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6º DIA - LEVANTAR UVA

Sábado, 09.08.14

A vinha do Cabeço hoje, mais se assemelha a um torrão sagrado, ungido com o sereno da madrugada, um pedaço de chão verde salpicado e tingido de vermelho, onde proliferam dezenas e dezenas de cachos de uvas, muitos deles à espera de uma mão amiga, que os levante, que os salve, que os suspenda e retire do charco onde jazem e onde, muito provavelmente, estão condenados a serem destruídos ou apodrecer. A vinha do Cabeço, hoje de manhã, parecia a uma espécie de cratera lávica, a ejacular do seu seio o intenso o perfume das uvas, misturado sabor acre das maçãs, uma leiva domesticada onde se confundem vides, mondas e uma ou outra macieira. A vinha do Cabeço assemelha-se a uma enorme navio, com a proa voltada para a montanha, a carregar o castanho dos troncos arquejados das vides, o verde saltitante das folhas o roxo hesitante dos cachos e, lá no cimo, naquela espécie de castelo da proa, milho, feijão, batata-doce, à mistura com silvados, beldroegas, milhãs, junquilhos, ortigas e muitas outras daninhas. Nas paredes vizinhas alguns braços de caseiras atrevidas e abóboras penduradas, a simularem as bóias de encosto ao cais.

Esta vinha, metamorfoseada em torrão, em leiva, em cratera ou até em navio atrai, convoca e até pede a insolvência de tão famigerada conjugação, tornando-se numa vinha real, cercada de paredes construídas de pedras lávicas, repletas de vides, cujos cachos de uva, levantar. Na verdade, as videiras, aqui no Pico, requerem, exigem, obrigam, intimam e até ordenam que se lhes salvem os cachos rastejantes. Levantar uva é com ser bombeiro, é salvar quem jaz amordaçado, espalhado pelo chão térreo, encharcado de ervas, com a própria sobrevivência em perigo, a roçar o infortúnio, a cercear a sustentabilidade da vindima. Mas é uma operação delicada, quase cirúrgica, como que feita a bisturi, Impõe-se, onde existem cachos despejados sobre o solo, pegar nos ramos rasteiros, com cuidado, a fim de não desfazer a forma, o feitio e a existência dos pobres cachos e, por outro, ao caminhar por entre os vinhedos, não calcar os outros cachos que dormem sossegados de baixo das folhas esverdeadas, a protegerem-se do Sol. Levantado o ramo, coloca-se uma pequena pedra de baixo, de forma a que os cachos fiquem como que suspensos, sem rastejar o solo. Caminhando pela vinha, detectam-se os cachos caídos, mas enquanto se vai retirar a pedra da parede lateral perde-lhe o rasto… Há que inventar uma estratégia para resolver este imbróglio. A mais simples e prática é adquirir um ramo de incenso e deixá-lo a assinalar o local da anormalidade detectada. Resulta! Depois ali ficarão os cachos ora levantados juntamente com os outros, a amadurecer, à espera da safra que lhes há-de chegar, imperiosamente, dentro de três semanas.

Mas a manhã parecia que havia ensandecido. Nascia possessa, senhora duma bruma friorenta, escura, desagradável, com que a forçar o reconforto dos lençóis. Tudo encharcado de chereno muito húmido e contagiante. Havia que esperar, para que o Sol, aparecendo lá no alto, por de trás da montanha tudo secasse. E o astro-rei não se fez esperar e veio, na sua enorme luminosidade. Em breve tudo secou. O Sol radiante, bonançoso, contrariamente ao dos dias anteriores que parecia que havia descambado por completo para os lados do Faial, deixando São Caetano emerso num espectral e escuro sossego. Neste Pico e em pleno mês de Agosto, a regra tem sido a de acordar envolvido por brumas matinais, inicialmente húmidas e escuras, mas que ao longo das manhãs se vão diluindo e desanuviando, embora lentamente, a desfazerem-se como se fosse um novelo de lã que se vai desenrolando, muito devagar, até ao fim.

E quando o Sol, arrependido de tão inusitada graçola, regressou ao seu posto, encastoando-se nos rebordos da montanha, já as vides ardiam em resfolgo, acariciadas por mãos que, embora inexperientes, lá foram colocando, pedra aqui, pedra acolá, a sustentarem a desejada sustentabilidade dos cachos hesitantes. Uma hora e um quarto e havia-se chegado com o primeiro eito ao cimo, ao tal castelo da proa, outrora degredo, berçário de ondas e cana roca, hoje viveiro de batatais verdejantes e promissoras. Significavametada da tarefa cumprida. Há que a acabar, iniciar, pelo lado leste ou da vila, o resto do terreno. Consegue-se mais um pouco mas o desânimo é mais forte e tentador. O cansaço também já é muito e as costas doem. Decisão tomada: o resto fica paa a tardinha, quando Sol abrandar… Não há que preocupar porque a maioria das tarefas programadas para esses dias já estão cumpridas: apanhar as cebolas na Ribeira, cavar a terra e semear feijão - a semente que estava no porta-bagagem do carro era de feijão-verde -, mondar os caculos da batata-doce e sachar o milho. Tarefas árduas, ignóbeis, cansativas, a que se acrescentou a saga dos tomates, alfaces e até um repolho para a sopa. Quase hora e meia, vergado ali no duro, muito tempo a Sol, grande esforço e o corpo num Cristo. A salvação consubstanciou-se num bom duche na adega, que o mar hoje não permite grandes banhos. Mas no corpo ficam as marcas indeléveis de um inócuo esforço: pernas, braços, costas, mãos… Tudo dói!

São Mateus foi o destino no início da tarde. Uma miniatura do Mucifal Havia que descansar e recuperar um pouco, embora sem a habitual sesta. À tarde consumou-se a tarefa de levantar a uva. Menos morosa. O espaço era menor e, aparentemente com menos uva para levantar. Mas mais algumas tarefas foram compridas, como aquela do Coliveda do banheiro, com a vantagem de, ao chegar ao Cais, para tomar uma banhoca na Poça e encontrar o Delfim que, generosamente, interrompe a hora de banha, para vir colocar. Boa notícia, esta, a da recuperação o banheiro. Pior é a água quente que continua em falta.

Finalmente, fez-se escuro e foi o fim do sexto dia e o início da sétima noite que, a julgar pelos astros, parece que vai ser de chuva, assim como o dia de amanhã. A ver vamos.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:37





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