Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



RIO VERDE

Segunda-feira, 12.08.13

O trajecto até ao jardim era curto e sinuoso, mas suficientemente longo e propício a que se quebrasse aquele silêncio estranho, misterioso e angustiante. Ele tentou dar-lhe a mão. Talvez assim recuperasse um gesto, descortinasse um sinal, partilhasse um sorriso ou, quem sabe, até lhe espicaçasse um som, uma palavra. Em vão! O seu estranho alheamento era tamanho, dir-se-ia envolto em tão gigantesca imobilidade, que quase permitia ouvir-se-lhe a respiração e o seu assumido silêncio era tão persistente que parecia perverso.

Agora já bordejavam o vetusto muro do jardim, salpicado de respingos de lama, cravejado de limos e de musgos mas ainda capaz de resistir às investidas de intempéries e salteadores. Finalmente, ela quebrando aquele demolidor suplício: «É aqui! Não percas. São raros os que têm o privilégio de entrar e, sobretudo de comungar, ainda que por breves minutos, esta aparição.»

Tentou, novamente, dar-lhe a mão, dizer-lhe alguma coisa, talvez pedir-lhe explicações, manifestar desejos e confirmar vontades, mas sentiu-se perdido. Nem um olhar afável, nem um gesto de ternura, nem uma palavra de animação, nem, muito menos, uma troca de vontades. Continuava em silêncio, a envolver alheamento, a confirmar indiferença, a expelir mistério, a derrubar esperanças, diluindo-se em enigmas. E o jardim já ali, tão perto, com o portão escancarado, a convidá-lo sem o olhar, a pedir-lhe sem lhe falar, a abraçá-lo sem lhe tocar. «Como é que se pode suportar um silêncio destes e envolver-se em tão estranha indefinição?»

 E o portão, ali mesmo em frente, tão aberto, cada vez mais escancarado… mas a insinuar que havia de fechar-se, em breve, muito em breve…

A manhã crescia a olhos vistos! A cidade, ali ao lado era uma nuvem entontecida, uma torrente de ruídos a destruir aquele estranho silêncio, pintado de verde e salpicado de esperança, de mistérios e de enigmas. Devia ter posto de lado o receio, a hesitação e o medo para, enquanto o portão se mantivesse aberto, poder entrar, ver e sentir aquele estranho universo, sempre a abarrotar de tanto silêncio e de confuso mistério.

Mas era tarde, demasiado tarde e o portão, há pouco aberto, agora de nada lhe servia. Estava a fechar-se. É verdade que, por uma nesga entreaberta, ainda vislumbrou a frescura dos lagos, sentiu o perfume das flores, saboreou o amaciado das pétalas, acariciou a doçura dos frutos e até se emaranhou entre as estranhas sombras das copas das árvores, mas, para espanto seu, ali não era um jardim. Era um enorme, infinito e misterioso rio… Um rio verde, todo verde, traçado pelo fascínio das madrugadas, sulcando planícies desconhecidas, com o leito carregado de correntes imprevisíveis, deslizando suavemente ao sabor de neblinas, de nuvens e do luar, com um enorme e avassalador caudal, porque, na realidade, era bem verde e tinha a sua sina registada nas neblinas, o seu destino escrito nas nuvens e o seu fulgor estampado no luar.

Mas quando chegou a noite, fria e branca, o rio verde desfez-se e desapareceu, deixando atrás de si um rastro de cinza espessa, terrificante, quase déspota, que se apoderou dele, agora a caminhar sozinho, entregue a si próprio, sem silêncio, sem jardim, sem a torrente de ruídos da cidade, sem nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:45





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2013

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031