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A ENXOTADEIRA DOS TENTILHÕES

Sexta-feira, 23.08.13

O pequeno cerrado que o senhor Ambrósio possuía na Assomada, geralmente, não era “trilhado” pelo gado. Como era uma terra forte, soalheira e abrigada do vento, o trevo, ali semeado por entre o milho já espigado, havia de ficar para a semente. Mas o diabo era a passarada. Quando as espigas amadureciam e se tornavam loiras, acinzentadas, à espera que secassem e ficassem prontas para a apanha, bandos e bandos de pássaros, demandavam-no, fustigados pela fome, debicando aqui, escarafunchando acolá, dando cabo de tudo. Um estrago enorme, um prejuízo incalculável, uma catástrofe descomedida, um dano que era imperioso evitar.   

De toda a passarada que, aos poucos, ia depenicando, destruindo e dando cabo das espiguitas que, firmes e hirtas, aguardavam a hora da apanha, a fim de serem guardadas em sacos de serapilheira e ficarem à espera da sementeira do próximo ano, os piores, os mais atrevidos, os que mais comiam e destruíam eram os tentilhões. Biquitos sempre abertos, escorraçados das terras negras e vazias de sementeiras ou acossados das matas pelas ventanias outonais, ali estavam eles, os marotos, acaçapados sobre as paredes, nervosos, a cantarolar para esquecerem a fome, à espera da primeira oportunidade para atacarem massivamente as pobres e indefesas espigas, levemente ondeadas pelo vento, mas bem secas, adocicadas e apetitosas. Os machos eram mais coloridos, com uma coroa azul-acinzentada no cocuruto, a face, peito e barriga de cor vermelha pálida e um manto escuro a cobrir-lhe o dorso e as asas e, distinguiam-se muito bem das fêmeas e dos juvenis, mais pequenitos e com a cabeça e o manto de tons castanho-oliva e o ventre claro. Depois de cheias as barriguitas era um chilrear contínuo, um desassossego alvoraçado, um esvoaçar de um lado para o outro, cruzando os ares em bailados sublimes, em cânticos maviosos, aconchegando-se nos seus afagos amorosos.

O senhor Ambrósio é que não ia nos ajustes. Sempre que por ali passava, enxotava-os, insultava-os, caluniava-os, chamava-lhes nomes e ameaçava-os de que havia de dar cabo deles todos, havia de pilá-los um a um, aqueles malditos, aqueles imbecis, aqueles destruidores da propriedade alheia. Missão impossível, a do senhor Ambrósio, porque, mal virava as costas, os marotos voltavam à safra, a depenicar por aqui e acolá, limpando as espigas de uma ponta a outra.

Nada mais podia a fazer, pensou o senhor Ambrósio, do que pôr-lhes lá uns espantalhos. Muniu-se de canas, de atilhos, de trapos velhos que abundavam lá em casa e toca a amarrar as canas em cruz e a revesti-las com calças, camisas, casacos e lenços de merino, tudo velho e em desuso, mas a simular perfeitas mas estáticas criaturas humanas.

Mas depressa se aperceberam os atrevidotes dos tentilhões de que aquilo era embuste. Quedos e mudos, aqueles figurões podiam ali estar o dia todo que nunca os haviam de incomodar, nem muito menos os impedir de encherem o papo e de se regalarem com tão farta comezaina. O senhor Ambrósio, no dia seguinte voltava à terra e a desgraça ainda parecia maior e a perda mais avassaladora.

Não se dando conta de que havia outro meio de salvar as suas sementes de trevo, o senhor Ambrósio decidiu-se por mandar para a sua terra, a filha, a Josefina, moça esbelta e bonita, mas muito meiga e mais afeita às lides domésticas do que aos trabalhos do campo. De início manifestou decidida recusa, mas perante a insistência autoritária do pai, teve que anuir.

E lá ia, todas as manhãs, Assomada acima, tristonha mas airosa, contrariada mas elegante, revoltada mas graciosa, de varinha na mão, cestinha no braço, disfarçada de “enxotadeira”, na demanda dos tentilhões da terra da Assomada.

Num dos primeiros dias, porém, deparou-se, logo à entrada do terreno, com um tentilhãozito muito pequenino, atirado para o chão, de papo para o ar, a tremer de frio, quase inerte. De certo, que se o não ajudasse, o “piauzinho” havia de morrer. Pachorrenta e cuidadosa, meiga e ternurenta, fez-lhe ali mesmo, na aba duma pedra, um pequenino linheiro, com algumas folhas retiradas do restolho. Aqueceu o infeliz passarito nas suas mãos, bafejou-o com o seu hálito e mimou-o com um carinho excessivo e um afecto desmesurado e, colocando-o no ninho, ia apanhando pequeninos bagos de trevo que lhe enfiava pelo biquito aberto, esfomeado e impertinente. Já farto, o petiz arrebitou e adormeceu. Josefina retirou-se, velando-o de longe. Não tardou muito. Um casal de tentilhões veio, timidamente, poisar nos arredores e, saltando de pedra em pedra, de espiga em espiga, foi-se aproximando do pequeno linheiro, onde o tentilhãozinho dormia sossegado e tranquilo, ao mesmo tempo que um bando de tentilhões, sobrevoava em revoada, entre cânticos e danças, a paraninfa de um dos seus semelhantes. Até parecia que estavam a agradecer-lhe!

O pior foi que, no dia seguinte e para espanto seu, o senhor Ambrósio concluiu que afinal, mais nada havia a fazer, pois os malditos dos tentilhões ainda maior prejuízo lhe haviam dado no trevo que ele com tanto esmero cultivara e cujas espigas pretendia guardar para semear, no ano seguinte.     

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publicado por picodavigia2 às 19:17





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