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ROSA TÂMARA

Terça-feira, 03.09.13

Lá fora soprava um vento terrível. A chuva caía em catadupa sobre o velho casebre e ricocheteava-se no telhado, fazendo um barulho quebrado, persistente e assustador. Ao longe, uma ameaça de tempestade e um ribombar de trovões que, de tão frequentes, se misturava cada um, como eco do anterior. O mar roncava com uma sonoridade aterradora. A tempestade crescia galopante sobre o casario encastoado, aqui e além, no sopé da montanha, a ligar o mar à serra.

Rosa Tâmara, sentara-se desde há muito, junto à mesa da esconsa cozinha, onde um candeeiro a petróleo, com um vidro sujo e defumado, projectava uma luz muito frouxa e titubeante pelos meandros da velha cozinha. Ao redor os filhos, uns a dormitarem, outros a olharem o tecto pintado de tisna e felugem, como se cuidassem que pelas frestas dos telhados pudessem dar ordens ao vento para que acalmasse e à chuva para que amainasse. Apenas o mais velho, o Tóino, já um homenzinho, se mantinha debruçado sobre a mesa, mudo e, inquietantemente, pensativo.

Fora de tarde, a meio da tarde que o José da Ribeira, numa aflição angustiante lhes batera à porta. O pai abriu-a e deu de caras com o da Ribeira, impertinente e peremptório:

- Eh, home, caminha-me já pra esses matos! A tua gueixa vermelha saltou o tapume e entrou na do Barradas. Sabes como ele é, quando o gado de um ou de outro entra no que é dele. Vá por aí acima, home, antes que seja tarde e ele descubra ou alguém lhe venha mexericar… e está o caldo derramado.

Apesar da tempestade que começava a delinear-se, da forte oposição da mãe que por nada deste mundo deixava o seu homem caminhar por ali acima com aquele tempo, o pai não ouviu mais nada. Calçou as botas, vestiu uma froca, encapuzou-se com um saco de serapilheira, meteu um foicinho ao ombro e zarpou pelas íngremes e apedregulhadas veredas que conduziam à serra. Bem caminhou atrás dele até ao portão, bem o chamou e bem lhe pediu para o acompanhar. Mas o pai nada. Apenas um sinal reprovador da sua benevolente intenção.

Depois o tempo piorara, e a tempestade da tarde, ao anoitecer, transformara-se em temporal. Agora estavam ali, àquelas horas, medrosos, inquietos, açulados por aquela intempérie… E o pai sem aparecer…

A mãe, para não amedrontar os mais pequenos, simulava, num sorriso dolente, amortecido e, benevolentemente, maternal, a preocupação que lhe ia na alma e a angústia que lhe trespassava o peito. Cruzavam-se os olhares num silêncio demolidor.

Rosa Tâmara, agora com lágrimas bem visíveis a escorrerem-lhe por uns olhos muito esverdeados, pegou no mais pequeno, enroscou-o no regaço, abraçou-o, beijou-o e foi deitá-lo. Depois a Josefina, o Manel e a Rita. Todos dormiam, excepto ele o Tóino e a mãe.

A chuva parecia ter abrandado mas o vento soprava agora com uma força tão forte e tão avassaladora que parecia balancear o pequeno casebre. Os sopros das rajadas mais fortes entravam pelas frestas do telhado. A luz do candeeiro lambareava, apagando-se e reacendendo-se a cada rajada. Os trovões ribombavam assustadores, misturados com relâmpagos. Parecia que o céu se abria de um extremo ao outro da terra.

Na velha cozinha, o silêncio mantinha-se, tornando o temporal maior, mais pertinente, mais enigmático e mais assustador:

- E aquele homem caminhar assim, com este tempo, por esses matos, por causa de uma rês que saltou para a terra do outro… do outro… do maldito do Barradas.

Tóino, por fim, também adormeceu.

- Aquele homem nunca dá p’lo qu’ei digonunca dá por mim… Razoava Rosa Tâmara, enquanto ia deitar o Tóino, na sala, junto com os outros. As meninas focavam no quarto dos pais.

Rosa Tâmara ficou só, silenciosa, triste e desolado ao redor do barulho intempestivo do temporal e da quietude sonolenta dos pequenos. Decerto que já passava muito da meia-noite. Aqui e além, no meio daquela tenebrosa atribulação matinal, ouvia-se o cantar de um ou outro galo, mais afoito e destemido.

- Aquele homem nunca devia ter caminhado p’ra esses matos… Com este tempo. Padre Nosso qu’estais nos Céus… - e agarrava as mãos uma na outra, como que a tornar a prece mais fervorosa.

Uma rajada de vento fortíssima, acompanhada de um enorme clarão, fez estremecer a casa, como se de um abalo de terra se tratasse. Um rugido aterrador e fatídico. Rosa Tâmara deu um grito de terror, de mágoa, de mau augúrio e estranho presságio. A luz, ou porque o petróleo faltasse ou porque o vento soprasse mais forte, extinguiu-se definitivamente e Rosa Tâmara não quis mais acendê-la. Ao longe, cães uivavam.

 

A madrugada ainda não havia clareado de todo e o tempo ainda se mantinha revolto, embrulhado numa neblina escura e ameaçadora. Na rua um burburinho aflitivo, preocupante e desolador:

- Um homem fora encontrado caído num valado, na serra. Havia sido atirado por uma rajada de vento e atingido por um raio fulminante.

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publicado por picodavigia2 às 12:02





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