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SOPAS DO ESPÍRITO SANTO

Sábado, 07.09.13

“Sopas de Espírito Santo” é um prato típico, muito especial, confeccionado em todas as ilhas açorianas, por altura das festas em honra do Paráclito e que tem a sua origem ligada aos objectivos primordiais dos chamados “impérios” do Espírito Santo, também eles muito divulgados em todas as ilhas. Estes objectivos são, fundamentalmente, o da partilha da carne e do pão, pelos mais necessitados. Cuida-se que inicialmente a carne e o pão seriam distribuídos apenas pelos pobres, mas que, na prática, eram repartidos com quase todos os habitantes de cada uma das freguesias das nove ilhas, uma vez que nestas reinava bastante pobreza. Inicialmente, a carne seria oferecida crua juntamente com o pão cozido, costume que ainda se mantinha na primeira metade do século passado, nalgumas ilhas ou em algumas freguesias, como era o caso da Fajã Grande das Flores. Hoje, praticamente, em todas as ilhas, em todas as freguesias e em todos os impérios a carne e o pão são partilhados depois de cozinhados, sob a forma de Sopas do Espírito Santo.

Estas sopas são confeccionadas com pão seco que é, posteriormente, coberto com o caldo que resultou da água que cozeu a carne, devidamente temperada. Ao pão, antes de ser coberto com o caldo, é, também, adicionada hortelã e outros condimentos. A carne cozida serve-se juntamente com o pão. Tradicionalmente, estas sopas são servidas no dia das festas do Divino Espírito Santo, a todos os irmãos e a muitos convidados. No Pico, quer no domingo de Pentecostes, quer na segunda e na terça-feira seguintes, assim como no domingo da Trindade, são servidas dezenas de milhares de refeições deste tipo de sopas. Se tivermos em conta que numa freguesia relativamente pequena, como é a de São Caetano, apenas num dos seus dois impérios, no da Prainha, na terça-feira do Espírito Santo, são servidas cerca de quinhentas refeições e que todos os impérios da ilha do Pico, alguns deles bem maiores, servem sopas, durante aqueles três dias e ainda no sábado que os antecede e no domingo da Trindade, poder-se-á ter uma ideia da quantidade de refeições que, nestes dias, são oferecidas em louvor do Espírito Santo. Para além destas sopas, é incluída no cardápio do dia da festa, em muitas das freguesias picoenses, a famosa carne assada e, por fim, ainda é servido o tradicional arroz doce, sobre o qual, com canela em pó, é desenhado, em cada prato ou travessa, o símbolo do Paráclito, nas ilhas – a coroa.

Em todas as ilhas é possível comer estas sopas, todavia a receita vai variando de ilha para ilha e até mesmo de freguesia para freguesia. Entre as muitas e variadas sopas açorianas, a mais popular é esta, a do Espírito Santo, também conhecida por sopa do Império, a qual faz parte integrante da ementa do almoço, no dia da festa do Espírito Santo, sendo tradicionalmente realizada, regra geral, por altura do Pentecostes. Há, no entanto, confecção das mesmas, a quando do cumprimento de promessas em honra do Divino Espírito Santo, sobretudo por parte de emigrantes e que acontecem por alturas do verão. Mas, para além disso, cada vez se tem enraizado mais o hábito de as confeccionar por altura de qualquer acontecimento, festividade ou comemoração importante.

Para a confecção das sopas, no caso da ilha do Pico, basta cozer a carne de vaca em água com os respectivos temperos. É nestes que reside o segredo das sopas e do seu delicioso sabor. De seguida, parte-se o pão em pedaços, colocando-os em tigelas grandes ou terrinas. Deita-se o caldo de cozer as carnes por cima do pão até este ficar bem ensopado e abafam-se as sopas, até à altura de serem servidas.

Não há ilha açoriana onde se não façam, as sopas do Espírito Santo, sobretudo nos meses de Maio ou Junho. A acompanhá-las, o bom vinho da região. As sopas do Espírito Santo são uma espécie de ex-libris pantagruélico das ilhas, sendo servidas em muitas outras ocasiões, sobretudo em festas, casamentos, jantares de convívio ou de comemoração, em encontros de amigos, a visitantes e, até, fazem parte das emendas de muitos dos mais credenciados restaurantes das ilhas. Além disso, têm ultrapassado fronteiras, sendo servidas em quase todo o mundo onde se encontram emigrantes açorianos, nomeadamente nos Estados Unidos e Canadá.

Na freguesia de São Caetano, para além do chamado Império da Prainha, outrora um dos maiores do Pico, existe um outro Império de Espírito Santo, na Terra do Pão, sendo que a festa realizada por este império, se celebra no mês de Julho. Num e noutro destes dois impérios, no dia da realização da respectiva festa, servem-se, a todos os habitantes da freguesia e a muitos convidados, as tradicionais deliciosas sopas de Espírito Santo. Mas é especialmente, na Terra do Pão, em Julho, talvez por mais raras durante aquele mês, que estas sopas tem um sabor especial e são tremendamente gostosas e muito desejadas porquanto se confeccionam e, sobretudo, se servem com muito amor, carinho e dedicação

Infelizmente tenho que me abster destas sopas ou saboreá-las com moderação, talvez mesmo comer apenas o pão, evitando a carne. Eventualmente, até poderei ficar, apenas, a apreciar o seu aroma, o seu sabor, o seu aspecto. É que, lamentavelmente, estas belas e deliciosas sopas, sobretudo pela tenrinha carne de vaca que contêm, estão absoluta e radicalmente interditas aos doentes portadores de insuficiência renal.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:03





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