os chamados bispos de anel. A partir de 1514, com a criação do bispado do Funchal, o arquipélago passou para a jurisdição da nova diocese madeirense. Até que, a pedido de D. João III, rei de Portugal, o papa Clemente VII criou o bispado de São Miguel, mas faleceu antes da bula respectiva ter sido expedida. No ano seguinte, o recém-eleito papa Paulo III pela bula “Aequum Reputamus” erigiu o bispado de São Salvador do Mundo, criando a diocese de Angra do Heroísmo e ilhas dos Açores, dando-lhe por catedral a igreja do mesmo nome, na cidade de Angra.

No entanto e com o passar do tempo, o poder dos capitães foi-se apagando, sobretudo, devido ao isolamento imposto pela irregularidade das comunicações marítimas e teve como principal consequência permitir que o verdadeiro poder recaísse no âmbito municipal, apenas moderado pela intervenção do corregedor. Daí resultou uma ampla autonomia local, com cada Município a depender apenas do distante poder senhorial e real, sem qualquer dependência em relação quer às outras ilhas, quer aos municípios vizinhos. Esta situação de autonomia municipal apenas foi interrompida durante o governo filipino, após o qual as ilhas açorianas voltaram à sua antiga forma de administração, assim se mantendo durante mais de um século sem alterações significativas.

A freguesia de Santa Luzia pertencia ao Concelho de São Roque, desde sempre sediado no lugar do Cais do Pico, criado por carta de Foral, datada de 10 de Novembro de 1542 por ordem do rei Dom João IIl. Essa a razão pela qual o tenente Alçada de Melo, representante do capitão do donatário, o corregedor de São Roque, o edil e muitas outras autoridades representantes da municipalidade se desvelavam em cuidados para assistir e ajudar a população daquela freguesia, gravemente afectada por aquela infausta e caustica tragédia.

Nos dias seguintes, o corregedor de São Roque, o edil e muitas outras autoridades representantes da municipalidade percorreram toda a freguesia de Santa Luzia, desde das Bandeiras até Santo António, para se certificarem dos prejuízos e fazerem o levantamento das maiores necessidades, bem como o rol dos que tinham sido mais atingidos pelas terríveis consequências de tão trágica calamidade.

Feitos os registos e anotadas as mais patentes situações de prejuízo material, verificou-se que, afinal, o rol era bem maior do que se esperava. É verdade que não morrera ninguém e o número de feridos também era nulo, mas a quantidade de pessoas afectas pelas consequências da tragédia era muito grande, os prejuízos materiais eram enormíssimos e nem tinham sido todos contabilizados. Muitas casas haviam sido destruídas, inúmeras famílias haviam ficado sem gado, sem campos e sem vinhas e grande parte da população não tinha onde dormir, nem algo para comer. Muitas pessoas tinham ficado rigorosamente sem nada.

Aos apoios vindos do Cais e de São Roque chegaram outros vindos da Horta. Eram barcaças carregadas de agasalhos e mantimentos, a atravessar o canal e a contornear a parte sul da ilha, da Madalena até Santa Luzia. Aí encostavam aos rola pipas que haviam escapado à torrente de lava, onde homens de calças arregaçadas até aos joelhos, enfiados na água, os esperavam, na tentativa de amarrar os barcos e descarregar por ali a cima, com a maior urgência possível, tudo aquilo que as embarcações traziam e que era tão necessário para minguar as agruras e satisfazer as necessidades de quantos haviam sido atingidos por tamanha calamidade.

Entre o enormíssimo número de desalojados que haviam ficado sem nada, encontrava-se José Pereira de Azevedo. Sem casa, sem terras, sem gado e sem família, José Pereira de Azevedo, a mulher e o filho, não tinham onde dormir, nem sequer como se alimentar. Nos primeiros dias foram-se acomodando nos improvisados abrigos trazidos de São Roque e da Horta. Mas tinham que partilhá-los com outras famílias, amontoando-se e escarrapichando-se uns sobre dos outros, sem condições, sem sossego e, sobretudo, sem esperança. As crianças, os velhos e os doentes, apesar de serem sempre os primeiros a serem atendidos, eram rigorosamente os mais afectados e os mais desprotegidos. A comida também rareava e a pouca que existia e era distribuída, vinha sobretudo dos lados de Santo António e São Roque e só se conseguia obtê-la depois de horas e horas em fila, à espera de vez. José Pereira de Azevedo não se queixava e até considerava que, apesar de tudo, aquilo até era uma dádiva de Deus, que no meio de tão grande aflição, de tão eminente perigo, os havia protegido e salvo, através da sua infinita bondade. Para ele e para a mulher o sacrifício nem era demasiado… Mas para o filho, sobretudo para o seu menino… A criança não podia viver naquelas condições.

Alguns habitantes de Santa Luzia já haviam partido para Santo António, São Roque e até para outros lugares da ilha. No entanto chegavam notícias desagradáveis, desanimadoras e muito alarmantes. Noutras localidades do Pico, sobretudo do lado do Sul, nomeadamente em São João e em São Mateus haviam sido sentidos abalos semelhantes aos verificados em Santa Luzia, Também ali as bocas da montanha se haviam aberto e lançado jactos de lava sobre as encostas, encharcando de fogo e de destruição toda a zona entre estas duas freguesias. Dizia-se mesmo que grande parte da freguesia de São João, incluindo a igreja, havia desaparecido.

Estas notícias assustavam e preocupavam sobretudo Madalena de São João. E quando José, consciente da sua situação, da sua desgraça, lhe propunha abandonar Santa Luzia e fixar-se noutra freguesia do Pico, Madalena contrariava:

- Para outra freguesia? Para, amanhã, nos acontecer o mesmo? Nem pensar! Ou ficamos aqui ou a sair, vamos para outra ilha, para uma ilha onde não haja nem abalos, nem vulcões, nem esta lava destruidora.

- Mas essa ilha existe, Maria. – Repetia José, vezes sem conta, em voz baixa, como se estivesse a sonhar.

À medida que os dias passavam, José Pereira de Azevedo ia-se sentindo cada vez mais inconformado, mas também mais indeciso relativamente ao seu futuro e ao da sua família. A mulher, Madalena de São João, não cessava de o recriminar por uma aparente e apática pasmaceira em que ele se ia envolvendo dia após dia e da qual, aparentemente, não conseguia libertar-se. Vezes sem conta lhe atirava a cara que as suas vidas, ali em Santa Luzia, no meio daquela calamidade seria insustentável, quase sem nada e o seu destino incerto e o seu futuro imprevisível. Além disso, por um lado, os abalos, embora mais pequenos e mais espaçados, tinham voltado a fazer-se sentir, assustando e amedrontando tudo e todos e, por outro, o manto de lava destruidora que, evadindo-se da montanha, cobrira o chão quase por completo, demoraria a desfazer-se e a tornar aráveis os campos outrora tão férteis e as vinhas antigamente tão produtivas. José Pereira Azevedo ouvia aquele martelar contínuo, calado e pensativo. Sabia muito bem que ela tinha razão, mas tinha receio de o confessar. Sabia muito bem que não tinha nada e mesmo que quisesse voltar aos campos para trabalhar não o podia fazer. Também não poderia ficar por ali, ao relento o resto da sua vida, à espera de que a lava se transformasse em terra fértil e em campos produtivos. Havia que refazer a sua vida, que reconstruir a sua casa e os seus campos, que criar de novo tudo aquilo que tão tragicamente perdera. Mas Madalena tinha razão: não seria ali.

A mulher causava-lhe grande preocupação e constantes consumições. Madalena não cessava de insurgir contra aquela situação e revoltar contra aquela pasmaceira. Cheia de medos e temores, a esposa de José Pereira de Azevedo como que ficara traumatizada com os terríveis efeitos daquela tremenda crise e das consequências que sobre eles haviam caído. Intransigente, causticada pela dor e ancorada a uma enorme e permanente angústia, pedia-lhe, persistentemente, que partissem, que fugissem dali, onde nada os prendia, para além do amor à sua terra. É verdade que iriam para um sítio desconhecido, onde nada possuíam, onde tudo haviam de construir, como se estivessem novamente a começar do princípio a sua vida. Mas afinal não era isso também o que lhes aconteceria se ali ficassem, ainda por cima sujeitos a novos tremores, a outras erupções, talvez mais violentas e mais danosas?

- Então – concluí Madalena – ter nada por não ter nada, antes viver e recomeçar a nossa vida num sítio calmo e sereno, onde, ao menos, a terra seja mais segura.

Foi esta insistência intransigente da mulher, o futuro do filho e o persistente consciencializar-se das condições de vida de que ali usufruía que levaram José a tomar uma decisão. E no primeiro batelão que encostou no Lajido, na ponta de André Gonçalves no porto que aí existia e onde habitualmente se carregava madeira e gado que o Pico produzia e enviava para outras ilhas, José Pereira de Azevedo, tomou a mulher e o filho e partiu para o Faial.

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publicado por picodavigia2 às 20:52





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