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ANCORADO NAS VELAS

Segunda-feira, 26.08.13

Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe do Carvalho Araújo, Gonçalo observava distraidamente a vila das Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras, mais ao longe, plantadas na encosta que, a pouco e pouco se ia galvanizando de verde e se prolongava até ao cume da ilha. Suavemente impulsionado por uma leve ondulação das águas da baía, o paquete voltara a popa a Sul, obrigando-o a mudar-se para estibordo, a fim de continuar a deleitar-se, como muitos outros passageiros, com a contemplação da vila, das casas espelhadas nas águas azuladas do Oceano e a observar o frenético vaivém das pequenas embarcações que ligavam a ilha ao navio, numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias.

A sirene, no entanto, soou rouca e estrepitosa por três vezes. Era o prenúncio de que em breve o navio levantaria ferro e, ladeando a ilha até à Ponta dos Rosais, rumaria à Graciosa. Simultaneamente, anunciava-se que aquela seria a última barcaça vinda de terra, a demandar o navio. O Carvalho demoraraem São Jorgeum bom par de horas, proporcionando aos passageiros em trânsito a oportunidade de realizar um pequeno périplo pela ilha, admirando e apreciando a beleza das fajãs, a frescura verde das pastagens, a amálgama arborizada das montanhas, o sussurrar diáfano das águas das ribeiras, a tranquilidade das freguesias e a tímida altivez das duas vilas – as Velas e a Calheta.

Gonçalo ainda pensara ir a terra. À sua vontade, porém, atravancara-se a escassez de escudos que os pais lhe haviam colocado nos bolsos, quando, dois dias antes, partira das Flores, com destino a Angra, onde ia continuar os estudos. Poupar era a regra número um. Além disso, já conhecia a ilha. Uns dias de verão na Caldeira de Santo Cristo, em casa de um colega. Um calvário, aquela subida!

Foi na última lancha que ela regressou a bordo! Vira-a pela primeira vez quando supostamente embarcara nas Lajes. Um enorme e estrondoso baque no coração. Depois… depois nunca mais se cruzara com ela. Provavelmente nem saíra no Faial, onde o Carvalho encostara, ali, bem juntinho à doca, proporcionando aos passageiros dirigirem-se para terra sem ter que pagar bilhete. Armazenavam-se assim uns troquitos que chegavam e sobravam para uma feijoada no “Graciosa”, a fim de ressarcir a fome de dias e dias passados bordo, a jejuar mais do que nas Sextas-feiras da Quaresma. Vasculhara o navio de lés-a-lés e nada. No Cais do Pico pusera-se de vigia rigorosa, durante o desembarque e embarque dos passageiros, mas não a vira sair ou entrar. O mar entre as Flores e o Faial não estivera para brincadeiras… Possivelmente teria enjoado, como tantos outros passageiros. Ele também se vira em apuros. É que para além do marulhar constante do oceano provocando um contínuo e interminável baquear do velho paquete sobre as ondas, viajava sem direito a beliche e em terceira classe, onde proliferava um pestilento e emético cheiro a vomitado, a latrinas nauseabundas, a comida enjoosa, ao bafio dos beliches e a bosta de vaca. Também não pregara olho toda a noite e, por isso se encostara de tarde, no convés da segunda, numa cadeira que apanhara desocupada, mas dura que nem pedra. Adormecera entre o Cais e as Velas e não se apercebera da chegada a S. Jorge.

Agora sim. Ali estava ela e parecia-lhe ainda mais bonita do que quando a vira, pela primeira vez, nas Flores. Desceu rapidamente ao portaló, antes que ela subisse as escadas de acesso ao navio e se eclipsasse novamente. Ia segui-la de perto, mas discretamente, muito discretamente para não ser notado. Bafejou-o a sorte. Mal entrou no convés da primeira, sentou-se numa cadeira de descanso, enquanto o casal que a acompanhava e que supostamente seriam os pais, rumou na direcção dos camarotes.

Nervoso, indeciso, quase denunciador, Gonçalo vagueou, simuladamente, para trás e para diante, em frente à cadeira onde ela se sentara, ora voltando à direita, debruçando-se sobre a borda do convés, ora encaminhando-se pela esquerda na direcção da sala de estar. Passado algum tempo decidiu sentar-se numa cadeira, ao lado. Fez-se um silêncio enigmático e profundo, entrecortado por um ou outro olhar de soslaio, durante o qual foi ensaiando, sem sucesso, inúmeras tentativas para a formular a pergunta que havia de fazer, a fim de iniciar conversa.

Pode então, pelo canto do olho, contemplá-la melhor. Era duma beleza extraordinária, deslumbrante e encantadora. Do seu rosto emergia uma simplicidade calma e serena, misturada com uma doçura inefável e sublime. Os cabelos despegavam-se em madeixas onduladas sobre os ombros, cobrindo ao de leve as faces. Dos olhos verdes fluía um brilho cristalino e diamantífero. Os lábios delicados e voluptuosos pareciam ter conquistado um sorriso contínuo, permanente, quase sobrenatural, que se e prolongava, levemente, pelas maçãs do rosto.

De repente, e quase irreflectidamente, quebrando um silêncio gélido, angustiante e emergindo de tão idílica contemplação, voltou-se e disparou, desajeitadamente:

- É das Flores, não é? – E perante a admiração dela prosseguiu. – Desculpe-me, mas acho que a sua cara não me é estranha.

Ela, apercebendo-se da enorme atrapalhação anexada à pergunta, sorriu docemente e retorquiu com um simultâneo abanar de cabeça:

- Não, não sou! Não sou das ilhas… Sou do Continente.

- Tenho a impressão de que a vi embarcar ontem, nas Lajes das Flores!

Que sim. Que tinha vindo com os pais visitar a Madeira e os Açores. Que já estava saturada da viagem, dos enjoos, das pessoas, das ilhas, do navio e, sobretudo, do mar. Desde as Flores que não saíra do camarote, sempre a enjoar, a enjoar. Apenas se levantara para acompanhar os pais que pretenderam agora, conhecer a única ilha que na vinda não conseguiram visitar – S. Jorge.

Gonçalo ia ouvindo com uma inexcedível atenção, ao mesmo tempo que desvendava o mistério do seu desaparecimento, depois do embarque nas Flores. E na esperança de prolongar, indefinidamente, aquele indelével contubérnio, ia retorquir-lhe, contrapondo a beleza das ilhas ao tormentoso suplício da viagem, quando o homem que antes a acompanhara, surgindo à porta da sala de estar, chamou com ar severo e grotesco:

- Elvira!

- Elvira!... – Repetiu Gonçalo inadvertidamente e quase a comprometer-se. E, depois, baixinho, muito baixinho, como se fosse em eco: - “Elvira…” “Elvira, ela chama-se Elvira.”

Até à Terceira não mais lhe pôs a vista em cima, pese embora percorresse, vezes sem conta, o navio da proa à ré, vasculhasse todas as salas e cubículos, vagueasse pela maioria dos corredores e até entrasse em muitos camarotes, simulando enganos e pedindo desculpas. Mas vê-la, nunca mais…

Uma angústia enorme trespassou-o, atirando-o para uma dolente nostalgia que nem a noite entre a Graciosa e a Terceira estagnou.

Na manhã seguinte, o Carvalho, circulando o Monte Brasil, fundeou na baía de Angra… mas ela nunca mais apareceu!

Apenas quando o batelão carregado de malas e passageiros se afastava do velho paquete, com destino ao Cais da Alfândega, Gonçalo pode vê-la, de longe, debruçada sobre a amurada do convés, precisamente naquele sítio onde, na véspera, ficara horas e horas, frente às Velas, à espera que ela surgisse miraculosamente.

E teve a sensação de que ela olhava para ele…

Trémulo, inseguro e langoroso, enquanto o batelão, a arfar de malas e passageiros e a enterrar-se entre as ondas altivas e buliçosas provocadas por um forte vento de sudoeste, se aproximava de terra, foi repetindo baixinho, num misto de dor, de paixão e de raiva:

- Elvira!... Elvira!.. Elvira!...

E o pequeno batel afastou-se, definitivamente, do Carvalho!

Alta noite quando, já quase adormecido, se enlevava com a esfíngica imagem que lhe havia de ficar para sempre gravada no peito, ouviu chamar muito ao longe: “Elvira! Elvira! Elvira!” Eram os três apitos roucos e estrépitos do Carvalho a anunciar que, dentro em breve partia, com destino a S. Miguel.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02





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