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5º DIA – MANHÃ DE INVERNO TARDE DE VERÃO

Sexta-feira, 08.08.14

O Pico é uma gigantesca montanha de cores, de perfumes, de sabores, de formas, de sombras e até de sentimentos diversos e diversificados. A imponente montanha, umas vezes acorda esbranquiçada, com um sabor amargo como se evaporasse indiferença, a querer rebolar-se pelas colinas na tentativa de desentupir todos os atalhos e veredas, anestesiar trabalhos e canseiras, de amenizar angústias e desilusões. À tarde, porém, reveste-se de um amarelo que, embora tímido, perfuma-se com o silêncio das florestas, entrecortado pelo canto dos pássaros pelo sibilante ciciar do vento e resplandece com o perfume, quase incandescente, da maresia, com a luxuriante lucubração de vinhedos e ervaçais. Outras vezes, a mesma montanha como que nasce enegrecida, aureolada com o sabor acre da lava, espargindo uma espécie de indiferença telúrica, com laivos de angústia e socalcos de impertinência. Depois aquele negro, abrupto e lascivo, vai-se diluindo até se metamorfosear num verde espirituoso e doce, a prolongar-se pelos andurriais atá aos campos e vinhedos matizados de lava e aureolados de enxofre, qual gigantesco tapete de silêncio, borrifado de enigmas que a placidez do oceano consubstancia. Mas ainda dias há, em que a montanha revestida de cinza, se perfuma de arrogância e evapora miríades de gotículas de água, que aspergindo, ora lenta, ora torrencialmente, o chão ressequido, umas vezes enriquecendo projectos, fortalecendo investimentos, outras obliterando decisões, obstaculizando desejos. Depois, à tarde, e como que a desfazer, miraculosamente, o manto acinzentado, genuíno e substancial, nasce, lá bem no alto, uma luz radiosa, acariciadora a romper as pérfidas amarras da escuridão matutina e, então, tudo se enche de luz, de brilho, de esplendor, de alegria e de encanto.

Foi precisamente, o que aconteceu hoje: manhã de inverno, tarde de verão.

De facto o dia de hoje nasceu enevoado e triste, com ameaças de aguaceiros. E estes não se fizeram rogados. Desabaram sobre o orbe como se fossem milhares e milhares de cântaros de água, derramados pelos anjos, sobre a face da terra. Tudo fazia prever que estaríamos perante um verdadeiro dia diluviano e de invernia, impedindo o alegre caminhar pelas veredas, obstaculizando o imiscuir-se em pequenas tarefas agrícolas. Mas tudo mudou. E ao meio-dia o milagre aconteceu. Primeiro surgiu, embora ainda um pouco descambado a oeste, um sol claro, sublime e abrasador. Depois uma leve e hesitante bruma, a confundir clarificações. Pairavam no ar, intercaladas, mudanças repentinas, difíceis de prever e ainda mais de se perceber.

Mas a chuva tem destas coisas, pois obriga a uma denguice preferencialmente caseira. Fazer réstias de cebolas e limpar o lar, o doce lar. Útil, necessária e bem conseguida tarefa, esta de desfazer o que incomoda e se rejeita… Mas a chuva tanto fugiu e se encafuou lá por trás da montanha, pelos vistos indo refugiar-se em São Roque e outras localidades do norte, e o sol tanto insistiu, tanto teimou e tanto chegou, que na ida com destino ao Multiusos para o almoço, já deu para molhar o Aquiles na escada do Cais, com a maré quase cheia. Excelente o menu de hoje: folhados de sobras de albacora e boca negra, com migas de brócolos e uma boa sesta. O Sol, de tarde, abrasava. O dia invernoso da manhã, transubstanciava-se em verão a sério, por isso, entre o virar da rama da batata-doce no castelo da proa, lá para os Cabeços e o mondar das abobrinhas na Ribeira, uma bela banhoca, hoje na Poça que a maré no Cais estava muito seca.

Do Faial chegaram ecos da semana do mar. Ontem foi dia de Toy, precisamente na noite da festa do Bom Jesus. Ao serão faltou a luz. Felizmente havia velas e uma pilha. Caso contrário, ficar totalmente às escuras, seria dramático. Nesta escuridão, não se sabe com que cor, perfume ou sabor o Pico vai acordar, amanhã. O luar de Agosto aparenta alguma frouxidão e são poucas as estrelas, no céu.

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publicado por picodavigia2 às 09:10





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