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CHEGADA A PONTA DELGADA

Terça-feira, 10.09.13

A cidade de Ponta Delgada, naquela manhã em que pela primeira vez cheguei à ilha de S- Miguel, despertou cinzenta, enevoada e banhada por uma chuva persistente, irritante e miudinha. A estender-se sobre uma enorme e longa planície, a maior urbe açoriana como que se escondia de quem ali chegava, de barco, vindo das outras ilhas, ocultando as suas igrejas, os seus palácios, os seus monumentos, os seus jardins e até grande parte do seu casario, não apenas por entre as brumas e nevoeiros matinais, mas também por de trás dos altíssimos e esbranquiçados prédios da Avenida Marginal. Esta estendia-se e prolongava-se, paralela à baía, desde do Castelo de São Brás até à igreja de S. Pedro, permitindo, no entanto, concluir-se que, a partir daí, a ilha do Arcanjo, que eu demandava pela primeira vez, continuava muito para além, ultrapassando a Lagoa e Vila Franca, através de um verde desbotado, entontecido pelo enevoado das brumas matinais. Um espectáculo grandioso, magnífico, e arrebatador, muito diferente do que observara, quer quando chegara à Horta, quer quando permanecera fora de Angra, um dia inteiro, mas do qual eu, aos poucos, me ia alheando, mais preocupado com a inexaurível angústia que sentia e a enigmática situação em que me encontrava.

Depressa o padre que ali estava à espera dos que demandavam o Seminário agregou ao seu redor um enorme punhado de crianças, acabadas de sair do vetusto paquete atracado à doca. Uns, trajando fato preto e gravata, mais expeditos, mais lestos, mais afoitos, mais conhecedores do pequeno mundo onde agora eram despejados, abraçavam em eflúvios de satisfação e alegria recíproca aquele homem de batina preta e gabardina azul, elegante, aprumado e sorridente, que espelhava no rosto e, sobretudo, nas atitudes uma alegria contagiante e atraente. Eram os do segundo ano, que regressavam de férias, do Pico, de São Jorge e da Terceira, Outros, entre os quais eu me incluía, mais tímidos, mais angustiados, mais temerosas, esperavam, apreensivos, a sua vez de também cumprimentarem aquele que, cuidavam, seria um dos professores que os acompanharia no Seminário, durante os próximos dois anos.

Quando chegou a minha vez de cumprimentar o padre e me apresentar, aproximei-me, tímido e assustado, tentando, beijar-lhe a mão, conforme as indicações que recebera da Dona Maria, a irmã do Senhor Padre Pimentel, quando, ainda na Fajã, na véspera de embarcar, me fora despedir. Indicara-me a casta e douta senhora que, quando chegasse ao Seminário, sempre que me aproximasse dos Superiores ou de outro senhor padre qualquer para os cumprimentar, lhes havia de beijar a mão direita. O sacerdote, no entanto, sem que eu o pudesse evitar, fez um intencional esforço por manter o braço baixo, permitindo, assim que eu apenas o cumprimentasse e não lhe osculasse a mão. Além disso, mantendo a minha mão presa pela sua, por alguns segundos, perguntou-me:

- E tu? Como te chamas e donde és?

Indiquei-lhe o meu nome, acrescentando que era das Flores, da Fajã Grande das Flores. Logo, num micaelense sibilante e adocicado, exclamou, com um misto de alegria, como que se tentasse desmoronar a tristeza que me extravasava do rosto e a mágoa que me acabrunhava o espírito:

- Ah! Tu é que és das “Felores”! Estás todo molhado, meu filho! Precisas de mudar de roupa, depressa.

Por instantes animei-me e contive, parcialmente, o meu sofrimento e a minha angústia, com as palavras ternurentas e amigas do padre. Afinal, sendo ele um Superior do Seminário, estava muito bem informado, pois até já sabia que vinha um candidato das Flores e preocupava-se comigo, por eu estar molhado. Além disso o padre, que nessa altura revelara, a um outro mais curioso do que eu, o seu nome – Agostinho Tavares – voltou a chamar-me:

- Vai, depressa, dizer àqueles senhores quais são as tuas malas. Vamos tentar despachá-las o mais cedo possível, para que mudes de roupa quanto antes.

Eu, cada vez mais animado com a atenção que o padre me dispensava, retorqui, dizendo-lhe que não podia abrir as malas, pois havia perdido as chaves. Mas o padre, a ter que a atender a tudo e a todos, já não me ouviu.

Não demorou muito, aquele aglutinado espontâneo. Pouco depois de o padre Agostinho Tavares, se certificar de que não havia mais nenhum candidato a seminarista a bordo do Carvalho, juntou todos os que ali estavam ao seu redor, informou-nos de que os empregados haviam de tratar da bagagem mais pesada e transportá-la até ao Seminário.

De seguida partimos, em rancho, na direcção daquela que seria a nossa casa durante dois anos.

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publicado por picodavigia2 às 21:14





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