PICO DA VIGIA 2
Pessoas, costumes, estórias e tradições da Fajã Grande das Flores e outros temas.
A MATRACA
Nos antigos rituais litúrgicos de Sexta-Feira Santa, anteriores às reformas conciliares da década de sessenta, o toque de sinos e campainhas era totalmente interdito nas igrejas, desde a noite de Quinta-Feira Santa, logo após a celebração da missa in “Cena Domini” até à meia noite de Sábado de Aleluia. Durante esse tempo, todo e qualquer toque de índole litúrgica, necessário a chamar a atenção e concentração dos fiéis num momento mais solene de qualquer celebração litúrgica ou destinado a despertá-los e chamá-los para qualquer acto religiosa, era substituído pelo toque da matraca.
A matraca era um instrumento construído em madeira, formado por três tábuas pregadas umas nas outras e com um suporte manual na parte superior, como se de uma pequena caixa se tratasse. Na parte exterior das tábuas estavam cravadas várias argolas de ferro que se soltavam batendo em conjunto e de forma violenta e agressiva na madeira, logo que a dita cuja fosse abanada com alguma força e agilidade, produzindo assim um som barulhento, matracado, estranho e esquisito.
Na Fajã, atrás do altar mor e pendurada num prego da parede, havia uma matraca que era utilizada na Sexta Feira Santa, na procissão do Senhor Morto, única cerimónia realizada na freguesia naquele dia, uma vez que as “endoenças” eram celebradas às três horas da tarde, na igreja Matriz da Fajãzinha, às quais, no entanto, assistiam muitas pessoas da Fajã, que para aquela freguesia vizinha se deslocavam com tal intuito. As cerimónias das “endoenças”, na Fajãzinha, eram muito concorridas, exigiam três padres, alfaias litúrgicas adequadas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Daí que a matraca da Fajã fosse utilizada apenas na Sexta-Feira Santa, à noite, na procissão do Enterro ou do Senhor Morto, assim como no toque das Trindades dos três dias que constituíam o chamado Tríduo Pascal.

