Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A RETIRADA

Sexta-feira, 30.08.13

A noite já ia adiantada. Caíra tardia e enigmática sobre a “tabanca” que circundava o pequeno quartel, donde postos vesgos e carcomidos projectavam uma luz ténue e baça que se perdia na imensidão escura da planície africana.

Nos abrigos, a maioria dos soldados já havia recolhido. Um silêncio profundo, emanado da planície, pairava sobre o quartel e sobre a “tabanca”. Num pequeno cubículo, quatro oficiais desfazendo os dissabores e as preocupações de um quotidiano mavórcio, iniciavam mais uma partida de sueca, sobre uma mesa velha e besuntada, onde, duas horas antes, haviam, frugalmente, saboreado o rancho.

Ainda não tinha caído sobre a mesa a última carta da primeira jogada, quando o Tulhas, sem pedir licença ou sequer fazer a continência do costume, entrou de rompante, no pequeno ádito. Esbaforido, de mãos na cabeça, gritava repetidamente:

- Meu capitão! Meu capitão! Houve uma grande revoluçãoem Portugal. Mataramo Américo Tomás e o Marcelo Caetano.

O capitão Cachadinha, sobre quem caía o comando da pequena companhia, ali sediada, levantou-se de um salto e correu, precipitadamente, para o exíguo cubículo, ao fundo do largo central do quartel, impropriamente denominado “sala de transmissões”, enquanto os três alferes, estupefactos, procuravam, sem proveito nenhum, tirar mais alguma informação do Tulhas, aguardando ansiosos, a chegada de Cachadinha:

- Se isto é verdade – arriscava o Carvalhal, esfregando as mãos de contentamento – é a nossa salvação. Vamos embora daqui!

- Viva a liberdade! - Gritava o Penha da Silva e depois cantarolava. – “Adeus Guiné-é, vou-te deixar-ar-ar!”

Cachadinha não tardou. Entrou na pequena sala de punhos cerrados, desenhando com os braços gestos de convicção, certeza e contentamento. Atirou um pontapé à mesa, derrubou meia dúzia de garrafas de cerveja e, abraçando esbaforidamente os colegas de armas, gritou:

- Até que enfim, que esta porcaria vai acabar! Ou melhor: acabou! Acabou-se o fascismo! Acabou-se a ditadura! Somos um país e um povo livres. Esta guerra também vai acabar, em breve!

Os outros não cabiam em si de estupefactos. Afinal era verdade. O entusiasmo excessivamente exteriorizado e os gritos emitidos eram tais, que muitos furriéis, sargentos e soldados assomaram à messe de oficiais, interrogando-se, sem resposta.

Já mais calmo e com a minúscula e degradante sala a abarrotar, entre gritos e vivas à liberdade, o capitão explicou:

- Meus senhores. Acabam de me confirmar, de Lisboa, que hoje de madrugada teve início no nosso país uma revolução que há-de ficar na história. Um grupo de capitães, através de um golpe de estado, há muito esperado, pôs termo ao fascismo e instaurou um novo regimeem Portugal. Apartir de hoje somos um país livre, totalmente livre. Uma Junta de Salvação Nacional, já formada, irá tomar conta do poder e mudar os destinos do nosso país. Isto significa, para já, o fim desta guerra maldita e o nosso regresso a Portugal o mais rapidamente possível.

As últimas palavras de Cachadinha já nem se ouviram. Os presentes manifestavam-se, entusiasticamente, entre gritos de “liberdade”, “abaixo o fascismo” “vivam as Forças Armadas”. Uns abraçavam-se efusivamente, alguns bebiam em demasia, outros gritavam esbaforidamente e, pelo rosto nervoso de muitos, corriam lágrimas… lágrimas de alegria e emoção. Mas o que todos mais sentiam, era a certeza de em breve terminar a guerra e regressarem a Portugal...

A noite, na camuflada messe de oficiais, foi de vigia contínua e festança. Já alta madrugada, quando furriéis, sargentos e soldados regressaram aos seus abrigos, entre copos e trambolhões, Cachadinha, com os olhos esbugalhados de álcool e alegria, confirmava:

- O dezasseis de Março fracassou, mas o movimento não morreu. Isto não podia parar. A situação aqui, na Guiné, era insustentável. Todos os comandos estavam de alerta, previa-se um ataque em massa, pelo PAIGC, com apoio da OUA.

- Estamos verdadeiramente no fim do mundo! – Lamentava o Carvalhal. – Uma revolução de madrugada, em Portugal e nós aqui todo o dia, até às onze da noite, sem saber de nada...

A noite, embora já perto do fim, custou a terminar. Cachadinha não dormiu. Passava-lhe pela mente, a mulher, os filhos, o regresso à “Santiago e Irmão”, a retirada dali, os caminhos cheios de minas, a evacuação dos trinta mil homens que lutavam na Guiné e o futuro dos soldados de cor, fiéis ao exército português.

A noite seguinte foi trágica. O quartel foi atacado, mais uma vez. Corrida para as valas... Resposta de Pirada... Dois mortos...

- Os tipos do PAIGC, nas zonas mais interiores ainda não sabem o que se passa...  – Explicava Cachadinha. – Os informadores disseram-lhes que estávamos em festa e de armas paradas e os tipos aproveitaram logo... Não vai ser fácil parar tudo isto...

Os dias seguintes foram de esperança misturada com uma enorme ansiedade e com uma profunda incerteza. As notícias de Portugal, no entanto, eram óptimas. - “A revolução, denominada dos cravos, fora um sucesso. Agora reinava a liberdade, a democracia e a esperança no futuro.” – Afirmavam, unanimemente, todas as cartas.

Mas ali, bem no interior da Guiné, a 400 metros do Senegal, a situação continuava complicada. Na realidade, a muitos elementos da guerrilha, dispersos no mato, em pequenos grupos, quase isolados, não chegaram, tão cedo, as notícias dos acordos de paz, nem as decisões tomadas em Bissau. As estradas e caminhos continuavam minados, as pontes permaneciam armadilhadas, os ataques aos quartéis eram cada vez mais frequentes e as emboscadas às colunas não cessavam.

A manhã de oito de Agosto nasceu calma e apaziguadora, pese embora, entre os comandados de Cachadinha, a azáfama fosse grande. Tinha sido a última noite no pequeno e mísero aquartelamento de Bajocunda!

No centro do quartel, um pequeno mastro com a bandeira portuguesa. De um lado, pouco mais de meia dúzia de soldados do PAIGC, de farda acinzentada, rosto tristonho, tímidos e de aspecto cansado. A chefiá-los um graduado. Do outro lado os cerca de sessenta homens que Cachadinha comandava, excepto os nativos, que durante os dias anteriores haviam, progressivamente, desertado, sem que ninguém a tal se opusesse. Cahadinha, em passo militar, dirigiu-se para o graduado negro. Fizeram a continência recíproca, cumprimentaram-se muito formalmente e colocaram-se perfilados, em frente à bandeira portuguesa, de continência em riste.

O Penha da Silva deu ordens à hoste lusa:

- Apresentar! Armas! Up!

Logo um rumor enorme de pés a bater no chão, mãos a pegar em armas e estas a escorregarem sobre fardas, se fez ouvir. Os soldados do PAIGC obedeceram também a idênticas ordens do seu chefe, imitando, desajeitadamente, os gestos dos militares brancos. De seguida, Cachadinha e o oficial negro passaram revista às tropas e voltaram a perfilar-se diante da bandeira.

Seguiu-se um toque de clarim. Um soldado branco dirigiu-se para o poste e, desamarrando os fios, fez descer, lenta e solenemente, a bandeira portuguesa. Depois, dobrando-a muito cuidadosamente, veio, em passos ritmados pelo rufar dos tambores, ladeado por dois colegas, colocá-la nas mãos de Cachadinha. Um soldado negro, dirigiu-se então, para o poste e, amarrando a bandeira negra, verde e amarela do PAIGC, fê-la subir, com cerimonial idêntico.

- Que desgosto! – Comentava, à socapa, o sargento mais velho da companhia e que já ia na quarta comissão no Ultramar. - Que vergonha! Sermos derrotados desta maneira! Sem honra nem glória!

- Deixe lá, meu sargento! – Aconselhava o Tulhas em voz baixa. – Perdemos a guerra mas ganhamos a liberdade. A guerra acabou, mas não acabou a tropa. Se você quiser ainda pode continuar a tropa, lá em Portugal.

Penha da Silva voltou a dar ordens. Todos se puseram à vontade e, rodeando os soldados do PAIGC, procuravam, pô-los à vontade, abraçando-se uns aos outros como se sempre tivessem sido amigos.

 

Nessa tarde, Cachadinha e os seus homens, entre lágrimas de saudade e eflúvios de alegria, abandonaram o pequeno quartel situado na aldeia de Bajocunda, na fronteira da Guiné com o Senegal, onde haviam permanecido mais de um ano. A população da tabanca, entrara no quartel, como que tomara conta dele e abanava-lhes sem grande convicção.

A companhia direcção de Tabassi, através da “picada” que dava Pirada dirigiu-se para aquele aldeamento, localizado na fronteira com o Senegal, juntando-se ao Batalhão a que pertencia. Passados alguns dias, rumaram a Nova Lamego, onde esperaram o avião em que viajariam até ao aeroporto de Bissalanca, aguardando, finalmente o tão almejado voo para Lisboa.

Mas, naquela tarde, não partiram todos!

Faltavam os negros que haviam desertado sem destino, abandonados e sem protecção de ninguém. Sabia-se que muitos já haviam sido fuzilados enquanto outros estavam presos, à espera de julgamento por traição à pátria. Alguns, mais afoitos e expeditos, os mais valentes e destemidos, tinham fugido. Faltavam, também, os dezanove brancos que, juntamento com a companhia chefiada por Cachadinha, haviam partido de Lisboa, os dezanove que sucumbiram às balas, aos obuses e aos morteiros e que não puderam participar naquela retirada precoce e inopinada, que a madrugada de 25 de Abril originara.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:05





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2013

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031