Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A FONTE

Quarta-feira, 28.08.13

Quando eu era criança, em minha casa não havia água, a não ser a da chuva, que penetrava por um ou outro buraco existente no telhado, ou pela janela da sala, quando, por esquecimento, a deixávamos aberta e o vento soprava de oeste. Para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para se passar um pingo de água nos olhos pela manhã e limpar as ramelas, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha era preciso ir buscar água à fonte, tarefa de que, lá em casa, eu era incumbido vezes sem conta.

Mas eu adorava ir à fonte, pese embora muitas vezes tivesse que o fazer carregando, dois pesadíssimos baldes de madeira cheios de água. A minha sorte e fortuna era de que a fonte, para além de ficar perto da minha casa, nunca secava, tinha sempre água fresquinha, sempre a correr, sempre a jorrar, sempre a respingar sobre o pedestal onde se colocavam os baldes, sempre a perder-se por entre pedregulhos e esgotos, sempre disponível para que eu, quando ali fosse, enchesse os baldes e saciasse a minha sede.

Na realidade eu ia à fonte, muitas vezes. Umas, para encher, até transbordar, o vasilhame que transportava vazio e que, no regresso, teria que carregar bem cheio e pesado, outras apenas para locupletar-me naquele manancial de frescura voluptuosa, deslumbrante e infinita. O ir à fonte era um vai e vêm contínuo, frenético e fascinante, apesar de cansativo e perturbador. É que da fonte, para além do fiozinho que, permanentemente, corria ténue e transparente, emanavam eflúvios sibilantes, provinham súplicas desfeitas, exalavam sonhos de nostalgia e perfumes de transparência. Na verdade, eu sentia que a fonte, com o seu fiozinho cristalino e diáfano, também derramava murmúrios estranhos, ora perdidos entre os musgos esverdeados da peanha, ora suspensos das abóbadas de cimento esbranquiçado que a rodeavam e protegiam. A fonte, com o seu murmurar silencioso, contínuo e permanente, desfazia dissabores, solidificava vivências e permitia que as sombras enigmáticas e confusas do devir, se transformassem em sonhos de magia, em perplexidades inebriantes, em arrebatamentos sublimes e transcendentes.

Um dia a estrada passou por ali., no sítio onde existia a fonte. Nas casas, incluindo a minha, agora, já havia água em abundância, mesmo que as janelas estivessem fechadas e as telhas quebradas tivessem sido substituídas. Entenderam os arquitectos e construtores da nova e larga estrada, que a fonte estava a mais, já não era necessária ali, porque água, havia muita por todos os lados e até dentro das casas. Mudaram-lhe o destino, aqueles imbecis, insensatos e inconscientes. Estes arquitectos e os próprios construtores da estrada, afinal, não sabiam ou não queriam perceber ou entender, que para além daquele fiozinho de água, da fonte também corria um manancial de sublimidade, de ternura e de envolvimento de pessoas. Desconheciam que a fonte também era um lugar de encontros, de vivências, de suspiros e, por vezes, de tormentas, que a fonte era um sortilégio quase metafísico, um abrigo de tempestades e intempéries, um recurso permanente a encontros e fascinações.

A fonte desapareceu! Agora apenas ficou uma outra no cimo da Rocha, lá bem no alto, mas sempre com o seu fiozinho ténue, cristalino, diáfano e transparente. A fonte agora está embutida no alto de um monte, altivo e abrupto, difícil de escalar, perdida entre as brumas adormecidas, dispersa entre o emaranhado aflitivo das madrugadas, suspensa no espectro multicolor do arco-íris. A fonte que os imbecis arquitectos e estouvados construtores da estrada não puderam destruir!

Mas mesmo longe, distante, encastoada nos andurriais escarpados da Rocha, ainda vou à fonte, como ia tantas vezes outrora, quando a fonte ficava mesmo ali, ao lado da minha casa. É verdade que já não acarreto baldes e baldes à abarrotar de água para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para passar um pingo de água nos olhos pela manhã, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha, nem sequer para matar a sede. Agora apenas vou à fonte saborear o perfume adocicado daquele fiozinho suave, cristalino, diáfano e transparente antes que ele, jorrando dia e noite, bem lá do interior da Rocha, se perca por completo, ao cair, solitário, entre os socalcos pedregosos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:29





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2013

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031