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DAS FLORES AO TORRÃO

Sexta-feira, 20.09.13

Quando o Belarmino terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam dificuldades incontáveis, desânimos reiterados e, vezes sem conta, uma vontade quase incontrolável de desistir. Agora estava tudo superado. Os anos que se seguiriam, que estavam apenas atordoados com a constante ameaça da tropa e, pior do que isso, com a guerra do Ultramar, trazer-lhe-iam o singrar numa carreira profissional por muitos desejada mas por poucos conseguida.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe. Aguardava-o, como aos outros da sua idade, o destino de ficar ali, na ilha, vergado ao peso da enxada ou agarrado à rabiça do arado, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, galgando as encostas da Rocha ou transpondo as veredas dos Matos, em suma, condenado para toda a vida aos trabalhos inerentes a uma mísera agricultura de subsistência.

Cedo, porém, tentou libertar-se. Mas não foi fácil. Eram os entraves paternos, afirmando que trabalho digno de tal nome só o agrícola e eram os irmãos, atormentados pelas lides árduas dos campos, persistindo em contrariar a degeneração do último rebento dos Rodrigues.

Foi a D. Ilda, que o acompanhara da primeira à quarta classe e que não cessava de louvar a inteligência do garoto, que, a muito custo, demoveu o pai do seu persistente carracismo. Eram os irmãos de enxada às costas e foice na mão a caminho da Eira-da-Quada e dos Lavadouros e o Belarmino a tomar a camioneta para Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia,

Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros, por entre protestos execráveis e reclamações improfícuas, mais se excruciavam a cavar as belgas do Mimóio ou a sachar as courelas do Areal e viam o leite mingar na tijela das sopas, que agora não era só o sustento da casa. Não era bem aquilo que o Belarmino queria, mas Universidade nos Açores era um mito. Quem optasse por estudar tinha apenas duas alternativas: o Magistério ou o Seminário. A escolha, para o Belarmino, foi inequívoca.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão. Livros emprestados. Gastos supérfluos, nem pensar. Além disso, o Carvalho que chegava mensalmente das Flores e atracava à doca da Horta, trazia, juntamente com o correio e uma caixita de vitualhas diversas, uma enxurrada de ameaças:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Teu pai diz que há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e o cerrado das Furnas está à espera do arado e da enxada.

Nas férias matava-se a trabalhar. Os irmãos atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos maiores, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vidinha que levas durante o Inverno.

Mas chegou o fim do Magistério e o concurso para professor. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar o arquipélago, até porque temia cada vez mais o estigma da guerra do Ultramar, à qual se sabia que de Lisboa era mais fácil fugir do que das ilhas, decidiu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais pobres e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge.

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade. Finalmente as listas saíram. No átrio da Delegação Escolar da Horta, os recém-formados acotovelavam-se, na ânsia da certeza duma colocação. Como era impossível ver fosse o que fosse, o Gregório, por ser mais alto, ia apregoando:

- Amélia Martins da Silva – Fajã dos Bodes.

- Ana Maria Ferreira Borges – Barro Branco.

- Beatriz Deolinda de Melo Bettencourt – Ponta Ruiva.

- Belarmino José Pimentel Rodrigues - Torrão.

O Belarmino ficou branco e mudo. A medo indagou:

- Tô quê?!

- Torrão – repetiu o Gregório.

- Isso é no Continente?! Nos Açores não há terra com esse nome. Deve ser em Trás-os-Montes. Eu bem te dizia... – Balbuciou a Graça.

- Em Trás-os-Montes fica é o Marão. Mas aqui o que está escrito é Torrão. Lá onde fica não sei – acrescentou o Gregório, perante a indignação dos que ainda não tinham ouvido o seu nome.

À volta ninguém sabia onde ficava aquela terra.

- Lá sítio bom, não deve ser - comentava uma outra colega. – Pelo nome... Antes a Fajã da Sanguinha em S. Jorge ou a Ponta da Achada em S Miguel.

Foi o Guedes, que pondo-lhe o braço sobre o ombro, aconselhou:

- Calma Bernardino! Sabias muito bem, quando concorreste, que não ficavas em Lisboa ou em Coimbra. Mas olha que não deve ser tão mau como isso. Acho que Torrão fica lá para o Norte, no distrito do Porto. Mas quem te pode informar melhor é o professor Mapa-Mundi. Ele é do Continente, por isso deve saber onde fica. Vá falar com ele, com certeza que te recebe.

O Dr San-Bento era um homem baixo, magro e bastante enigmático. Uma calvície já acentuadamente desenvolvida, uns óculos redondos e muito fortes levemente descaídos sobre a ponta do nariz e um bigode farfalhudo e grisalho davam-lhe, na opinião dos alunos, uma semelhança perfeita e uma rígida equidade com o desenho de um professor que no livro da 3ª classe, de ponteiro em riste, apontava para o globo terrestre. Essa a razão porque o haviam agraciado, desde há muito, com o epíteto de “professor Mapa-Mundi’. O ar caricato do Dr San-Bento acentuava-se notoriamente com dois tiques: esfregava continuamente as mãos uma na outra como se estivessem sempre geladas e, sobretudo em momentos que tentava demonstrar a sua esperança convicta num futuro melhor, saía-se com o chavão “ gente nova, tempo novo.”

José António Alves da Silva San-Bento era um alentejano de gema. Nascera em Castro Verde, estudara em Coimbra e iniciara a carreira de docente no Liceu de Beja. Foi a vida académica que lhe estimulou os primeiros sentimentos de revolta contra o regime salazarista, aceleradamente açulados durante os primeiros anos de docência na capital alentejana.

O Alentejo, na opinião do jovem professor, apesar de votado ao abandono e ao ostracismo por parte de Lisboa, tinha um vigor e uma beleza que se reflectiam na imensidade das suas planícies, na alta nobreza dos seus montados de sobro e azinho, no esteval cerrado, na giesta ramalhuda ou no piorno em mata, que floresciam ao longo das suas planícies. O Alentejo, escrevia San-Bento nos jornais de Beja, senão fecundo é atraente, senão fértil é aprazível e dos seus rios transborda uma esperança de tranquilidade quase transcendente e infinita. Há qualquer coisa de imponente na sua aridez, na sua secura e no seu aspecto semidesértico, que contrasta com o cercear de um desenvolvimento que tarda em impor-se e germinar. A paisagem transtagana transporta-nos na contemplação dum idílio permanente e bucólico entre o céu e a terra, numa aspiração infinita de sonhos transcendentes e de liberdades desmesuradas. Se por um lado, o Alentejo é um sertão árido, uma gândara ou um chavascal povoado de feras e de uma secura desesperante, por outro é um recanto ubérrimo onde a paisagem tem um cunho de grandiosidade e beleza que se impõem em cada momento e em cada espaço. A sua grei também tem uma fisionomia especial, estigmatizada numa nobre independência, num coração generoso, numa contumaz personalidade, num desejo de libertação. Altivo e trabalhador, atlante de bondade e carinho, acomodado ao trabalho e à luta, mas não subjugado ao despotismo, o alentejano, por um lado mistifica-se numa mudez e num silêncio observador mas, por outro, galvaniza-se numa desmedida ânsia de libertação do esclavagismo, da pobreza e do abandono. O alentejano marca a sua individualidade, não apenas quando veste o pelico ou quando calça os safões, mas quando na sua rudeza e simplicidade manifesta a sua idiossincrasia quer através  da sua linguagem salpicada de frases típicas, de sainetes quer por meio dos seus cantares e tradições, que encerram o grito de revolta da sua alma. O alentejano encarna um espírito nobre e altivo, uma dignidade de vida e de costumes, ornado de um esperança infinita em tempos novos. Em suma, concluía San-Bento vezes sem conta, o Alentejo é sinónimo de gente nova, tempo novo.

Os escritos do Dr San-Bento, mais pelo que se lia nas entrelinhas do que nas linhas, trouxeram-lhe a perseguição da PIDE e o degredo para os Açores, sob a forma simulada de serviço militar, fixando-o durante alguns anos no Quartel de S. João Baptista, na ilha Terceira. Foi Angra primeiro e a Clotilde mais tarde que se encarregaram de o demover do sonho de, terminada a tropa, regressar ao seu Alentejo. Decidiu-se por ficar definitivamente nos Açores, na mui nobre leal e sempre constante Angra do Heroísmo, leccionando no Liceu de Angra, aquartelado no velhinho convento de S. Francisco, até porque a calma e serenidade das ilhas haviam-lhe proporcionado um crescimento galopante de sentimentos, atitudes e escritos antifascistas. Tal crescendo, porém, teve como consequência uma nova mas mais suave perseguição por parte da polícia política, configurada, alguns anos mais tarde, numa discreta transferência para a ilha do Faial.

Agora, na Horta, empenhava-se apaixonadamente na formação dos alunos da Escola do Magistério, dos futuros professores e a pouco e pouco, quer porque a idade fosse avançando quer porque a pequenez e o isolamento da ilha lhe cerceavam a divulgação de ideias e escritos, limitava-se a guardar na memória os sentimentos, cada vez maiores, da revolta que lhe ia na alma. A esperança cada vez mais convicta de que regime do velho ditador havia de cair pela força e coragem duma nova geração cravara-se definitivamente e bem fundo na alma do velho professor, onde era guardada como um tesouro escondido que um dia havia ser revelado. Ele, formador dos novos mestres, era cúmplice dessa futura renovação, da chegada de um tempo novo. Por isso, quer nas suas aulas quer em todo e qualquer local que tivesse oportunidade de falar, sintetizava todos esses sentimentos e ideias numa expressão muito a seu gosto “gente nova, tempo novo”, com a qual de facto simbolizava a sua esperança num Portugal novo, democrático, onde os direitos fundamentais do homem haviam de ser religiosamente respeitados, um Portugal com uma geração nova, que havia de nos conduzir a um tempo novo, onde reinasse a paz, florescesse a verdade e se cultivasse a justiça.

Era sobretudo o consciente sentido de responsabilidade pela formação desta nova geração que o acomodava agora a um mutismo oposto às frequentes extravasões dos seus ideais, quer em Beja, quer em Angra.

Foi o Dr San-Bento que esclareceu definitivamente o Belarmino. O seu ar enigmático e taciturno alterou-se de imediato, quando este lhe atirou com Torrão. Levantou-se e apontando para o ar com o dedo indicador exclamou:

- Torrão! Torrão! Foste colocado em Torrão, concelho de Alcácer do Sal. Parabéns meu rapaz. É uma terra excelente!

- O senhor Doutor conhece Torrão? Já lá esteve?

- Claro – continuava San-Bento. – Já lá estive muitas vezes. Tenho lá um grande amigo o Dr. Emílio Assunção. Somos conterrâneos, nascemos no concelho de Castro Verde, ele em São Marcos de Atabueira e eu em Entradas, numa freguesia vizinha. Quantas vezes fomos pescar juntos para a ribeira de Cobres! Belos tempos! Ele é médico em Torrão e já lá vai um bom par de anos que o não vejo. Hei-de recomendar-te a ele, quando para lá fores. É um homem que adora aquela terra, tem lhe dado muito e feito muito por ela. A esposa, a D. Ermelinda é professora lá. Maravilhoso! Maravilhoso! Vais ser colega da D. Ermelinda!

- E que tal a freguesia, senhor doutor? Será fácil arranjar pelo menos um quarto onde possa ficar nos primeiros tempos?

- Torrão embora pertencendo ao concelho de Alcácer do Sal é vila, talvez mesmo a vila mais tradicional do Alentejo, pelo seu casario, património e cultura popular – acrescentava com entusiasmo San-Bento e esfregando as mãos com grande intensidade uma na outra, prosseguia:

- Linda vila, meu rapaz, linda vila de casas térreas, muito brancas, com chaminés escuras rentes ao beiral. Além disso aquilo é terra com história. O Torrão esconde uma história de séculos e séculos, que se inicia na pré-história, passa pela romanização e pela ocupação árabe. Tem uma igreja matriz muito interessante e de grande valor histórico e arquitectónico. É um belo templo de três naves e várias capelas. O púlpito, que se destaca de uma coluna, é uma bela peça de cantaria, pouco vulgar entre nós. No cruzeiro e capela-mor existem belos azulejos. Outra edifício notável na vila de Torrão é a igreja da Palma, onde existem ricos painéis de azulejos do século XVIII e que representam cenas da vida da Virgem Maria e de S. João Baptista. Além de todos estes motivos que fazem do Torrão uma localidade historicamente riquíssima há um outro facto também notável, que individualiza aquela terra. Foi esta freguesia berço de vultos ilustres, dos quais se destaca o grande escritor quinhentista, autor da tão célebre obra “Menina e Moça”, o poeta das “Saudades”, Bernardim Ribeiro.

- Mas casa, senhor doutor, casa? Acha que consigo alugar ao menos um quarto? – Interrogava o Belarmino mais preocupado com o seu futuro imediato do que com o autor de “Menina e Moça”.

- Bem – concluiu San-Bento sem lhe dar ouvidos – vais iniciar a tua vida profissional numa grande terra, no Alentejo. Num Alentejo que, mais do que qualquer outra região de Portugal precisa de gente nova. Só com gente nova teremos um Alentejo novo.

- Gente nova, tempo novo – balbuciou o Belarmino e interrogava: – Mas casa senhor doutor casa? Será fácil arranjar casa lá?

A pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, filho de um amigo do dr Assunção, veio receber o Bernardino a Lisboa, ao cais de Alcântara onde o Carvalho Araújo havia atracado. Levou-o até à Alcácer e dali ao Torrão, onde o dr Assunção já lhe havia garantido alojamento.

Mas só depois de se despedir do Rodrigo, quando ficou só, é que o Belarmino, trazendo à memória o dito tantas vezes repetido pelo dr San-Bento “gente nova, tempo novo”, entendeu verdadeiramente que começava ali o princípio duma nova vida.

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publicado por picodavigia2 às 17:25





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